Gustavo Ventura tem 63 anos, 15 dos quais passados em Portugal, pela mão da Federação Portuguesa de Atletismo. Nasceu na província de Granma, licenciou-se em Cultura Física e Desporto, foi professor, o que nunca deixou de ser quando se tornou treinador de atletas do lançamento, sobretudo treino de força. Deixou Cuba como cooperante, valeu-lhe depois a mulher de então ser estrangeira para se radicar num país europeu. Deve 90% do que é ao pais onde nasceu, a cujos dirigentes elogia as políticas nas áreas de educação, saúde e, claro, desporto, também lhes reconhece alguns erros. Se tem estado na sombra, para ele não é um problema. Faz o que gosta, estar com os atletas, com pessoas. Já é problema ter de deixar neste mês o apartamento onde mora e não ter dinheiro para o que o lhe pedem por outro..Foi um bom atleta?.Fui atleta para o medíocre, de luta livre e ginástica, foram passagens muito fugazes..Como é que chegou a treinador?.Formei-me em Cultura Física e Desporto, em 1977. Sai diretamente para ensinar numa escola desportiva conhecida como Centro Experimental de Desenvolvimento e praticamente criada naquele ano. As experiências práticas foram fantásticas, únicas em todo o país, e nessa escola iniciaram-se grandes campeões olímpicos e mundiais em várias modalidades: vólei, halterofilia, luta, atletismo, etc. Essa escola mudou a conceção do trabalho que se fazia em Cuba no desporto. Trabalhei aí durante seis anos e depois passei para a Escola Superior de Aperfeiçoamento Técnico de Havana, até que decidiram a minha saída do país como cooperante..Saiu num convénio do Estado?.Exatamente, a minha última cooperação foi em África, em Cabo Verde..Quando é que aparece Portugal?.Conheci portugueses nos Jogos Olímpicos de Austrália, em Sydney, em 2000, a Teresa Machado [atleta de lançamento do disco e peso], Júlio Cirino, técnico nacional de lançamento, que me falou em vir a Portugal. Reencontrarmo-nos em 2003, em Paris, no Campeonato do Mundo, e decidiu-se a minha vinda para Portugal, através da Federação Portuguesa de Atletismo..Ainda como cooperante?.Não, já tinha acabado o período de cooperação, mas saí com autorização das autoridades do meu país. Facilitou estar casado com uma estrangeira, a lei cubana permite sair ao abrigo da reunificação familiar. Volto quando quero e não entro em questões políticas. Todo o meu percurso, a minha formação, 90% do que sou devo-o ao meu país..Não é o que tem acontecido com a generalidade dos atletas cubanos que emigram..Lamentavelmente, a lei cubana é contra essas saídas. E porquê? É certo que em Cuba temos muitas necessidades, é um país subdesenvolvido e não industrializado, mas tem muitas coisas boas: educação, cuidados médicos gratuitos, o desporto é apoiada. Uma criança entra na primária e até concluir o curso universitário não gasta um cêntimo..Tem escolas e hospitais bem equipados?.Faltam coisas, mas faltarão sempre, até nos países desenvolvidos. O que podemos esperar num país pouco desenvolvido como o nosso e com o embargo durante anos? Ainda assim, o índice de mortalidade em Cuba é inferior ao de muitos países desenvolvidos e industrializados [4,1 em mil bebés em 2017, ligeiramente acima do Canadá e Reino Unido, por exemplo, Portugal tem uma taxa de 2,6 por mil]. A taxa de analfabetismo é zero. A nível desportivo, conquistou mais medalhas olímpicas e mundiais do que muitos países com excelentes recursos, e é um país com 11 milhões de habitantes. E temos de ter em conta o embargo económico e, também, algumas más políticas, não podemos ser cegos. Há coisas boas mas cometeram-se erros..A que se deve essa potência desportiva?.Às escolas desportivas de iniciação que se criaram, as crianças saem da iniciação e vão para uma escola de aperfeiçoamento, vão de escalão em escalão até chegarem à seleção, em que têm um centro de preparação. Cuba criou infraestruturas desportivas desde a base, ao mesmo tempo que criou um sistema em que os atletas e treinadores se vão superando, tudo isso fez que chegássemos onde chegámos. E Cuba não tem clubes, é o Estado é que paga tudo..Ganhar o lugar na seleção.Será também uma questão de atitude, de temperamento?.É verdade que temos outra mentalidade e outra idiossincrasia. A trajetória que fizemos para evoluir desportivamente tendo em conta as nossas condições materiais e necessidades criou em nós uma forma diferente de pensar e atuar. Em primeiro lugar, o sonho de todo o atleta em Cuba sempre foi ganhar, ganhar o equipamento da seleção. Todos querem chegar à seleção nacional e há que o conquistar. Em segundo, os jogos escolares em Cuba são praticamente tão importantes como uma medalha olímpica. O sonho do atleta que se inicia é ganhar a sua primeira medalha escolar, a partir daí começa o seu percurso desportivo..