Arrancou a propaganda

Retoma pujante e recordes de investimento vindo de fora, prioridade na luta contra situações de abuso "promovidas" pelas empresas de trabalho temporário, desbloqueio de fundos e saúde das empresas no pós-moratórias, promoção de investimentos sem precedentes na ferrovia, jovens vacinados em setembro. E o país enfim em total liberdade no final do verão.

Resultado das últimas sondagens conhecidas, que revelavam já o cansaço dos portugueses com este estado das coisas, ou simples tentativa de virar a página da emergência covid e enfim anunciar o disparo da bazuca - ainda que o tom do discurso aparentemente não contagie a realidade que define para o país e as medidas com as quais o governo continua a manter-nos a todos de rédea curta -, António Costa assumiu o Estado da Nação de ontem como o arranque oficial da época de propaganda. E já lhe devia sentir a falta, depois de ano e meio a gerir a pandemia e as patadas de Cabrita numa base semanal.

O debate - que disso teve quase nada, registando-se apenas a habitual falta de civismo muito pouco construtiva entre bancadas dos ainda maiores partidos - começou e terminou com os cartazes deste PS que se senta aos comandos ao alto. Sem contraditório nem direito a réplica. Jerónimo deu o mote para o anúncio de que não faltará solução para quem se vir aflito sem as moratórias. Catarina lamentou que o primeiro-ministro se fizesse valer de medidas já acordadas, cujos créditos deviam ser, no mínimo, partilhados e os efeitos multiplicados, nomeadamente na saúde. E Rui Rio, por razões de luto, esteve ausente da discussão do Estado da Nação.

De quem se lhe opôs, Costa desembaraçou-se despejando uma pilha de números sobre o que devia ser a sua prova dos nove de um ano negro e com demasiados casos inaceitáveis a manchar vários dos seus ministros. Que, lá está, sem contraposição possível, ficaram a pairar ao lado dos estandartes do futuro incrível que está aí ao virar da esquina.

Sobre o anúncio da luta contra o trabalho informal abusivo que tanto aflige executivo e PCP, não houve quem pudesse questionar por que ficam as plataformas TVDE de fora dos planos de ação do governo, conforme anunciou ontem mesmo a ministra Ana Mendes Godinho. Ao refrão da primeira prioridade à vacinação, com os miúdos de 12 anos em diante a avançar em mês e meio, ninguém somou a logística que o incansável vice-almirante admite estar sob pressão, com efeitos nos resultados da imunização ao ritmo pretendido (ainda nem aos menores de 23 anos chegou...). Levantado o estandarte dos megainvestimentos na ferrovia, não houve quem pusesse em causa a capacidade de os executar a tempo de aproveitar os fundos - e a que preços... - numa altura em que a Europa inteira lança empreitadas financiadas pela bazuca, em feroz competição. Como ninguém pôde questionar a capacidade de um país que adota políticas movidas por ideologia abertamente hostil ao capital privado, afogado em burocracia e preso a uma justiça instável, cara e lenta para atrair investimento estrangeiro.

Haja quem anote as promessas e as cobre. Para que no fim da legislatura - e da bazuca - haja mais do que velhos slogans e ideias que ninguém assume ter deixado cair.

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