Edward, o menino da tribo que espanta o mundo pela idade e recordes no Benfica

Tem 17 anos e uma aparência adulta demais para passar ao lado de uma polémica. O DN falou com o queniano que sonha ter dinheiro para dar água potável à sua tribo.

Edward Pingua Zakayo é um atleta queniano de 17 anos que representa o Benfica e, há uma semana, venceu os 5000 metros da Liga Diamante, em Rabat (Marrocos), com a sua segunda melhor marca da carreira. Uma proeza que correu mundo, não pela vitória mas pela sua fotografia, que se tornou viral nas redes sociais, pois muitos foram os comentários sobre a sua aparência de adulto e não de adolescente.

Que idade afinal teria Zakayo? Era a pergunta mais colocada. Contudo, a polémica não chegou ao Quénia. Na capital Nairobi, Edward foi apanhado de surpresa. "Não sabia que isso está a ser assunto, mas é para rir, claro. Mantenho-me focado a treinar e a estudar. Sei que tenho a confiança do meu país e do meu clube e isso basta-me. Para mim as coisas sempre resultam do esforço e do trabalho, foi assim que me ensinaram e eu faço tudo para melhorar a vida da minha mãe e dos meus irmãos", disse o jovem atleta ao DN, admitindo que "a vitória na Liga Diamante despertou mais atenções".

Pingua, nome que usa nos dorsais, sempre foi grande demais para a idade mas, que se saiba, não sofre de envelhecimento precoce. A fisionomia "é apenas estranha" para quem não o conhece. Nascido na cidade de Narok, numa tribo masai, Edward costumava tratar do gado depois da escola, além de correr à volta das palhotas sem se afastar muito para não correr "o risco de ser atacado por um animal selvagem". Como "adorava correr", começou a competir nas provas escolares. Depois foi às corridas regionais: "Comecei a competir no atletismo em junho de 2015, com 13 anos. Era muito complicado alguém vencer-me no meu distrito."

Tornou-se imbatível, mas "não tinha dinheiro para comida ou para comprar roupa" e muito menos para comprar ténis de corrida. Foi então que a mãe conseguiu falar com o treinador atual (Erick Kimaiyo), que era diretor da escola de atletismo da Nike, para o acolher. O talento não passou despercebido e ainda hoje lá continua, mesmo estando ligado ao Benfica.

Sonha ser "campeão olímpico e ganhar dinheiro para abrir um poço de água na aldeia", pois a sua tribo não tem acesso a água potável

Treina-se três vezes por dia. Levanta-se às cinco da manhã para correr, uma hora depois vai para a escola e aproveita os intervalos para... correr. Ou seja, treina três vezes por dia e sempre a sorrir. "Por causa da vida difícil que sempre tive, decidi treinar duro para trazer mais conforto para os meus irmãos." Sonha ser "campeão olímpico e ganhar dinheiro para abrir um poço de água na aldeia", pois a sua tribo não tem acesso a água potável. Além disso, quer também dar uma vida melhor à mãe e aos sete irmãos. Quando o questionam sobre o que mudou na vida dele depois de assinar pelo Benfica e pela Nike, Edward recorre a uma fotografia da palhota onde vive e diz: "Está a ver o telhado, era de palha e agora já tem cimento por cima e por baixo."

O atletismo pode dar-lhe fama e dinheiro, mas o futuro passa pelos estudos, pelo menos é isso que a mãe Agnes lhe diz. "O atletismo é importante, mas tenho de ser humilde e a minha mãe só me diz para acabar os estudos e ser alguém", confessou numa reportagem ao jornal Daily Nation do Quénia, lembrando ao DN que "conciliar a educação e o desporto é complicado", mas admite que tenta também sair-se bem nas aulas. Edward está a cerca de um ano de fazer os exames finais na escola, situada na zona de West Pokot a 150 quilómetros do local onde está instalada a sua tribo. Gosta de desporto, ciências e estudos bíblicos.

