"Um negro português não faria o que Marega fez. Estamos habituados a meter para dentro"

Seis afrodescendentes, dos 14 aos 32 anos, olham para a fúria de Marega, a forma como o país reagiu, falam das causas, das suas experiências e interrogam-se sobre as consequências: vai mudar alguma coisa?

"Às vezes quando chamam nomes, se não for muito ofensivo até penso que é uma brincadeira. Mas há pessoas que quando estão chateadas comigo dizem ah seu preto sai do país, não mereces estar aqui."

Nivaldo, nascido em Portugal há 14 anos, filho de uma guineense e de um angolano, contou isto ao DN em 2017, quando tinha 11. Não sabia porque é que os colegas faziam aquilo, mas a mãe dissera-lhe que "em Portugal não gostam de pessoas mais escuras". Quanto à reação, estava indeciso: "Por um lado prefiro castigar porque já sei que essa pessoa não me vai chatear mais. Faz-me sentir culpado mas também que estou a fazer a coisa certa." Por outro lado, o conselho da mãe: "Não te interesses, ignora, continua a fazer o que estavas a fazer."

Talvez o francês naturalizado maliano Moussa Marega não tenha tido uma mãe como a de Nivaldo. Ou sim, teve: durante 68 minutos, dizem-nos, ou mais ainda, porque há relatos que garantem que os insultos racistas e os urros a imitar símios o brindaram desde o período de aquecimento, continuou a fazer o que estava a fazer, o que faz na vida. Jogar futebol.

Continuou até marcar um golo, apontando depois para o braço, para a sua cor de chocolate sem leite. E foi aí que a coisa rebentou. Mandaram-lhe cadeiras, pegou numa como troféu, recebeu um cartão amarelo por isso. E fartou-se: resolveu abandonar o campo, contra os apelos e a resistência, física inclusive, dos colegas, dos adversários, do treinador, sob o olhar confuso do árbitro.

Antes de sair, ergueu as mãos enluvadas e fez dois manguitos ao público. Não se ouviu nenhum apito, não se ergueu nenhum cartão - os jogadores não podem interagir com o público e muito menos com gestos daquela índole, mas não ocorreu a ninguém adverti-lo. E fez mais: a seguir, no Instagram, postou a foto desse gesto, acusou o árbitro de não o defender e escreveu: "Gostaria apenas de dizer a esses idiotas que vêm ao estádio fazer gritos racistas... vá-se foder."

Nivaldo, que não é grande fã de futebol, não estava a ver o jogo nem soube do post de Marega. Só ouviu falar do assunto nas notícias. E, malgrado os conselhos da mãe, acha que o jogador do FCP fez bem: "Ninguém gosta de ser insultado e as pessoas que o insultaram também não gostariam. Percebo que ele tenha saído. Saiu para não fazer pior." Cada um reage da maneira que quer, acrescenta. "E ele estava ali, na pressão do jogo. Mas continuo a achar que é melhor não responder, ignorar."

"O que eu faria se fosse o Marega? Não saía, ficava em campo, aguentava. Ele ao reagir assim está a alimentar mais aquilo. Quando alguém nos falta ao respeito, devemos ignorar. Porque o desprezo dói."

Na escola pública lisboeta que frequenta, o assunto foi debatido pelos colegas. "Ouvi-os discutir e dei a minha opinião." E que acharam eles do racismo? "Não se falou de racismo. Pode até ter sido um caso de racismo." Como assim? O público estava a fazer ruído de macacos. "Não tinha percebido bem a razão de ele sair. Claro que fazer barulho de macacos é racismo. Sabia que essas coisas podem acontecer uma vez por outra, mas não sabia que era frequente. Não acho isso certo."

Na escola, nenhum professor da turma de Nivaldo terá aproveitado para fazer pedagogia, pôr os alunos a pensar e a falar sobre o assunto, abordar o tema racismo. Aliás, diz Nivaldo, não é comum falar-se disso, dessa palavra. "Não é um tema de que se fale muito, só se for na aula de cidadania. Devíamos falar mais, ser pessoas mais tolerantes. Não chega falarmos uma vez. Não devíamos achar que há pessoas melhores do que as outras, religiões melhores, países melhores do que os outros - porque somos todos iguais."

E como se resolve as pessoas acharem isso? Nivaldo hesita, na sua voz séria, nas frases bem buriladas que lhe garantem boas notas. "Não sei como um assunto destes se pode resolver porque se trata de uma pessoa estar a julgar mal a outra por qualquer coisa que ela faça. Uma pessoa branca vê uma pessoa negra na rua e acha mal, quer que ela volte para o país dela." Como já lhe sucedeu a ele, Nivaldo, nado e criado em Portugal.

"Vamos aguentar o resto da vida com isto"

Osvaldo, 20 anos, acha que não se resolve. Joga futebol federado no clube Águias de Camarate e vive na Quinta do Mocho, em Loures. "Sempre houve racismo e sempre vai haver. E sempre houve no futebol e no desporto. Vamos aguentar o resto da vida com isto."

Fez um post no Instagram com uma foto de Marega e "No to racism" (não ao racismo), mas não há exaltação nem esperança na sua voz. "As pessoas que fizeram aquilo nunca mais deviam poder entrar num recinto desportivo, para mim é crime. Mas nestes meses houve tanto racismo. A senhora que levou pancada da polícia [refere-se ao caso de Cláudia Simões, a mulher detida pela PSP na Amadora], por exemplo. Isto que aconteceu a Marega não é novo."

Não: a ele, Osvaldo, sucedeu muitas vezes - "A primeira vez fiquei nervoso, né? Queria bater. Porque sou lateral e às vezes a lançar a bola há espectadores atrás de mim, começaram a dizer aquilo e tentei largar a bola e ir ter com quem estava a chamar-me nomes. Mas os meus colegas e o treinador disseram para ter mais calma" - e ainda no fim de semana passado foi com o guarda-redes do seu clube. "Estavam atrás dele a chamar preto e ele começou a responder e queria abandonar. No balneário estivemos a convencê-lo a ficar e a ignorar. O árbitro não castigou porque não o viu a discutir com o público, teve sorte."

Durante a conversa, por telefone, a mãe de Osvaldo vem várias vezes, zangada, dizer ao filho para desligar. Acha que não adianta falar com jornalistas, quiçá que o filho vai meter-se em sarilhos.

"Há uma senhora no Estado português que é gaga e houve um deputado que disse para ela voltar para a sua terra. Se isto acontece até no Parlamento como lutar contra isto? Quem faz isso está a dar razão a outros para fazerem o mesmo."

Mas não, Osvaldo não é disso. "O que eu faria se fosse o Marega? Não saía, ficava em campo, aguentava. Ele ao reagir assim está a alimentar mais aquilo. Quando alguém nos falta ao respeito, devemos ignorar. Porque o desprezo dói." Mas não te afeta chamarem-te preto? "Não. Antes afetava, era mais novo, não sabia de muitas coisas. O que é importante é mostrar a qualidade. Porque não há maneira de mudar as pessoas. Não acredito nem um pouco que vai mudar. Acontece até no Estado, não é? Há uma senhora no Estado português que é gaga e houve um deputado que disse para ela voltar para a sua terra. Nem tenho comentários. Se isto acontece até no Parlamento como lutar contra isto? Quem faz isso está a dar razão a outros para fazerem o mesmo."

Há amigos no bairro que estão numa associação, que lutam contra o racismo. Ele não - não acredita. Nas eleições, votou em branco: "Acho que ninguém me representa."

Se um dia tiveres filhos, como vais prepará-los para isto? Reflete. "Vou dizer para serem humildes com toda a gente, como a minha mãe me ensinou. Para serem iguais a toda a gente, terem respeito, falarem bem com as pessoas."

"É um adquirido que se vai ser insultado por ser negro"

"É um adquirido que se vai ser insultado por ser negro. É preto, é insultado de preto e tem de se achar bem porque é preto - e daqui não saímos. É muito banalizado." Soraia Albuquerque, 32 anos, joga futebol no Amora Futebol Clube, que está na segunda fase do campeonato nacional e apurado para a fase de subida à primeira divisão.

