Dois manguitos no berço da nação

E ao 16º dia de fevereiro de 2020, o Portugal que tanto nega o seu racismo viu-se retratado, aos olhos do mundo, como um país em que um estádio de racistas levou um futebolista negro a abandonar um jogo, não sem antes os mandar para um lugar cabeludo. Tão bem feita.

Nunca na história do futebol ou do desporto em geral deve ter corrido mundo, como celebratória e admirável, a imagem de um atleta, num estádio, a mostrar o dedo do meio ao público. Nunca na história do futebol e do desporto em geral algo assim - a pose e o insulto que o atleta a seguir reiterou em post no Instagram, escrevendo "gostaria apenas de dizer aos idiotas que vêm ao estádio fazer gritos racistas... vá se foder" - terá sucedido sem punição, sem sequer uma admoestação por "comportamento não desportivo."

Não precisaríamos de mais nada para nos provar a gravidade do que se viveu no domingo 16 de fevereiro em Guimarães - e também de mais brutal libelo contra todos os que conviveram com a situação sem nada fazer, dizer ou exigir, dos árbitros aos jogadores, treinadores e dirigentes, passando pela maioria dos jornalistas e comentadores.

Havendo regras no futebol que permitem reagir duramente ao racismo nos estádios, saber que toda esta gente crê que urros de símios contra um atleta negro são uma coisa suportável, que não merece sequer a pena assinalar, e que mesmo após a explosão de Marega continuaram a achar que não era caso para ele sair de campo (quanto mais para saírem todos), chamar a atenção do público ou dar o jogo por terminado, temos de concluir que consideram tais atos toleráveis. Ou que, e é o mais provável, não variando do folclore lusotropicalista nacional, creem que não se trata, nem aqui, realmente de racismo - como disse ao DN o humorista Carlos Pereira, "ainda estamos para perceber o que é de facto racismo para os portugueses."

De resto, a crer na claque do Vitória de Guimarães, de tão sugestivo nome - White Angels (Anjos Brancos) -, e no comunicado abjeto que produziu, racista será Marega: foi assim, "preto racista", que lhe chamaram.

Racista desde logo por reagir, apontando para a cor da sua pele após marcar golo pelo FCP contra a sua antiga equipa. Racista pelos manguitos enluvados de negro, evocando os punhos cerrados em desafio Black Power dos negros americanos John Carlos e Tommie Smith no pódio das Olimpíadas de 1968 (uma evocação da qual o próprio, nascido em 1991, poderá não ter consciência), que endereçou à bancada, frente ao escudo preto e branco com a imagem do primeiro rei de Portugal de espada em riste que é emblema do Vitória de Guimarães. Como se fosse D. Afonso Henriques das cruzadas contra os infiéis, num feliz acaso semiótico, o afrontado - e com ele todo o Portugal e a sua história assim desafiados, interpelados.

Porque Moussa Marega não é português, admitimos-lhe o que nunca admitiríamos a um dos "nossos" negros. Porque desses, dos nossos, sob pena de os mandarmos "para a terra deles", exigimos mansidão, obediência e martírio, sempre. Que "estejam acima" dos insultos, que comam e calem.

52 anos depois do gesto de Carlos e Smith, que lhes valeu uma maré de insultos, uma manchete do LA Times transformando o citius altius fortius em "mais furioso, mais malvado, mais feio" (angrier, nastier, uglier), a acusação - lá está - de comportamento antidesportivo, e a suspensão pelo Comité Olímpico Internacional, Moussa Marega protagoniza, desta vez sob aplauso, outro momento político icónico no desporto. 52 anos depois do homicídio de Martin Luther King, e ainda, porque incrivelmente continua a ser preciso, sobre o mesmo assunto: a voz e os direitos dos negros, das minorias, das vítimas do racismo. As vítimas que, no caso dele, se cansam de ser vítimas e puxam da espada - sob a forma de um punho ou de um dedo erguido, de um "vão à", de um "não dá mais".

Que a tão bela e justa fúria de Marega esteja a ser festejada por tantos dos que normalmente negam um problema de racismo em Portugal, tantos dos que, na senda do both sides de Trump aquando dos acontecimentos em Charlottesville, costumam pôr lado a lado, como igual perigo, os racistas e os antirracistas, é uma magnífica ironia. Será porque, como acusam alguns dos entrevistados na reportagem que o DN publica este sábado, querem provar ao mundo que o país não é racista abjurando e apresentando como episódico e inusitado o racismo de Guimarães?

Será porque se trata de um futebolista, pertencente a um universo de uma certa superficialidade, e não de uma deputada mandada para a sua terra por um outro deputado? Será porque parece mais fácil condenar grunhos anónimos que um grunho com assento no parlamento? Será porque, como nos lembra sempre a personagem de Luchino Visconti, é preciso que alguma coisa mude ou mexa para que tudo fique na mesma?

Ou é porque Moussa Marega não é português e lhe admitimos o que nunca admitiríamos a um dos "nossos" negros. Porque desses, dos nossos, sob pena de os mandarmos "para a terra deles", exigimos mansidão, obediência e martírio, sempre. Que "estejam acima" dos insultos. Que os ignorem. Que não tenham ouvidos, comam e calem. Que aprendam com os pais, para que a vida não lhes seja infernal, a saber o seu lugar.

De modo que foi preciso um negro francês muçulmano naturalizado maliano para nos mandar àquela parte. E tão merecidamente.

Jornalista

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