Não há lados no discurso do ódio

Diz Mamadou Ba que é inconcebível em democracia dar honras de Estado a um "criminoso de guerra". É como se refere a Marcelino da Mata, nascido na então portuguesa Guiné e que lutou pelo lado português na Guerra Colonial. Não propriamente pelos atos cometidos em batalha, mas pelo facto de Marcelino ter lutado do lado que Ba considera o errado. Guardaria semelhante discurso para quem tivesse combatido com as mesmas armas do outro lado da barricada?

Debaixo das mais diversas bandeiras, tem-se alimentado o hábito de aos representantes de causas se perdoar afirmações que nunca passariam - e bem - se ditas pelos que a elas se opõem. Acontece que não há lados nem pode haver desculpas para o extremismo, o discurso de ódio, o apelo à violência. Independentemente de onde venham, de quem fala ou escreve, não podem ser toleradas palavras de ordem como "fora com os pretos" (escrita nas paredes de universidades), como não podem ser desvalorizadas mensagens como "polícia bom é polícia morto" (exibida por um manifestante no Porto). A liberdade de expressão não pode acolher a barbárie verbal, inconsequente e impune.

O caso tem contornos mais sérios quando o discurso violento vem de quem lidera uma luta pela integração, de quem representa uma causa, qualquer que ela seja. Mascara-se de coragem o que é puramente despeito e ódio. E pela visibilidade potencia-se o antagonismo, cria-se a ideia de que todas as armas são válidas se a causa for "justa". Esquece-se o efeito que isso terá nos que estão do outro lado do vidro. Perde-se a característica humana que nos permite eventualmente ver o mundo pelos olhos do outro - entender e integrar a diferença.

Esta permissividade, este desvalorizar das palavras e atos de alguns protagonistas - muitas vezes justificada pelo sentimento de culpa de uma sociedade sempre imperfeita, que ainda padece de comportamentos doentios de xenofobia, de violência doméstica, de homofobia... -, alimenta ódios de ambos os lados da luta em nome da qual se dizem e fazem verdadeiras barbaridades. E faz crescer o papão do populismo, que está também muito presente no discurso dos Mamadous deste mundo.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG