João Capela: "Fui fiscal da EMEL e árbitro. Era insultado sete dias por semana"

Foi um guarda-redes fracassado mas um árbitro quase realizado (faltou a Taça de Portugal), com uma infância marcada por "alguma violência doméstica". Após 22 anos, diz adeus aos relvados mas não ao apito, pois vai ser árbitro de basquetebol. Artigo publicado originalmente na edição de 22 de junho.

Vamos ao início de tudo. Quem é o homem por detrás do árbitro João Capela?
É um homem perfeitamente normal, com um início de vida muito humilde. Morei numa barraca durante seis anos, dos 6 meses aos 6 anos. A minha mãe teve de mudar de casa porque chateou-se com o meu pai e optou por me dar mais tranquilidade em termos emocionais e não viver uma vida de alguma violência doméstica. Depois comecei a jogar futebol a partir dos 8 anos, fui guarda-redes...

Guarda-redes?
Sim. N'Os Valentes, nos Olivais. Era futebol de salão, hoje futsal. Entretanto passei para o Sport Lisboa Olivais, onde comecei a jogar futebol de 11. Fui para o Olivais Sul e daí fui contratado para o Alverca, onde por acaso terminei a carreira de árbitro no domingo. Do Alverca passei para o campeonato de juniores e achava que ia ser o melhor guarda-redes do mundo. E correu mal. Fui mais um daqueles jogadores frustrados que infelizmente existem no país. Acabei a escola com 17 anos, um curso técnico-profissional de Imagem e Meios Audiovisuais. Aí para aos 21 deixei de jogar futebol, perdi o interesse e andei um bocadinho a fazer várias coisas. A entregar publicidade em caixas de correio, a carregar camiões TIR com máquinas de lavar roupa... Entretanto aproveitei o curso de Imagem e Meios Audiovisuais e trabalhei à noite como DJ. Trabalhei durante três anos à noite. Passei a ser um vampiro, como costumo dizer. Aos 23 anos, quando estava num café lá no meu bairro, vi um anúncio no jornal a dizer - "Associação Futebol de Lisboa, curso de árbitros, precisamos de ti". Fui tirar o curso e assim começou o meu percurso na arbitragem.

Não queria ficar de fora do futebol?
Exatamente. Senti falta de atividade desportiva... Entrei para a arbitragem e passados três ou quatro meses entro também para a EMEL. Ou seja, passei a ter as duas profissões mais fantásticas do país: fiscal da EMEL e árbitro. Chamavam-me nomes sete dias por semana, mas fui-me habituando. Quando optei por ser árbitro profissional, saí da EMEL porque já não era compatível.

Não é possível separar o homem do árbitro?
Não, não é possível. O homem por detrás do árbitro também tem muito que ver com o árbitro que depois faz o homem. Sou o homem que sou e devo-o à arbitragem.

Se as pessoas soubessem da sua história de vida, olhavam para o árbitro João Capela da mesma maneira?
Tenho a certeza de que não. Faço muitas apresentações, colaboro com a associação Empresários pela Inclusão Social (EPIS), em escolas, e a primeira impressão quando me abordam na rua é - afinal não é nada do que estava à espera. E eu respondo que não porque têm a imagem do árbitro.

A colaboração com a EPIS e ir a escolas para a inclusão social...
Foi através da arbitragem. Um dia fui ver um jogo da EPIS, conheci o projeto e achei fantástico. Então, comecei a ir a escolas e a prisões contar a minha história, dizer que todas as pessoas podem ter sucesso, basta querer. Ninguém está perdido. Depois não consigo ter retorno, mas sinto que consegui fazer o clic a algumas pessoas e isso para mim é fantástico, é uma realização pessoal extraordinária.

"Emagreci cinco quilos após o dérbi do limpinho, limpinho"

Porquê o adeus à arbitragem?
O adeus do João Capela teve que ver com o facto de neste ano ter ficado classificado em lugares de descida de divisão. Tive de ponderar se fazia sentido continuar a arbitrar no campeonato da segunda divisão. Não é nenhum desprimor, mas cheguei à conclusão de que às vezes a vida dá-nos sinais de que o nosso ciclo em determinada atividade chegou ao fim, um fim positivo, e temos de iniciar outro.

Não fica um sabor amargo pelo fim coincidir com uma descida de divisão?
Temos sempre mais dificuldade em encarar as coisas negativas de forma tranquila e aceitá-las, mas não existe nenhum sabor amargo porque a perspetiva foi: fechou-se um ciclo, vamos abraçar outro.

"O apito vai continuar, porque eu também sou árbitro de basquetebol"

O que vai acontecer ao apito?
O apito vai continuar, porque também sou árbitro de basquetebol. A minha filha joga basquetebol. Um dia, estava a assistir a um jogo - ali também há falta de árbitros - no pavilhão com o treinador dela, que é um amigo dos Lobos da Malveira, e ele perguntou-me se eu queria apitar um jogo, respondi que era árbitro de futebol, não de basquetebol. Fui lá para dentro e obviamente que não sabia as sinaléticas utilizadas, senti-me um bocado desconfortável. Eles riam-se todos. Acharam muita piada. Aí, pensei: não voltas a lixar-me como desta vez. Liguei para a Associação de basquetebol e tirei o curso de árbitro. E quando a minha filha não tiver árbitros eu posso ajudar. Conclusão: a paixão pela arbitragem é igual em todos os desportos.

São 44 anos, 22 de arbitragem. Há muitas memórias.
Bastantes memórias, e o que fica mais são as memórias positivas. E talvez os momentos que passamos com os nossos colegas, fora do campo e alguns dentro do campo, obviamente. Mas tenho de ser sincero, há memórias que não são positivas. Mas as que não foram positivas foram sempre levadas numa perspetiva de aprendizagem.

Isso é mesmo assim, ou é aquela resposta bonita de se dar...
É mesmo assim. Apitei um jogo muito mediático, o dérbi Benfica-Sporting, e no final senti que tinha feito um jogo à inglesa, que tinha corrido tudo bem, que estava tudo fantástico. E quando o jogo acabou comecei a perceber que o rapaz das barracas, o João Capela, era a pessoa mais importante de Portugal. E eu só dizia: isto não é possível.

Está a referir-se ao jogo em que Jorge Jesus disse que "foi limpinho, limpinho"?
Exatamente. Fui abertura de telejornais, de capas de jornais e de revistas. Colegas meus, que eram de claques, a ligar-me para eu ter cuidado, para não ir para sítios sozinho porque podia ter problemas. A minha mãe a ligar-me, a receber telefonemas em casa a ameaçá-la. Trabalho com um psicólogo desde 2004, quando estava na 2.ª divisão, após esse jogo tive muita dificuldade em manter-me saudável psicologicamente. Dei por mim a acordar às 03.00 da manhã a tentar mudar decisões que já tinha tomado em campo. Até a minha mulher, que tem sido o meu pilar, me achou estranho. Emagreci cinco quilos e estava a viver um problema. Até que olho para um troféu que tenho no escritório com a inscrição - Primeiro classificado da segunda distrital de 1997 - e pensei: já passei tanto na vida, tenho um percurso tão grande e estou a fazer isto a mim próprio? Não pode ser. Saí do escritório e fui ver o DVD do jogo e apercebi-me de que tinha cometido possivelmente um ou dois erros, e que desses dois havia um que não conseguiria nunca decidir corretamente porque na altura não havia videoárbitro e a imagem em que me pareceu que tinha errado era uma imagem por detrás da baliza. E foi aí que percebi que a minha dimensão de árbitro nunca pode ser superior à minha dimensão humana.