A essa banalização ouviu-a nos comentários na SportTV. "Vi o jogo em direto e reparei que cada vez que ele pegava na bola havia um barulho, mas não dava para entender o que era exatamente. Os comentadores também disseram que havia uma reação do público ao Marega." Mas não o que o público dizia. "Percebi que ele estava frustrado mas não o que lhe estavam a gritar."

O facto de os próprios comentadores do canal não terem assinalado os cânticos racistas é para Soraia uma evidência de normalização. "Ninguém gosta de ouvir vai para a tua terra e preto de merda, mas a ideia é que temos de aguentar. E o facto de não reagirmos e não darmos um murro na mesa faz que não mude. Não devia ter de ser o Marega como atleta a mostrar que isto é condenável. Mas não se fez nada a sério contra isto até agora - há multas, os clubes pagam as multas, e passa."

"Ninguém gosta de ouvir vai para a tua terra e preto de merda, mas a ideia é que temos de aguentar. E o facto de não reagirmos e não darmos um murro na mesa faz que não mude."

Soraia nunca ouviu insultos racistas em campo - "São mais dirigidos ao facto de sermos mulheres" - mas fora dele sim. Os pais ensinaram-na, e aos irmãos, a nunca responder ao racismo de forma agressiva ou provocatória, porém agora tem dúvidas sobre o que é mais eficaz. "Já pensei como reagiria, no que faria se estivesse na situação de Marega ou de Dani Alves [o jogador brasileiro a quem em 2014, quando jogava pelo Barcelona, arremessaram bananas e que pegou numa e a comeu]. Se acontecesse comigo sairia de jogo e esperaria da minha equipa que houvesse uma defesa minha e do desporto em si. No mundo do desporto tem de haver união - os colegas do Marega deveriam ter-lhe dado força para sair de campo."

Particularmente estranho para Soraia é que tantos jogadores negros do FCP e do Vitória de Guimarães, que tentaram evitar que o maliano saísse do campo, não tenham tomado os insultos contra ele como dirigidos a todos. "Não era ele que estava a ser ofendido, era a cor de pele dele. No domingo foi o Marega, no outro domingo pode ser outro. Daí que de alguma forma isto venha dar poder a todos os negros - esta atitude tem de ser usada de forma correta, veio abrir várias portas para que quem sofra de atos racistas possa dizer basta. É uma forma de libertar as pessoas que sofrem racismo e se mantiveram caladas. Agora, se isto me acontecer num estádio vou dizer 'chega' mesmo que seja a primeira vez que me acontece."

"De alguma forma isto vem dar poder a todos os negros. Veio abrir várias portas para que quem sofra de atos racistas possa dizer basta. É uma forma de libertar as pessoas que sofrem racismo e se mantiveram caladas."

É qualquer coisa. Mas não espera muito mais do que isso; vê aliás com desconfiança a quase unanimidade, no país, no apoio ao jogador. "Tem muito a ver com o facto de ter tido muita repercussão internacional, acho. A partir do momento em que isso sucedeu as pessoas acharam que tinham de falar. Portugal é um país racista mas este boom de reação não é para o admitir e lidar com isso, é para provar que não é."

"Ele ter dito chega foi um choque"

"Não sei se muitas das pessoas que estão a apoiar Marega percebem o que ele fez e sobretudo que aqueles insultos que lhe foram dirigidos vêm de um sistema opressor com anos e anos. O racismo é tão estrutural na sociedade portuguesa que as pessoas estão habituadas. O que aconteceu de novo foi ele ter saído do campo: toda a gente ficou aparvalhada. Ele ter dito chega foi um choque."

Rhubia Albuquerque, 25 anos, tradutora, vai mais longe. "Há imensos jogadores negros portugueses a quem isto aconteceu e nunca fizeram nada. Joguei na altura da faculdade, isto sempre existiu - nunca me aconteceu porque tenho o privilégio de passar por branca. Mas há o mito de que o racismo não existe e está-se sempre a desculpar tudo. As pessoas negras, numa perspetiva de sobrevivência, aprendem a não ligar - crescemos assim. Marega como não tem essa noção, é estrangeiro, não está para aguentar."

"Portugal é um país racista mas este boom de reação não é para o admitir e lidar com isso, é para provar que não é."

