A consoladora redondeza da Terra

Qualquer "debate" com André Ventura nunca será sobre outra coisa que não as coisas que André Ventura quer dizer na televisão, e o que ele quer dizer nunca é sobre política, mas sobre tudo aquilo que começa no sítio onde a política acaba.

Nesta semana, centenas de milhares de portugueses tiveram oportunidade de ver alguém a explicar na televisão que 1) ele não é racista, e 2) Portugal, tal como ele, também não é racista. Não foi a primeira vez que esta pessoa foi à televisão explicar que nem ele nem Portugal são racistas; também não será a última. Há vários anos que é possível ver a mesma pessoa numa parte diferente da televisão, onde, em vez de explicar que não é racista e que Portugal não é racista, costuma explicar outro género de coisas, aos gritos. As explicações costumam versar temas como "ISTO ALGUMA VEZ É PENÁLTI?" "VAI CHAMAR PALHAÇO À TUA TIA!" ou "ANÍBAL! ANÍBAL! NÃO ME INTERROMPAS! ANÍBAL!"

A pessoa que comentava penáltis e especulava sobre laços de parentesco de palhaços tornou-se entretanto deputado, e o aparato jornalístico-televisivo nacional auto-impôs-se a tarefa de o submeter à única forma de escrutínio que hoje em dia conhece: o escrutínio que consiste em apontar periodicamente uma câmara a alguém e perguntar-lhe "qual é a sua opinião sobre este assunto?" O assunto designado da semana era "o racismo", portanto as opções eram apenas duas. O inquirido pode achar que o racismo é bom, ou pode achar que o racismo é mau.

Que o racismo é mau foi uma mensagem transmitida com tamanho sucesso ao longo das últimas décadas que se tornou quase consensual, mesmo entre pessoas que de vez em quando se comportam como se o racismo fosse bom, ou pelo menos neutro. O gesto reflexo de qualquer racista é precisamente negar que o seu racismo é racista. "Racista" passou a significar apenas aquilo que ninguém é, porque o racismo é mau e o racista não acredita ser mau. A alternativa óbvia é passar a achar que o problema real não é "o racismo", mas sim outro, e "a hipocrisia" é sempre um candidato viável.

Os painéis de comentário futebolístico são a academia perfeita para desenvolver dois talentos específicos muito úteis na arte de substituir um problema por outro: a capacidade para continuar a gritar coisas na televisão enquanto outras pessoas gritam coisas diferentes; e a capacidade paralela - comum, aliás, à maioria dos adeptos de futebol, mesmo os que não vão à televisão - para conseguir blindar qualquer opinião através do recurso constante a situações hipotéticas, imaginando o que diriam pessoas imaginárias nas circunstâncias por si imaginadas. O que diria o adepto do clube x se situação y fosse com ele? E o que diria a imprensa se esta falta fosse cometida pelo jogador y em vez do jogador z? O que estas pessoas ou instituições imaginárias diriam ou não diriam é sempre, imagine-se, muitíssimo hipócrita.

É esta longa e árdua formação profissional que permite a André Ventura dizer coisas muito alto e muito depressa, sem que essas coisas mantenham em nenhum momento a mais ténue relação com o assunto supostamente em causa. É o que lhe permite, por exemplo, a propósito dos insultos racistas de que Marega foi alvo, comentar que "António Costa não fez um tweet quando um bombeiro foi agredido, porque não dava jeito" ou que "qualquer dia não podemos dizer paciência de chinês porque vem logo uma comissão meter-nos um processo". Semanticamente, as frases cumprem a mesma função de "não falas daquele fora-de-jogo de Setembro em Vila do Conde porque não dá jeito!" ou "qualquer dia não se pode tocar em nenhum jogador que é logo penálti!" Respeitam a melodia do tema com uma letra improvisada. Permitem que o racismo continue a ser mau, ao mesmo tempo que é despromovido à condição de falso problema e substituído por outro, que é o problema de "qualquer dia ser tudo racismo".

