A revolução interior de Esbela da Fonseca

As memórias da única atleta portuguesa que participou nos Jogos Olímpicos de 1968 nada têm que ver com desporto (ou têm...) Na Cidade do México, viu o anúncio de que o mundo ia mudar. E isso transformou-a profundamente.

"Ainda me arrepio toda", e fecha os olhos por uns segundos. O corpo bem pode estar nesta casa em Fontanelas, mas agora, agora Esbela da Fonseca está no México, e é verão, e é 1968. O estádio olímpico cheio para a cerimónia de entrega das medalhas, Tommie Smith e John Carlos a subir ao pódio para receberem ouro e bronze nos 200 metros, o punho levantado durante o hino norte-americano. Black power, pelos direitos civis. E Peter Norman, o australiano que ganhou a medalha de prata, não levantou o braço, mas usou solidariamente um pin em nome dos direitos humanos nos Jogos Olímpicos - o que lhe valeu a ostracização definitiva da federação de atletismo do seu país.

"O mais impressionante de tudo foi aquele silêncio", diz Esbela, que desfilara na cerimónia de abertura com a delegação portuguesa e assistia a tudo na bancada. "A mudez de dezenas de milhares de pessoas que perceberam estar na primeira fila da história. Não tive a mínima dúvida: naquele segundo, o mundo mudou. E eu mudei com ele."

Eram os seus terceiros Jogos Olímpicos, depois de Roma e Tóquio - e os segundos como única atleta feminina na comitiva portuguesa. Chegara ali com 26 anos e o estatuto de melhor ginasta da sua geração, mas os resultados não foram brilhantes. "Não fizemos qualquer treino de adaptação à altitude e houve ali uma altura em que pensei que ia ter uma embolia pulmonar." Se esta conversa fosse sobre a sua carreira desportiva, ela perderia umas horas a desfiar os pormenores daquela sua olimpíada. "Mas, no México, isso foi o menos importante para mim."

Percebeu ainda antes de lá chegar que algo de grave estava para acontecer. A 4 de outubro, dez dias antes da cerimónia de abertura, tinha havido um protesto estudantil na Praça das Três Culturas, na Cidade do México. As autoridades responderam com uma carga violenta que resultaria em 300 a 400 mortes, quase todas civis, a maioria estudantes. Mortos a poucas dezenas de metros do estádio olímpico.

"Lembre-se que em maio a França tinha explodido, que o rastilho das manifestações estudantis se tinha prolongado à Europa toda, que os jovens americanos andavam na rua a contestar a guerra no Vietname. As vítimas daquele massacre não foram apenas os mexicanos. Aquilo era um ataque à juventude do mundo inteiro."

Ela também era universitária, tinha-se mudado dois anos antes para Colónia, na Alemanha, para estudar Desporto. "Até esse momento eu vivia numa bolha. A ginástica permitia-me viajar pelo mundo e ter mais espaço de manobra do que as outras mulheres do meu país, mas era um universo fechado." Aquela viagem para o México mudaria tudo. "Foi quando me tornei política, de certa forma. Talvez não tivesse a coragem da Vera, mas aí eu decidi que não voltaria a olhar para o lado quando algo estivesse mal, que não voltaria a calar-me perante uma injustiça."

Vera Caslavska, checoslovaca, era sua amiga. Tinha ganho várias medalhas de ouro na ginástica nos Jogos de Tóquio, em 1964, e voltaria a repetir a proeza em 1968. "Ela casou-se lá, no México, com um atleta do seu país. Convidou-me para a cerimónia e contou-me os acontecimentos de Praga."

Entusiasta das reformas democráticas do então primeiro-ministro Alexander Dubcek, Vera tinha assinado o Manifesto das Duas Mil Palavras, que abriu portas à Primavera de Praga. Quando os tanques soviéticos entraram na capital para reprimir as novas medidas de abertura do regime, a ginasta partiu para o México. "Ela era a estrela mundial da ginástica daquele tempo, toda a gente queria falar com ela, mas a Vera decidiu fazer um protesto silencioso. Ganhou várias medalhas e nunca disse uma palavra a ninguém. Mas o mais bonito, e que pouca gente sabe, é que quando voltou à Checoslováquia, ela ofereceu as medalhas todas a Dubcek. E isso é muito inspirador."

As conversas com Vera Caslavska, a revolta com o massacre dos estudantes, a coragem dos dois punhos erguidos contra a discriminação racial fizeram Esbela da Fonseca parar para pensar. "Estavam ali dois mundos em choque, um antigo e um novo. E o antigo resistia ao novo. Aqueles Jogos Olímpicos foram o anúncio e a promessa da mudança, que de facto acabariam por chegar." A queda do Muro de Berlim, a eleição de um presidente negro na América, o fim do apartheid, a voz de uma juventude que não a tinha. Tudo isso começou ali, no México, a memória que continua a arrepiá-la meio século depois.

Esbela da Fonseca diz saber-se uma privilegiada. Filha de um médico amante de livros e de uma antiga corredora dos 60 metros, encontrou no desporto o escape para "um país que definhava de cinzento". Por causa da ginástica podia sair do país sem autorização masculina. Podia ir com um grupo de atletas beber um copo ao Bairro Alto. Podia, até, proferir alto e bom som que não era católica, nem queria ser.

"Uma vez, na Escola Filipa de Lencastre, que era extremamente conservadora e um ninho de víboras do regime, um grupo de professoras escreveu uma carta à mãe das minhas melhores amigas." Diziam que a rapariga não era batizada e por isso era uma companhia a evitar. "Eu tinha 11 anos, caramba, e senti naquilo uma revolta enorme, uma injustiça. Não havia direito de fazer aquilo a uma criança."

O seu refúgio foram as traves, o salto a cavalo e as argolas, mais os exercícios de solo. Amigos tinha sobretudo rapazes, que a atividade gímnica era ainda novidade no país - e malvista para mulheres. "Mas o que eu tinha sobretudo eram os livros, uma biblioteca imensa carregada de obras proibidas que a minha família, antissalazarista até à medula, reabastecia a cada incursão ao estrangeiro."

Então Esbela lia, viajava, conhecia o mundo. Mas até àquele verão de 1968 era como todo esse saber acumulado, e toda essa janela que se tinha escancarado, fosse tão invulgar para uma mulher da sua geração que ela não se atrevesse a espreitar para fora e ver a rua. "Nos Jogos do México foi como se essa rua me tivesse entrado dentro de casa, por mais que eu me quisesse abrigar do vidro. Senti-me outra vez a menina revoltada a quem as amigas deixam de falar por causa de uma carta cruel das professoras. E senti que desta vez não me ia calar nem despejar a raiva no exercício físico." Começou a protestar contra a guerra de África, regozijou-se com a queda de Salazar e dançou de alegria no 25 de Abril. O México, naqueles Jogos Olímpicos de 1968, tinha trazido à ginasta portuguesa um desassossego que nunca mais terminaria.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Pode a clubite tramar um hacker?

O hacker português é provavelmente uma história à portuguesa. Rapaz esperto, licenciado em História e especialista em informática, provavelmente coca-bichinhos, tudo indica, toupeira da internet, fã de futebol, terá descoberto que todos os estes interesses davam uma mistura explosiva, quando combinados. Pôs-se a investigar sites, e-mails de fundos de jogadores, de jogadores, de clubes de jogadores, de agentes de jogadores e de muitas entidades ligadas a esse estranho e grande mundo do futebol.

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.