O treinador de futebol e comentador desportivo Blessing Lumueno, 32 anos, concorda. "Não aconteceria com um negro português, nenhum negro português faria o que fez Marega. Estamos habituados a meter para dentro."

Blessing jogou como federado juvenil e, conta, "aconteciam coisas parecidas. Só que não com a dimensão de um estádio inteiro, que é avassalador. Chegou a acontecer sairmos apedrejados, protegidos pelos colegas. E ainda agora, todos os anos, sucede ouvir isto - insultos racistas - nos jogos. Já aconteceu com um miúdo de 18 ou 19 não conseguir aguentar e sair do jogo. Estive com ele no balneário a falar. Foi um dos casos em que apresentei queixa, e houve uma punição do clube adversário."

Ele próprio, como treinador, já sofreu esse tipo de insultos. Estive num clube em que os pais de um determinado jogador me insultavam sempre nos jogos - "Preto de merda, cala-te ó preto" - e o clube foi falar com eles e disse que enquanto não mudassem a atitude o miúdo não jogava. E acabaram com aquilo."

O que se passa nos estádios, porém, é apenas uma manifestação mais ruidosa, mais virulenta e inegável, do que ocorre todos os dias. "Quando miúdo fui várias vezes revistado ao sair de um supermercado. Não sabia que podia opor-me e chamar a polícia. E ainda hoje entro numa loja e muitas vezes o segurança vem atrás de mim."

E como reage? "Cumprimento-o e pergunto porque é que o faz, porque vem atrás de mim e não de outras pessoas. E geralmente vai-se embora. Mas percebo que haja quem reaja a isto com violência."

"Há o mito de que o racismo não existe e está-se sempre a desculpar tudo. As pessoas negras, numa perspetiva de sobrevivência, aprendem a não ligar - crescemos assim. Marega como não tem essa noção, é estrangeiro, não está para aguentar."

Blessing escreveu um texto no Expresso sobre o caso Marega - Houve um tempo em que fomos todos macacos - e foi à SIC-N falar do ocorrido em Guimarães. E do racismo português, porque, crê, não se pode separar uma coisa da outra. Contou que toda a vida lhe disseram "tu para preto até és esperto" e "para preto falas bem" e, no Twitter, disse que um gesto como o de Dani Alves lhe parece mais eficaz do que o de Marega.

Ao DN, porém, frisa a sua defesa do que fez o jogador do FCP. "Discordo completamente que ele não tenha sido profissional - acho que ele foi o mais profissional que podia ser. Nunca na vida diria que ele agiu mal. A não reação não é uma opção." Nem mesmo quando faz gestos obscenos para o público? "Nem mesmo aí. Um estádio inteiro uniu-se contra ele e a resposta dele foi também de força. Se a equipa tivesse saído com ele a resposta teria sido avassaladora também - e devia ter acontecido."

"O racismo está enraizado. Devíamos admiti-lo"

Mais coisas deviam ter acontecido, na perspetiva de Blessing. E muitas outras têm de acontecer. Dentro e fora do futebol. "As regras do jogo são sempre no sentido da continuidade. Para quem as faz, o jogo é o mais importante."

Daí que quando arremessaram cadeiras a Moussa Marega, depois de ter marcado golo, o jogo não tivesse sido interrompido. E que o árbitro tenha permitido que os sons de macaco existissem sem mandar parar o jogo ou ordenar os avisos, pelo speaker do estádio, que as regras impõem nestes casos (ao terceiro, se o público não retificar o seu comportamento, o jogo é dado como terminado).

Como afinal se tem permitido que tudo continue como se não houvesse um problema. "Isto, o racismo, é uma coisa enraizada. Deveríamos admiti-lo, em vez de o omitir, e prevenir. Para que não venha a escalar."

À imagem dos outros entrevistados, ouviu conselhos da mãe - foi com ela que veio de Angola, muito pequeno, o pai ficou lá - sobre como lidar com o assunto. "Ela é muito respondona. Disse-me sempre para tentar não me deixar limitar. Não me disse para não reagir, mas para não levar a peito o que me diziam e se me insultassem tentar mostrar que não havia motivo."

"O que acho é que a maior parte das pessoas que têm alguma notoriedade associaram-se a isto por uma questão de oportunismo e não vai acontecer nada."

