Rui Rio: "A minha não recandidatura poderia levar o partido à fragmentação"

Rui Rio quebrou esta segunda-feira o silêncio sobre o seu futuro político e anunciou a sua recandidatura à liderança do PSD contra Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz. E vai liderar a bancada parlamentar até ao congresso de fevereiro.

O líder do PSD anunciou a sua recandidatura à liderança do PSD, no Porto, com um ataque violento muito dirigido Luís Montenegro, que o vai enfrentar nas próximas diretas. "Falta de imaginação e de lealdade ", "hipocrisia", "vaidade", "ambição" e "interesse pessoal", foram palavras que dirigiu sobretudo ao antigo líder parlamentar, que já o tinha tentado depor do cargo em janeiro deste ano.

E apesar de já existir outro candidato à liderança assumido, Miguel Pinto Luz, vice-presidente da câmara de Cascais, foi para Montenegro que Rio apontou todas as baterias. Assumiu que se candidata, após "profunda reflexão", porque os apelos foram às dezenas e os argumentos ponderosos. Sobretudo o de que "a minha não candidatura poderia levar o partido à fragmentação".

O presidente do PSD quis separar o seu projeto político de Montenegro, que foi o fiel líder de Pedro Passos Coelho, que encostou o partido mais à direita. Disse sentir a necessidade de o manter na matriz "social-democrata" e ao centro. "Portugal precisa de um PSD livre, livre de interesses pessoais, os que comandam os aparelhos", assegurou. E ainda acrescentou que o partido não pode ser tomado por "grupos" com interesses pouco claros.

Citou mesmo o nome do antigo ministro de Passos Coelho, Miguel Relvas, apoiante de Miguel Pinto Luz e que foi dos primeiros a exigir eleições diretas no partido. "Quando Miguel Relvas diz que não gosto do partido tem parte de razão. Gosto muito do PPD e do PSD que nestes anos fez muito por Portugal, Mas muitas vezes não gosto mesmo nada do que vejo nos partidos, incluindo no meu".

Fazendo apelo aos resultados eleitorais, os 27,7% dos votos obtidos a 6 de outubro, Rui Rio frisou que um milhão e meio de portugueses confiou no PSD e não nos que "tudo têm feito para o destruir". "O que está em jogo é demasiado importante para que a minha decisão seja outra", disse.

Rio quer liderar a oposição ao governo de António Costa e conduzir o PSD até as próximas eleições autárquicas de outubro de 2011. O que quer dizer, que caso volte a ser eleito para liderar o partido, coloca todas a fichas nesse ato eleitoral.

E porque nunca fará "aos outros o que me fizeram a mim", vai liderar a bancada parlamentar até ao congresso de fevereiro, depois das diretas em janeiro, de modo a que o futuro presidente do grupo parlamentar seja escolhido pelo novo líder eleito. Fora isso marcará a sua presença "nos grandes debates parlamentares".

Rui Rio colocou a decisão sobre o futuro da liderança do partido nas mãos dos militantes, sendo certo que aceitará "a vitória eleitoral sem euforia" ou a "derrota sem azedume".

Rio deu a entender que se a sua ponderação tivesse sido apenas baseada em razões pessoais (familiares e profissionais) não seria recandidato: "Se a decisão fosse eminentemente pessoal a decisão não seria esta." Mas, assegurou, "estou disponível para disputar as próximas eleições internas, liderar a oposição ao Governo do PS e conduzir o PSD nas próximas eleições autárquicas."

O processo de ponderação

Como o DN já tinha adiantado na semana passada, Rui Rio estava tentado a avançar para a recandidatura, mas precisava que se confirmassem algumas premissas para o fazer, entre as quais o executivo socialista não voltar a ter acordos formais com o BE e o PCP, dependendo mais do Parlamento para governar. E também escrevemos que deveria assumir a liderança da bancada até ao congresso.

Esta segunda-feira, o atual líder social-democrata anunciou a sua recandidatura. E explicou porquê: "A minha não recandidatura poderia levar o partido à fragmentação".

Não concorrer, disse, seria "a via mais fácil" para a sua vida pessoal. Mas disse querer "colocar o interesse público acima de tudo o mais" e para "servir o PSD e acima de tudo Portugal", daí ir recandidatar-se.

Desde 6 de outubro que o presidente do PSD não tinha qualquer intervenção pública e, mesmo nas reuniões partidárias, não anunciou se pretendia ou não recandidatar-se ao cargo nas diretas previstas para janeiro. Na reunião da Comissão Política Nacional, que se realizou na passada quarta-feira, o secretário-geral do PSD, José Silvano, transmitiu aos jornalistas que presidente do partido recebeu o incentivo "praticamente unânime" dos dirigentes presentes para se recandidatar à liderança do partido, mas Rui Rio nada adiantou sobre esta matéria.

Nas legislativas de 6 de outubro, o PSD obteve 27,7% dos votos (correspondentes a 79 deputados), contra 36,3% do PS (108 deputados).

Nessa noite, Rui Rio assumiu que o PSD não alcançou o principal objetivo -- vencer as legislativas -- mas defendeu que não se tratou de "uma grande derrota", explicando o resultado pela conjuntura económica internacional favorável ao Governo, pelo surgimento de novos partidos à direita, mas também pelas sondagens que terão "desmotivado" os eleitores sociais-democratas e pela ação dos críticos internos. O líder social-democrata considerou ter enfrentado, ao longo do seu mandato, "uma instabilidade de uma dimensão nunca antes vista na história do PSD e exclusivamente motivada por ambições pessoais".

Em 9 de outubro, três dias depois das eleições, o antigo líder parlamentar Luís Montenegro anunciou que será candidato à presidência do PSD nas próximas diretas, e, na sexta-feira, foi a vez de Miguel Pinto Luz, antigo líder da distrital de Lisboa, anunciar que vai estar também na corrida.

As eleições diretas do próximo presidente do PSD deverão realizar-se em meados de janeiro e o Congresso na primeira ou segunda semana de fevereiro, mas as datas concretas serão fixadas num Conselho Nacional que terá lugar em Bragança, na última semana de outubro ou primeira de novembro.

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