Um dos treinadores que mais o atacou publicamente foi Rui Vitória. Disse que João Capela "como árbitro não prestava"...
Ele disse que o árbitro não prestava... É a opinião dele. Essa história do Rui Vitória é gira, é mais uma das da arbitragem e da vida de que ele deve lembrar-se perfeitamente. A história começou num jogo de juniores entre o Benfica e o Sporting, o treinador do Benfica era o Rui Vitória e o treinador do Sporting era o Paulo Bento. E o mister, na altura, achou que eu tinha feito um mau jogo. No final do jogo, no túnel, ficou com uma ideia errada em relação àquilo que é o arbitro. Aliás, ficou com a ideia dele, com o estigma de que eu era um árbitro fraco, e foi giro ele ter dito: "Tu nunca hás de chegar a lado nenhum, nunca vais chegar à primeira divisão." Giro. Chegámos os dois à primeira divisão. Encontrámo-nos na segunda liga, na ascensão, na progressão da carreira do mister Rui Vitória, encontrámo-nos em Fátima. Um jogo que também na opinião dele não correu bem porque efetivamente já ia com aquele estigma em relação ao João Capela. Voltámos a chatear-nos um bocadinho, voltámos a encontrar-nos no Vitória de Guimarães. Falámos na cabina, nesse jogo. Acho que foi no Gil Vicente-Vitória de Guimarães que chamei os dois treinadores à cabina. E depois outra vez num Boavista-Guimarães, numa situação complicada em que o mister estava a lutar para ir à Liga Europa e o jogo não correu bem, acho que para as duas equipas. Tanto para o Guimarães como para a equipa de arbitragem, e voltou outra vez a ser polémico. A partir daí, quando cheguei ao topo da carreira, voltámos a encontrar-nos no Benfica e mantivemos sempre alguma distância. Eu não tive mais nenhuma oportunidade para falar com o mister Rui Vitória, mas não guardo rancor, são coisas que acontecem no futebol.

"Fica por concretizar arbitrar a final da Taça de Portugal. Era um sonho que tinha"

São 368 jogos, lembra-se do primeiro?
Lembro-me e não era para ser árbitro, era para ser árbitro assistente. Os meus dois colegas chegaram atrasados. Em Via Longa, quando estou a receber os delegados para decidir as coisas, entram os meus dois colegas e o colega categorizado teve uma atitude fantástica e disse: "Cheguei atrasado, faz tu." Eu fiz e quando acabou disse-me: "Agora vais arbitrar o jogo?" E eu disse: "Mas tu é que és o árbitro." E ele respondeu: "Cheguei tarde, tu é que vais arbitrar e já recebeste os delegados." Era um jogo de iniciados Via Longa já não sei com quem. O meu primeiro jogo nem foi uma nomeação, arbitrei o jogo porque o meu colega chegou atrasado.

E o jogo mais importante? Já aqui a falou de um...
Fiz três finais na minha carreira - a final da Supertaça de Portugal, a final da Taça da Liga e agora a final da Associação de Futebol de Lisboa. Todas elas marcaram por sentimentos diferentes. Sentimentos de glória, de ter conseguido fazer a final, houve o sentimento deste último jogo. Eventualmente, este terá sido o jogo mais emotivo para mim, mas recordo-me sempre do jogo quando subi a internacional, em 2011. Sempre disse que o primeiro jogo que fizesse como internacional seria na minha associação. E foi um jogo na Associação de Futebol de Lisboa, entre o Encarnação e o Olivais, e para o qual convidei dois colegas, o Hugo Guerreiro e o Manuel Santos, que me ajudaram numa altura em que desci - subi uma vez à primeira divisão e desci em 2004, 2005. Um árbitro não consegue chegar a lado nenhum se não tiver alguém a ajudar.

O que fica por concretizar?
Arbitrar a final da Taça de Portugal. Era um sonho que tinha.

E porque é que não aconteceu?
Circunstâncias. Não foi possível. Nunca fui primeiro classificado em termos individuais e isso também é um fator importante. Não faz sentido no ano em que vou descer de divisão arbitrar a final da Taça de Portugal, não é? Eventualmente, se neste ano não tivesse descido de divisão, poderia ter sido um dos árbitros que estavam no rol.