André Ventura faz várias coisas, mas nenhuma delas é complicada. E a mais simples e mais pertinente é esta: selecciona algumas coisas que não costumavam ser ditas na televisão e depois vai à televisão dizê-las

Também presente no estúdio, Miguel Sousa Tavares interpretou o mesmo papel que Ricardo Sá Fernandes interpretara duas semanas antes: a voz condescendente e apenas levemente exasperada do adulto na sala, cumprindo a sua cândida utopia de que as "ideias" se derrotam em duelos do séc. XIX, com luvas, cartolas, regras, árbitro e elevação, e provavelmente alheio ao facto de o espectáculo, para quem assistia de fora, se assemelhar a um debate entre estatísticas do Pordata e uma resma de manchetes em caixa alta. "Vivemos num dos países mais seguros do mundo", explicou, de forma adulta. "Vamos ser sérios, Miguel, vamos deixar de ser hipócritas", ouviu. "A maioria agora sente-se a minoria, Miguel, quando é ao contrário nunca é racismo, Miguel", ouviu. "Os portugueses que pagam impostos estão fartos disto", ouviu.

O debate durou 15 minutos e conseguiu não ser sobre racismo, nem sobre Marega, nem sobre futebol, nem sequer sobre política, porque qualquer "debate" com André Ventura nunca será sobre outra coisa que não as coisas que André Ventura quer dizer na televisão, e o que ele quer dizer nunca é sobre política, mas sobre tudo aquilo que começa no sítio onde a política acaba: o reino da sensação e do atavismo, da irritação espontânea, da comichão do momento - de algo que pode assumir várias formas e ser provocado por vários assuntos, mas que se pode resumir quase sempre da mesma maneira: a autocomiseração impotente e recursiva de quem acredita que há demasiadas coisas irritantes a ser ditas por pessoas irritantes - na televisão, nos jornais, nas redes sociais - e portanto precisa de que alguém diga as coisas opostas para aliviar essa irritação.

André Ventura faz várias coisas, mas nenhuma delas é complicada. E a mais simples e mais pertinente é esta: selecciona algumas coisas que não costumavam ser ditas na televisão e depois vai à televisão dizê-las. Que as coisas que diz sejam falsas, ou que as diga de uma forma transparentemente performativa, é quase irrelevante, porque a melhor resposta encontrada até agora pelas pessoas que não são André Ventura é aparecer ao lado dele na televisão a reiterar, de modo igualmente performativo, as verdades bem-comportadas que sempre foram ditas na televisão. O racismo existe e é mau: xeque-mate.

Kierkegaard conta, num dos seus textos menores, a história de um louco que conseguiu fugir de um hospício. A caminho da cidade mais próxima, é assaltado pelo receio de ser recambiado caso suspeitem de que ele é louco, portanto decide-se a convencer toda a gente da sua sanidade, através "da verdade objectiva daquilo que diz". O resultado prático desta decisão é que, ao visitar um amigo, ou ao cruzar-se com estranhos na rua, não faz outra coisa a não ser repetir "A Terra é redonda! A Terra é redonda!". O desgraçado é prontamente internado outra vez.

Uma quantidade considerável de pessoas que costumam dizer coisas na televisão (e nos jornais, e nas redes sociais) foi-se convencendo gradualmente de que identificar e classificar algo desagradável é o mesmo que torná-lo inoperante. Os explicadores profissionais dos "perigos do populismo" na imprensa, normalmente mais interessados em procurar analogias do que raízes, estiveram nos últimos anos demasiado entretidos com outra figura do futebol português para perceberem que quem se desmarcava e seguia isolado era quem já fazia parte do mesmo sistema, alguém cuja ambição nunca se esgotou em dizer apenas mal dos árbitros na televisão, quando há tanta coisa que se pode dizer na televisão, e tanto problema para substituir pelo problema da "hipocrisia".

O venturismo não existe politicamente, porque só existe no ecrã, e apenas em reacção a algo predefinido, a algo que já irritou alguém, algures: a sua substância resume-se a dizer na televisão aquilo que ninguém dizia na televisão, e a confiar na propensão de algumas pessoas para interpretar aquilo que ninguém dizia como algo crucial que se pretendia ocultar. O arsenal retórico disponível para combater isto é, pelos vistos, reiterar a confortável verdade de que a Terra é redonda, perguntar a André Ventura se ele acha bem ou mal que a Terra seja redonda, e ouvir tranquilamente a sua resposta - na televisão, e todas as semanas. Claro que a Terra é redonda, concorda ele. Não há problema nenhum com coisas redondas, alguns dos meus melhores amigos são redondos. Mas muitas outras coisas são quadradas e sobre isso ninguém fala porque não dá jeito. Vamos ser sérios, chega de hipocrisia. Qualquer dia é tudo redondo, e os portugueses que pagam impostos estão fartos.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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