"E a Traviata, Otelo?"

A TSF tem um programa em que todas as semanas um convidado é desafiado a passar as músicas da sua vida. Chama-se A Playlist de ... O homem ou a mulher contam histórias sobre eles e as músicas, fazem pequenas introduções aos temas que passam ou muito simplesmente relatam episódios das suas vidas com banda sonora.

Não há entrevista com o melhor entrevistador do mundo em que fiquemos a saber mais sobre alguns entrevistados do que naquela hora. Aquele pequeno estúdio fechado onde se está sozinho, onde temos a sensação de que o tempo está parado e o microfone se faz confessor, é mesmo um sítio mágico (não é conversa fiada, a rádio é mesmo um meio de comunicação muito especial). E depois as músicas e o que elas dizem sobre nós e as nossas vidas fazem o resto. Claro que há convidados que me despertam mais curiosidade, mas tento não perder aquela hora diária.

Não sei por que diabo não ouvi a playlist do Otelo Saraiva de Carvalho, que passou na semana do 25 de Abril, deste ano. O meu camarada Anselmo Crespo, diretor adjunto da TSF e colunista deste jornal, contou-me uma das histórias que o Otelo relatou e fui ouvi-la (está no site da rádio e os 94 minutos são todos imperdíveis. Peço, desde já, desculpa por não ser a exata transcrição e que o Otelo Saraiva de Carvalho me perdoe alguma falha).

No dia 23 de abril de 1974, Otelo Saraiva de Carvalho disse à mulher que nessa noite não ia dormir a casa. Disse-lhe que ficaria no regimento da Pontinha - que não era onde estava aquartelado. Como qualquer mulher, a do Otelo pediu explicações e, como qualquer marido, ele teve de as dar. "Eu nunca te disse isto, mas deves ter reparado que tive aqui em casa umas reuniões com alguns camaradas e vamos desencadear uma operação militar na madrugada de depois de amanhã. Mas os preparativos finais começamos já amanhã." Responde a mulher do Otelo: "Mas temos bilhetes para ir ver a Traviata no Coliseu dos Recreios na noite de 24, assim já não vamos, não é?" "Pois não", responde o estratega da Revolução, "olha, com esta confusão toda esqueci-me disso".

Seria agora que eu deveria tirar uma qualquer conclusão sobre esta história. Aliás, de tantas vezes já a ter ouvido, de tanto ter massacrado toda a gente que me rodeia com ela, de ter reunido os meus filhos para que a escutassem, deveria mesmo tê-la. Mas não tenho.

Sinto a sua imensa humanidade, percebo a força do quotidiano nas coisas que consideramos importantes, divirto-me a pensar que se o gosto do Otelo pela ópera fosse ainda maior do que é talvez comemorássemos outro dia que não o 25 de Abril ou não o comemorássemos de todo, imagino-o a trautear o Libiamo Ne"Lieti Calici enquanto dá ordens às tropas, aborrecido por ter falhado o compromisso com a mulher.

Sei que as histórias nos tocam mais por aquilo que vemos de nós nelas do que por elas em si mesmas. Se for mesmo assim, não fico tão envergonhado de não ter conseguido filosofar sequer um bocadinho que fosse. Se lhe aprouver, faça esta história também sua, caro leitor.

Acho, porém, que há naquele relato qualquer coisa de importante, sinto-o de uma forma tão forte que me perturba. Mas, às tantas, é só uma extraordinária história.

Bye, bye, checks and balances

Aquando da vitória de Donald Trump nas eleições americanas não faltou gente a garantir que o sistema de checks and balances protegeria os Estados Unidos dos previsíveis excessos do milionário. Eu fui um deles. A minha fé na democracia americana era tanta, as provas de que tinha resistido a tantos desmandos eram tão inequívocas que esqueci quão vulneráveis são as instituições quando os homens que as servem se demitem de as defender.

Nesta semana, na Rússia, o presidente dos Estados Unidos traiu o seu país e cuspiu nas instituições que o defendem. Em qualquer outro momento da história americana, o presidente pouco mais tempo permaneceria na Casa Branca. No mesmo país em que um presidente quase perdeu o mandato por causa de um episódio que envolvia charutos e outro teve de se demitir por um milionésimo do que Trump faz numa qualquer semana, este continua de pedra e cal. Checks and balances, pois, pois...

A multa à Google

A União Europeia multou a Google em 4,34 mil milhões de euros por condutas anticoncorrenciais. Falar em concorrência e da Google, do Facebook ou da Amazon na mesma frase é uma brincadeira. São sim monopólios e à escala mundial. O problema é que o monopólio que estas empresas de facto detêm vai muitíssimo para lá do mercado em que operam. São verdadeiros impérios que sabem tudo de toda a gente, que condicionam as nossas vidas, os nossos gostos e desejos, que tentam definir o que sabemos ou o que não querem que nós saibamos. Esta multa que a UE impôs à Google é um sinal de resistência, mas tem de se ir muito mais longe. Se não for o poder político a partir a espinha a estes gigantes para que sejam efetivamente regulados, serão eles que partirão a espinha ao poder político. Ou dito de outra forma, serão eles a mandar em nós.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.