Era difícil fazer entender ao público que o árbitro que descia de divisão era o eleito para a final da Taça de Portugal...
Sim, isso já aconteceu com o Marco Ferreira e as pessoas não aceitaram bem. E eu percebo. Como é possível um árbitro descer de divisão porque teve uma época negativa e vai ter o prémio da Taça de Portugal? Mas podemos interpretar isso de outra forma, que é a tal cultura que acho que devia haver, mas sei que infelizmente ainda não conseguimos. Percebo que neste momento não exista enquadramento cultural para isso, mas hei de trabalhar para que isso seja possível.

E o jogo que foi mais problemático, aquele em que disse "hoje não tenho mão nisto a não ser que comece a sacar de cartões"?
Já senti algumas vezes isso e tínhamos estratégias. Quando sentia que o jogo estava a descambar, dizia aos meus colegas "teatro" e eles já sabiam o que era. Metia-me no meio-campo e começava a gritar, a dizer asneiras para o ar: daqui a bocado começo a meter esta malta toda na rua, e eles vinham ter comigo a pedir calma. E eu dizia que "estou calmo, vocês é que têm de se acalmar". Às vezes resulta.

E os jogadores, como se lida com eles?
Foi sempre isso que me deu esta paixão que é tentar controlar-me emocionalmente para depois tentar controlar emocionalmente 22 jogadores. À semelhança do que um professor faz na sala de aula. E isto é espetacular. E isto as máquinas não fazem. É isso que toda a tecnologia que introduzirem no futebol nunca vai conseguir superar. Nós não podemos estar a preparar árbitros para competir com máquinas. Eu não tenho flashes no campo, não consigo parar uma imagem. Como árbitro assistente, que é uma função mais complicada do que a de árbitro, é muito difícil, eu não consigo ter as linhas para decidir. Mas quando estou no campo a arbitrar um jogo é uma complexidade. Fiz alguns jogos na minha carreira que foram difíceis, tenho noção de que tomei uma ou outra decisão menos correta e não havia videoárbitro. Houve um jogo em que um assistente teve noção de que tinha errado porque no ecrã da repetição do golo deu que ele tinha feito um erro, ou seja, devia ter sido fora de jogo e não foi, e quando chegámos ao túnel, no intervalo, já estava uma equipa mandar vir e ele disse "tem toda a razão, eu errei". As pessoas ficaram a olhar e a pensar "pronto, já não vou dizer nada".

Deu-se bem com o VAR logo de início ou foi complicado? A polémica não terminou...
Sim, mas quem faz a polémica não é o videoárbitro, são as pessoas que analisam as decisões. Acho que nós não necessitaríamos de videoárbitro se, por exemplo, o Thierry Henry quando marcou com a mão no célebre jogo França-Irlanda tivesse tido o comportamento ético, como figura que era, de chegar ao pé do árbitro e dizer "senhor árbitro, desculpe, foi com a mão, não é golo". Se ele tivesse feito isto, se calhar não estávamos hoje a discutir o videoárbitro. É a minha opinião e vale o que vale. Portanto, temos de trabalhar esta parte ética nos jovens. O problema do videoárbitro é que as pessoas querem que o sistema intervenha em tudo o que é a decisão do árbitro. E quando for assim tiramos o árbitro de dentro do campo... Mas depois a máquina não lida com as emoções. Os jogadores não vão conseguir perceber o que está a máquina a dizer ("Pi, parem", "olha, ali atrás foi falta"). A polémica sobre o videoárbitro e as decisões dos árbitros tem que ver com a aceitação daquilo que é um erro claro e óbvio e aquilo que são os chamados lances cinzentos.

"Chego a casa e desligo o chip árbitro e ligo o chip marido, pai e tratador de cães"

Como lida com os insultos?
Quando percebo que as pessoas chamam nomes ao árbitro e não chamam ao João Capela é mais fácil lidar com isso. Sou sincero, nunca ouvi insultos, estava sempre demasiado concentrado no que estava a fazer. Às vezes, ouvia uma coisa ou outra, mas desvalorizava, não queria saber. Porque se nos focamos muito nisso - e também falo sobre isso com os jovens -, desviamo-nos daquilo que é o nosso foco, que é o jogo. À medida que fui progredindo na carreira já tinha claques a insultar-me. Tento sempre pensar que é para o árbitro e não para a pessoa. Não pode ser para a pessoa. Porque se as pessoas conhecerem o João Capela não têm nenhuma hipótese de me chamar nada porque eu não trato mal ninguém, antes pelo contrário. As pessoas só têm coisas boas para dizer de mim.

