Vida de tripulante low-cost: ganha só quando está no ar e passa o dia no avião

A Ryanair enfrenta greves em cinco países nesta semana. Os tripulantes querem contratos ao abrigo da legislação nacional.

São cinco da manhã, e João (nome fictício) está a sair do estacionamento do aeroporto de Lisboa. É tripulante da Ryanair e a sua base é em Portugal. Pela frente tem um longo dia, quatro voos, praticamente 12 horas fechado "dentro de um charuto", para usar terminologia aérea. Mas dessas horas João já sabe que só receberá oito.

Esta semana será atípica: não trabalhará dois dias, vai fazer greve em defesa de melhores condições de trabalho. E, essencialmente, que o seu contrato passe a ser regulado sob a legislação portuguesa e não irlandesa - como agora acontece, o que permite à companhia não lhe pagar o tempo total de trabalho. Sendo certo que na empresa há já quem tenha contratos diretos com a Ryanair e esses estão mais protegidos pois têm um salário-base.

A paralisação dos dias 25 e 26, em Portugal, vai ser antecedida de outras, de um dia, na Irlanda (terça-feira), e na Bélgica, na quarta-feira. Itália e Espanha também cumprem os dois dias. No caso português, estima-se que afete cerca de 18 mil passageiros, segundo as estimativas da empresa, 50 dos 180 voos previstos e as ligações de e para Portugal, Itália e Espanha.

João está bem ciente dos "prejuízo" causados. A própria companhia já fez questão de lho lembrar nos últimos dias, enviando e-mails a sublinhar que é inconcebível que quem ganha "40 mil euros por ano" tome uma posição como esta. Pela segunda vez neste ano, pois os tripulantes com base em Portugal já cumpriram um período de três dias de protesto em abril.

Receber só se voar

"É mentira", reage João. "Ganhei no ano passado 20 mil euros limpos. E tenho colegas a trabalhar na mesma tripulação que receberam 12 mil. Só que têm contrato com outra empresa de contratação temporária", explica.

Além de não terem um contrato português, os tripulantes também não têm um vínculo com a companhia, mas antes com empresas terceiras, a Crewlink e a Workforce, que se regem pelas leis irlandesas e propagandeiam o serviço que prestam à Ryanair. Só os chefes de cabina são contratados pela própria companhia aérea.

Sendo assim, João faz 12 horas de trabalho, mas só recebe as oito em voo (pagas a 18,90 euros) porque a firma que o contrata não paga o tempo em que o avião está imobilizado. Mesmo assim, recebe mais dois euros do que os colegas que têm vínculo com outra empresa - como António, também nome fictício. As pessoas com quem o DN falou não quiseram identificar-se. A razão? O "ambiente intimidatório" promovido pela Ryanair, "em que todas as situações vão dar à mesma ameaça: o despedimento". "Estar aqui a falar consigo já configura uma situação de possível despedimento", diz António. "Está no meu contrato, falar com os media, estar inscrito num sindicado... tudo pode dar processo disciplinar e despedimento." O DN confirmou a informação com outros elementos da empresa que tem cinco bases em Portugal: além da capital, Porto, Faro, Ponta Delgada e Terceira.

José (nome fictício) conta ter conhecimento de colegas que foram despedidos porque não quiseram voar depois de terem cumprido 12 horas de trabalho. A legislação do setor prevê que se após esse período for necessário continuar a voar o comandante deve perguntar à tripulação se se sente em condições. Num memorando interno, a que o DN teve acesso, datado de 11 de julho e assinado por Andrea Doolan - responsável pelas operações de planeamento de voos -, pode ler-se que por vários tripulantes de cabina terem recusado voar foram atrasados/cancelados voos, tendo como resultado "atrasos inaceitáveis e inconvenientes". Dizia o memorando: "Esta atitude é inaceitável e não pode ser tolerada. Os tripulantes de cabina não podem decidir os voos que não vão operar. Em ocasiões raras o comandante pode tomar essa decisão. É o único que o pode fazer."

