"Não se apanham moscas com vinagre"

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O Partido Socialista, o mesmo que já admite dialogar com o PSD para alcançar um modelo de governabilidade para o país (ontem o líder do PS não excluiu vir a negociar orçamentos com o PSD, numa entrevista à rádio Observador), anunciou a intenção de bloquear o orçamento da Câmara Municipal de Lisboa para 2022 (a votação foi adiada). Até aqui nada demais. Afinal, a assembleia municipal tem uma maioria de esquerda e Carlos Moedas sabe, de antemão, que os anos deste mandato não serão favas contadas. Mas o que é estranho é o PS ter anunciado que iria abster-se e, portanto, viabilizar o orçamento e, no dia a seguir (quinta-feira), ter o dito por não dito e anunciar que prevê chumbar o orçamento. Em plena campanha para as legislativas, dar o dito por não dito será mais uma tática eleitoralista? Não creio que o PS ganhe com este tipo de manobra, pelo contrário.

Há um capital de confiança que os políticos, em geral, já perderam há muito e anunciar uma coisa e fazer exatamente o seu contrário não será a melhor estratégia para recuperar esse capital. Ou, como diz o povo, "não se apanham moscas com vinagre". Os restantes partidos representados na autarquia perguntam-se também "se será este o preço a pagar por Carlos Moedas não ter sido solidário com o antigo autarca da capital (Fernando Medina) no caso Russiagate". A autarquia foi multada com 1,25 milhões de euros pelo envio de dados de ativistas a autoridades russas. Para Moedas, "o que se passou foi gravíssimo", afirmou que "não vai contestar a gravidade do caso", mas "vai contestar o valor para que câmara seja menos penalizada".

Serão todos estes factos noticiosos - o chumbo do orçamento da CML, o Russiagate e a campanha para as eleições legislativas - meras coincidências na mesma semana? Uma coisa é certa: António Costa está mais feroz na mensagem política e tem vindo a pedir a maioria absoluta, uma espécie de cheque em branco para governar nos próximos quatro anos, alertando que no papel de vigilante está sempre o Presidente da República. Uma ambição de que já falou nas televisões e nas arruadas, mas que ainda carece da palavra final dos eleitores. Na mesma entrevista de ontem, o secretário-geral do PS avisou: "Foi com a ilusão das sondagens que perdemos a Câmara de Lisboa."

Com poucas ilusões e muito realismo, os candidatos devem deixar-se de truques e apostar tudo nos factos para que os portugueses neles acreditem e queiram deslocar-se às urnas, até porque há uma enorme incógnita sobre a taxa de abstenção que poderá vir a ser alcançada a 30 de janeiro, já que, nessa altura, meio milhão de portugueses poderão estar em isolamento devido à covid-19 e pouco dispostos a reinterpretar as regras do isolamento e a sair do lar para ir votar. Uma certeza podemos ter hoje: votar é um dever e um direito que foi muito difícil de conquistar e não serão as inabilidades partidárias nem a covid-19 que afastarão os portuguesas das urnas de voto.

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