Qual foi o insulto que de facto insultou?
Houve uma situação gira de insultos num jogo de iniciados em Alcobaça, quando eu ainda estava na segunda divisão, em que tinha uma claque de miúdos - não era normal - e começaram a dizer: "O árbitro é nosso amigo? É! O árbitro é nosso amigo? É! Vamos fazer amigos entre os animais." Eu achei giro e comecei a rir, foi a única vez em que fui ter com uma claque e disse "Esse insulto é muito giro". Mas sobre os insultos do público acho que temos de desvalorizar porque é muito no momento.

E quando se passa do insulto à ameaça? Não sei se teve alguma situação concreta...
Ameaças tive uma... direta e clara só uma vez. Por acaso, nesta semana foi o concluir do processo em tribunal, e está resolvido. Quando a minha filha era mais pequena, aprendi que não podia levar os problemas para casa. Chego a casa e desligo o chip árbitro e ligo o chip marido, pai e tratador de cães. O que choca mais é expor a pessoa, não o árbitro. A minha mãe, quando eu deixei a arbitragem, ficou feliz. "Nunca mais vão chamar-te nomes, nunca mais vou ver a tua cara na televisão e ouvir dizer que tu és não sei o quê."

Essa ameaça foi especificamente o quê?
Foi num jogo na Madeira, de um adepto de um clube que me ameaçou num restaurante. Por acaso havia uma estratégia de proteção à arbitragem. Mas eu acho que é nisto que devemos pensar: para onde é que estamos a caminhar? E neste ano voltou a acontecer. Na última jornada do campeonato, os dois árbitros que foram fazer os dois jogos decisivos tiveram proteção policial. Isto não faz sentido naquilo que é o desporto. Foi uma situação completamente inesperada para mim. Não aconteceu nenhuma ameaça física, foi só verbal, porque tinha a polícia de prevenção ao meu lado.

Como se mantém a família longe disso?
É cada vez mais difícil. Acho que os meus colegas mais novos vão ter mais dificuldade com esta comunicação, com as redes sociais. Vai ser mais difícil abstrair a família destas formas de estar e destas estratégias de comunicação por parte dos clubes. Mas isto não acontece só aos árbitros, apesar de nós sermos mais visíveis. Temos de nos sentar todos à mesa e perceber o que é que queremos. Nós somos pioneiros em muita coisa, estamos no topo do mundo em muita coisa, porque é que não podemos estar no topo do mundo numa comunicação saudável? Eu acho que só falta uma coisa, atitude. E que um dia todos queiram caminhar para que isto possa ser diferente.

De quem é que devia partir essa atitude? Alguém tem de dar o primeiro passo...
Eu acho que se têm dado muitos passos. O Plano Nacional de Ética Desportiva, do qual eu sou em embaixador, tem tido uma intervenção mais focada nas crianças e nos jovens para que sejam eles, mais tarde, a ter a massa crítica. E de poder saber que o desporto não é só isto, que o desporto também é saudável, que também é ter atos positivos e que por isso é que existe o cartão branco. Agora, o árbitro também tem oportunidade de não ser apenas visto como um punidor, mas ser também visto como um valorizador dos aspetos positivos. Eu, por exemplo, na final da Distrital mostrei dois cartões brancos, e foram os primeiros do jogo, a dois jogadores, e dois cartões brancos às claques. E mostrei mais dois amarelos. Nós temos de caminhar para aqui, isto vai ser gradual. Se for para ser uma decisão já, acho que tem de partir da tutela.