Pagar a própria comida

Paulo (mais um nome fictício) é um dos 30% dos 15 mil funcionários que têm relação laboral com a Ryanair. Tem um vencimento-base garantido, independentemente de voar ou estar em casa - como acontece com qualquer tripulante da TAP ou da Sata, por exemplo. Mas, frisa, esta é a única vantagem em relação aos restantes. E conta o rol de diferenças em relação aos tripulantes de outras companhias: "Não ganhamos 13.º e 14.º meses, não temos subsídio de refeição e se aterrarmos depois da meia-noite não recebemos mais por isso. Não temos seguro." Alguns, porém, já descontam para a segurança social em Portugal.

É na questão dos vencimentos e das regalias que as posições se extremam. Ao DN, a empresa irlandesa diz que os tripulantes de cabina recebem 40 mil euros por ano, que não voam mais de 900 horas por ano, tem direito a três dias de folga depois de cinco a voar, a formação é gratuita (há uns anos custava 3500 euros e era descontada do vencimento) e que pagam 400 euros por ano para despesas com o uniforme ou médicas. Os tripulantes confirmam que recebem 33,33 euros por mês para isso.

Mas há mais queixas. Por lei, um tripulante tem direito a uma refeição quente ao fim de 120 minutos de voo e a 10/15 minutos sentados a comer. "Como a Ryanair não nos fornece comida temos de levar de casa ou comprar no avião, onde uma garrafa de água custa três euros. Por isso, ando com duas garrafas de água no meu trólei", conta um deles.

Vender, vender e... vender

Entre as cláusulas contratuais da Ryanair, há uma que obriga o tripulante a viver a uma hora do aeroporto onde está sediado. "Quando estamos de prevenção e nos chamam temos uma hora para chegar. Já aconteceu colegas terem acidentes porque quiseram chegar rapidamente [a chamada por norma acontece quando há uma falta de última hora e horários a cumprir] e depois a empresa diz que temos de ter cuidado."

Estar de prevenção numa companhia aérea normal significa continuar a receber o salário e ficar à espera que alguém falte. Na Ryanair significa não receber, mas ter de atender a chamada sempre que a empresa telefona e apresentar-se no tal período de uma hora para entrar ao serviço. Também não recebe quando está a trabalhar mas o avião não levanta voo. "Na erupção do vulcão na Islândia, em 2010, estive um mês e meio em terra e não ganhei nada", recorda um dos interlocutores do DN. Outra: "O avião foi a Faro reabastecer e voltámos para a base. Voámos sem passageiros, não me pagaram."

A Ryanair diz que os seus funcionários recebem mais do que a média dos trabalhadores em Portugal.

A vida de um tripulante é rotineira. "O nosso dia é chegar 45 minutos antes de descolar, embarcar passageiros, descolar, vender perfumes, bebidas, raspadinhas, comida e depois aterrar. Passam 25 minutos e voltamos a descolar, vender perfumes, bebidas, raspadinhas, comida e depois aterramos. Durante todo o dia e sem sair do avião", conta um dos tripulantes. Há metas para as vendas. "Na parede do escritório está um mapa do pessoal: em cima, os que têm mais rentabilidade nas vendas, que têm direito a viagens a Ibiza, sorteio de carros, etc. Em baixo, os outros, que podem ter direito a um processo disciplinar."

A Ryanair tem outra visão. Diz que os seus funcionários recebem mais do que a média dos trabalhadores - lembram que Portugal, Espanha e Itália têm muito desemprego jovem. E lamenta o facto de a greve desta semana ir resultar em "perturbações nas férias das famílias, beneficiando as companhias aéreas concorrentes em Portugal, Espanha e Bélgica".

João sabe disso, mas quando vai buscar o carro e paga o parqueamento do seu bolso - o que não acontece com as outras transportadoras, sejam ou não low-cost - não é essa a sua prioridade. "A empresa nem isto nos paga."

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