É o "mais famoso da escola" e bom colega também. Com o dinheiro que ganha, o jovem benfiquista tem ajudado outros estudantes com menos posses a comprar pequenas coisas, como material escolar, segundo conta a imprensa local, que o trata como jovem promessa do atletismo queniano. Para já, foi medalha de ouro nos Campeonatos Mundiais de sub-20 e conquistou o bronze nos Jogos da Commonwealth, além de ter sido eleito Personalidade Desportiva Mais Promissora do Ano (Boys Category) durante a cerimónia de Prémios do Desportista do Ano de 2018, realizada em Fort Jesus, Mombaça, a 12 de janeiro de 2019. Agora prepara-se para representar o Quénia no Campeonato do Mundo da IAAF, que se realiza em Doha, no Qatar, em outubro.

Desde janeiro que representa o Benfica. "Está a ser algo muito bom para mim. O convite do Benfica permite que pense na minha carreira de maneira profissional e com mais resultados internacionais. É a primeira vez que tenho a experiência de competir por um clube e o Benfica foi uma decisão fácil, pois é conhecido em todo o mundo. Estou ligado ao Benfica desde o início do ano e já consegui o orgulho de vencer uma prova de corta-mato júnior e os 3000 e 5000 metros na Taça dos Clubes Campeões Europeus. Estou muito feliz."

Descoberto por Ana Oliveira

Quem descobriu Edward não gostou da polémica com a idade, mas percebe o incómodo. "É apenas ruído e até é bom sinal, é sinal de que está a dar nas vistas, está a fazer boas marcas, está a ficar importante e a incomodar alguém. No ano passado foi campeão júnior, quando tinha ainda 16 anos, idade de juvenil, e ninguém questionou a idade dele. Só agora?", questionou Ana Oliveira, diretora do projeto Olímpico do Benfica, em declarações ao DN.

Foi ela quem o descobriu em 2018 numa das muitas provas a que assiste anualmente. "Vi-o correr e no meio de dezenas de quenianos e chamou-me a atenção, não sei explicar porquê, mas pareceu-me especial, além das capacidades desportivas evidentes...", revelou.

Ana Oliveira tentou então saber a história de Edward e percebeu que ele não tinha qualquer vínculo no atletismo, sendo um jovem ainda nada explorado na modalidade. Depois foi "uma questão de sorte" e estar no sítio certo à hora certa. "Estava a assistir a uma prova e perguntei a quem estava comigo o que era feito do miúdo que tinha ganho o mundial júnior. Por coincidência, o empresário dele estava ao pé de mim. Foi um momento feliz. Falámos com os pais e contratámo-lo", explicou.

Contudo, Edward não veio para Portugal. A opção foi deixá-lo no Quénia. "Se toda a gente quer ir para o Quénia treinar, porque lá há melhores condições para a prática do atletismo, não fazia sentido vir para Portugal. Estamos em permanente contacto com ele e com o treinador. Já veio a Lisboa três ou quatro vezes e está completamente integrado", contou Ana Oliveira, lembrando tratar-se de um atleta que "encaixa que nem uma luva" no projeto de formação do clube.

Foi já com a camisola das águias que superou a marca de António Leitão, também do Benfica, quando foi medalhado olímpico (13.09,20 minutos) nos 5000 metros em Los Angeles (1984). O queniano fez 13.03,19 minutos no meeting de Roma, mas "disso ninguém falou", atirou Ana Oliveira, revelando que quem o conhece sabe dos "comportamentos e olhar ingénuo e meigo de criança".

Ana Oliveira: "Então alguém acha que a IAAF [Federação Internacional de Atletismo] não escrutina um campeão do mundo? Ele foi campeão mundial e ninguém questionou a idade."

A diretora do Benfica admite que Edward Pingua não tem a aparência de um jovem de 17 anos e tem uma fisionomia diferente do "dito normal", mas defende que o clube "não é irresponsável" ao ponto de contratar alguém sob suspeita. E, segundo ela, questionar a idade é pôr em causa todo um processo legal de um país e das instituições que o certificaram: "Então alguém acha que a IAAF [Federação Internacional de Atletismo] não escrutina um campeão do mundo? Ele foi campeão mundial e ninguém questionou a idade."

No perfil do queniano no site da IAAF pode ler-se que Edward nasceu em 25 de novembro de 2001, a mesma data que consta nos documentos emitidos pelo Quénia, como o passaporte - diferente de passaporte biológico, onde estão registados os parâmetros biológicos de cada atleta através de amostras de sangue e urina para que se possa fazer o controlo da utilização de substâncias dopantes.

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