À filha de 2 anos ainda é cedo para falar disto. "É muito difícil, mas teremos de lhe dizer. Tenho a certeza de que vai ouvir comentários do género, é inevitável. Temos de prepará-la para ter formas de ação."

O racismo como um problema das minorias: enquanto forem só os pais negros, ciganos, asiáticos, a preparar os filhos para lidar com ele e a assumi-lo como uma realidade e um problema, alguma coisa muda? Blessing não acredita. "A maior parte dos miúdos passam muito mais tempo longe dos pais do que perto. Nas escolas isto devia ser matéria obrigatória semanal. Só se combate com aumento do volume da informação e simulação até destas situações. Porque para uma criança não é fácil reconhecer uma situação de bullying. Quando estou noutros países percebo o esforço que tiveram de fazer para que as coisas se tornem normais. Nas pessoas mais velhas será muito difícil alterarmos o comportamento. Daí que ache que é preciso insistir na componente educativa."

No clube de que é treinador, o Estoril, há várias ações sobre bullying e todos os miúdos têm de passar por elas. "Nos outros clubes onde estive, não havendo isso, tentámos promover o respeito pelo adversário."

Que o Estoril seja aparentemente exceção e que nas escolas o assunto racismo continue a ser um quase tabu, mesmo quando sucede um caso com a dimensão do de Marega, permite ter uma noção do tanto que há a fazer. Farão então alguma diferença o bruaá mediático, a súbita multiplicação de tomadas de posição "oficiais", as declarações de intenções? Apesar da sua postura serena, o treinador do Estoril parece impaciente. "O que acho é que a maior parte das pessoas que têm alguma notoriedade associaram-se a isto por uma questão de oportunismo e não vai acontecer nada."

"O que ele fez era impossível até acontecer"

"O Presidente da República veio logo falar de Marega mas não disse uma palavra quando o deputado do Chega mandou a deputada Joacine Katar Moreira para a terra dela."

O humorista Carlos Pereira, 27 anos, autor da rubrica da RDP África na Corda Bamba, não poupa no sarcasmo. "A ideia destas reações todas de repúdio é 'aquilo que aconteceu ao Marega é horrível mas não digam que Portugal é um país racista'. É tratar como uma coisa episódica, numa de 'estamos todos a tentar resolver para voltar a ter o país bom de temos, porque o país estava tão bem. E os tais Mamadous e Joacines que estão sempre a lembrar que o país é mau, eh pá calem-se'."

É que, comenta, se acusam Mamadou Ba (dirigente do SOS Racismo) e Katar Moreira de violência discursiva, "para Marega, que mostrou o dedo do meio ao público, há condescendência e compreensão. Reconhecem-lhe razão para reagir com raiva ao racismo. Mas não aos outros. Porquê? Não é tudo racismo?"

Pode ser, aventa, porque Marega "é do futebol e deu-nos golos, é visto como útil". Ou porque ninguém espera dele que se transforme num ativista político com um caderno de reivindicações e não se cale mais com o assunto: teve uma explosão e pronto, pode ser elogiado, talvez até condecorado, e segue a marinha. Mesmo se, sublinha Carlos, ainda assim houve logo no início quem o criticasse por sair do protocolo - o protocolo de fingir que não se passa nada, que não tem importância. "Há pessoas a dizer: ele tinha de ser superior a isto, como é que se deixa ofender?"

"Há quem diga que isto não foi racismo. Estou ansioso por que me digam o que é afinal racismo, se nunca nada do que sucede neste país é racismo."

Carlos tem riso na voz, repete: "Como é que ele se deixa ofender." E depois, prossegue, "há quem diga que isto não foi racismo. Estou ansioso por que me digam o que é afinal racismo, se nunca nada do que sucede neste país é racismo."

Respira fundo. "Quando vi aquilo senti raiva, senti vergonha dos comentários e das reações. A minha raiva vem de eu me projetar na dor do Marega, porque aquilo que aconteceu ali é muito maior do que a reação dele. E acho que foi o início de algo de bom: a próxima vez que acontecer num estádio em Portugal já não se deixa passar. O que ele fez era impossível até acontecer. E agora aconteceu."

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