"Começaram a dizer: 'O árbitro é nosso amigo? É! O árbitro é nosso amigo? É! Vamos fazer amigos entre os animais'. Eu achei aquilo tão giro e comecei-me a rir que foi a única vez que eu fui ter com uma claque. Fui lá e disse; 'Esse insulto é muito giro'"

Mas ainda vamos lá com conversa?
Não, já não há essa solução. Tem de ser com atitude, tem de ser com ações. As campanhas de sensibilização têm o efeito que têm... Enquanto não se tiver a atitude de juntar os players todos, os intervenientes todos do desporto e dizer que queremos ser um desporto mais saudável e que vamos criar condições para que isso seja feito, com atitude. Temos de nos envolver nisso. Sensibilizamos as pessoas e depois não temos a atitude. Hoje, o clube que vai em segundo e em terceiro não respeita o primeiro, e agora já nem o primeiro respeita o segundo e o terceiro. E isto não faz sentido.
A arbitragem tem vivido dias conturbados. Como é que chegámos até aqui, a esta situação e a este clima?
É a tal inércia da atitude. Isto não é de agora. A arbitragem passou por um período complicado, é verdade. Foi o Apito Dourado. Para a própria arbitragem, acho que o Apito Dourado foi benéfico. Foi um momento de viragem, foi o momento em que se percebeu que houve coisas que não correram bem. Falou-se de muita coisa que é mentira. Mas houve efetivamente coisas que não correram bem. Foi uma altura em que se podia ter feito uma limpeza na imagem da arbitragem, que esteve sempre muito fechada, e podia ter-se potenciado a arbitragem. Tivemos uma oportunidade enorme de poder fazer aqui um enfoque positivo na arbitragem, até de fazer uma coisa junto da população, que é uma dificuldade que nós temos, que é de captação de árbitros. Não podemos querer ter os melhores árbitros do mundo quando não estamos preocupados com a base. Quando o Pedro Proença foi eleito o melhor árbitro do mundo o que fizemos com isso? Não fizemos campanhas nenhumas, não fizemos nenhuma campanha de angariação, não demos dimensão a isso. Uma vez, num jogo com o Pedro Proença, um oficial alemão questionou: "Agora com o Proença como melhor árbitro do mundo, o que é que vocês vão fazer para captar jovens? Metê-lo a dar os cursos. Se fosse na Alemanha, metíamos a cara dele nas paragens de autocarros, nos jornais..." Se isto acontecesse, quando ele tivesse um lance chato, complicado, a seguir tinha a paragem toda pintada. É isto que nós temos de mudar.

Existe ou não corrupção na arbitragem? Alguma vez foi abordado?
Não tenho conhecimento de que exista corrupção na arbitragem. Creio mesmo que não existe. Tenho a certeza de que qualquer árbitro que tenha noção de que a sua função enquanto árbitro tem esta exposição toda nem sequer equaciona isso, porque quando falamos em corrupção temos, primeiro, de falar na pessoa que tenta corromper e na que se deixa corromper. Nunca assisti a nada disso em toda a minha carreira, no meu percurso. Nunca alguém tentou corromper-me. Nunca. Senti sim a tal pressão do "pá, se isto correr bem, podes ter a possibilidade de..." E foi mais na segunda divisão, duas vezes. Na primeira divisão nunca senti isso. E uma vez fiz uma coisa interessante em que disse: "Olhe, o senhor para mim está expulso e o jogo ainda nem sequer começou. Portanto tem duas hipóteses, ou expulso-o já, ou sai da cabina, volta a bater à porta e faz de conta que isto não aconteceu." E a pessoa saiu da cabina, e bateu à porta. E voltámos a conversar como se aquele incidente não tivesse ocorrido. Eu não acredito, sinceramente, que haja corrupção na arbitragem. A corrupção de que se fala de receber dinheiro em troca de favores, de decidir penáltis ou vermelhos porque vais ter melhor classificação, eu não acredito nisso. E não tenho conhecimento de que tenha acontecido com alguém que eu tenha como próximo.

[Artigo publicado originalmente na edição de 22 de junho.]

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