É uma forma de conseguir bens que de outra forma seriam difíceis..Temos um lema próprio de Fidel, e não vou entrar em política, mas tem a ver com isso: o desporto é um direito do povo. A Educação Física nas escolas é muito diferente da de outros países. Não conheço o programa de Educação Física português, mas quando os atletas chegam aqui [Centro de Alto Rendimento de Atletismo do Jamor] damo-nos conta de que não aprenderam Educação Física na escola, que é o primeiro lugar onde se deve aprender. Não estou a criticar, estou só a responder à pergunta: porque é que Cuba é uma potência desportiva?.Uma realidade muito diferente da que encontrou?.Muito. Temos um centro de treino e os atletas queixam-se sempre de alguma coisa, está sempre a faltar algo. Se estes atletas, como lhes digo, fossem a um centro de treino em Cuba, veriam como se fazem campeões sem condições. Uma barra para levantar pesos para mais de cem atletas, atletas sem ténis de treino ou pitões especializados, só os recebem na seleção nacional e nas escolas desportivas. Cheguei a ter atletas que treinavam com botas da tropa e numa pista de terra. Este ginásio tem todas as condições, mas estão sempre a reclamar. Não estou a criticar, estou a comparar..Diz-lhes isso?.Só o digo aos meus atletas e não permito que digam que não existem condições. Não há condições, procuremos a solução. Não temos dardos, lançamos uma pedra ou bolas de basebol, que é o desporto nacional de Cuba. Lançamos bolas de basebol com a técnica de dardo. Criámos um grupo técnico metodológico nacional, que era responsável por estudar e analisar toda a planificação desportiva em Cuba. Eu trabalhava numa escola desportiva e os meus atletas não começavam a treinar até que o meu plano de treinos não fosse avaliado e aprovado por aquela comissão, se tivesse algum erro, voltava para trás..O que não acontece em Portugal..Não acontece. Aqui os treinadores nunca se reúnem para discutir um treino, só quando há formação e para ganhar horas por causa da carteira de treinador. Tínhamos um dia por semana em que todos os treinadores da área de atletismo se reuniam e, de cada vez, um treinador diferente apresentava um tema sobre o plano de treino, força, resistência, saltos, etc. Aqui é cada um por sim, não pretendo importar método nenhum, estou a falar da minha experiência..Devo concluir que quando chegou a Portugal, em 2003, foi difícil a adaptação?.Supostamente, havia um grupo que estava à minha espera, atrasei-me a chegar e esse grupo já tinha outro treinador..Algum clube em particular?.Não, atleta de diferentes clubes, lançadores de dardo, peso, disco. Só esperou um, o Hugo Caldeira, que era lançador de disco, logo se incorporou Marco Fortes. A partir daí, fui trabalhando e apareceram outros atletas..Sempre através da federação?.Sim, mas sentia-me um pouco limitado, trabalhar com a Federação [de Atletismo] impedia-me de me vincular a um clube. E quando aparecia um atleta bom, com certa qualidade, os clubes apanhavam-no e já tinham os seus treinadores. E isso impediu-me, talvez, de ter feito um trabalho muito maior do que fiz. Em termos gerais, o meu trabalho não se tem visto..Acha que o seu trabalho tem sido invisível?.Eu acho que se vê, mas sinto que há essa opinião, inclusive houve jornalistas que me questionaram sobre os meus resultados. O que posso dizer é que durante estes anos chegaram à minha mão atletas que vinham estragados e que ajudei a recuperar. O meu trabalho pode não estar muito visível, mas foi importantíssimo para mim, para os atletas, para muitos colegas, para muitas pessoas..As mágoas guardo-as para mim.Sente-se injustiçado?.Já o senti, mas aprendi a lidar com isso. Quando decidi sair de Cuba não foi por problemas políticos, foi por problemas económicos. Procurava, através da minha profissão, uma via para ajudar a família e ter melhor vida. Mas viemos de uma universidade tão grande e boa que não há nada que nos tire o prazer de estar com os atletas. As mágoas guardo-as para mim. E porque é que vou gritar? Estou a trabalhar..E faz o que gosta..Claro. E ainda tenho esperança de que a minha situação melhore, até que um dia perca a paciência..Nunca pôs a hipótese de se desvincular da federação e ir para um clube?.Fizeram-me propostas, mas hesitei: deixar a federação, à qual devo e em que estou há tantos anos, ou arriscar sair. Acabei por ficar, além de que sempre trabalhei com atletas dos clubes, não recebo é mais dinheiro por isso. Não ia abandonar um atleta por questões económicas, por não ter um contrato..Foi o caso de Francis Obikwelu, de Marco Fortes....Dei apoio a Obikwelu (corrida), fui treinador de Sílvia Cruz (dardo), de Marco Fortes (peso), de Hélder Pestana (dardo). Fui o primeiro treinador a trazer atletas estrangeiros para fazerem estágios em Portugal, cheguei a ter ofertas de contrato do estrangeiro, nomeadamente de Israel, e continuo a ter..Porque é que nunca aceitou esses convites?.Tenho 15 anos de Portugal; sou muito mau em línguas; sou descendente de pretos, sou friorento. E a comida portuguesa? Não a encontro noutro lugar. Aqui, sinto-me como se estivesse em casa, as pessoas têm sido excecionais comigo, a federação, que me trouxe, nunca me abandonaram. Verdadeiramente, a minha única queixa é o meu salário..Posso saber qual é o seu salário?.Ganho 533 euros líquidos. Tenho de entregar o apartamento onde moro e não encontro outro porque não posso pagar o que me pedem..Não consegue dar aulas numa escola?.O problema é que o meu curso de licenciado em Cultura Física não é reconhecido em Portugal. Teria de voltar a fazer um curso, o que não faz sentido porque o meu é completíssimo. Sou treinador de Nível III, fiz as formações que me interessavam e estou habilitado. Também dei muita formação, agora raramente isso acontece..Quem está a acompanhar neste momento?.Estou a treinar os atletas que ninguém quer. Tenho um grupo jovem, cinco atletas que me pediram ajuda. Atletas que não recebem dos clubes e que têm grandes necessidades económicas..Tem esperança de que ouviremos falar deles?.Sim. E se não forem grandes atletas, pelo menos, serão grandes pessoas, porque em primeiro lugar estão os estudos. Têm de me informar sobre as avaliações da escola, não lhes permito que faltem, procuro ensinar-lhes tudo o que sei e não apenas de atletismo..Como se fossem seus filhos?.Sim. O mais velho tem 25 anos, é um paraolímpico. Tenho dois juniores de dardo e um rapaz de Angola, todos muito interessados em trabalhar. E que têm qualidades..Tem filhos?.Duas filhas em Cuba, e tenho netinhos..Tem simpatia por algum clube em Portugal?.Já tive, pelo Belenenses, ajudaram-me muito num momento difícil - cheguei a ter lá um grupo de trabalho muito bom -, vou estar sempre agradecido à direção do Belenenses daquela época. Sempre gostei do vermelho, sinto-me atraído pelo Benfica, apoiei Marco Fortes, agora não tenho contactos com o clube. Admiro o trabalho do Sporting, sou amigo de atletas e treinadores do Sporting. Mas sinceramente não tenho nada que agradecer aos clubes, nem sequer me ofereceram um boné ou uma camisola quando treinei atletas desses clubes. E trabalhei com atletas de todos os clubes..Sonha com o quê?.A única coisa que me falta no meu currículo é participar num campeonato asiático. Participei em Jogos Olímpicos, campeonatos do Mundo (juniores, seniores", africanos, da Europa, americanos, pan-americanos... mas sonho em melhorar a minha situação. Vou ter de deixar a minha casa neste mês e não sei o que se vai passar..Mais dinheiro?.Não estou a falar apenas de dinheiro. Gostava de que melhorassem o meu contrato de trabalho e me dessem mais responsabilidades. Houve fases em que ganhei muito dinheiro na federação, mas mudaram as direções e as minhas condições pioraram, até trabalhei nas obras, não gostava mas precisava de ganhar dinheiro. Voltaram a chamar-me, só que o salário é de 533 euros..E a nível do seu trabalho?.Gostaria de ter um grupito que me permitisse mostrar o meu trabalho. Se conseguir pôr o grupo com o qual estou a trabalhar ao mais alto nível já me sinto satisfeito. Os atletas têm-me dado muitas alegrias. Quando trabalho, procuro fazê-lo o melhor possível. Gosto de cuidar dos meus atletas e fazer que evoluam. O maior sonho sempre foi morrer como treinador, morrer tranquilo, na minha casa e decentemente. O meu sonho é a minha realidade, treino todos os dias, com dinheiro ou sem dinheiro. Ajudo sempre quem me pede ajuda, sou feliz assim. Não me interessa se estive na sombra, sei que vai sempre aparecer uma pedrinha com o meu nome, pode ser muito pequena, mas vai aparecer. Neste centro e por todo o Portugal, também no estrangeiro, alguma pedrinha terá o meu nome.