Não há fake news. Chamam-se mentiras.

As notícias falsas já chegaram a Portugal - como contamos numa investigação que encontrou um dos primeiros sites feitos para as criar e divulgar. Viram o meme do relógio caríssimo de Catarina Martins? Uma notícia falsa. A história de que a nova PGR estava num jantar em casa de José Sócrates? Idem, aspas.

Ambas estas histórias bebem na origem dos boatos: se não é verdade, é pelo menos bem achado. Ou seja, aproximam-se do que podia ser uma realidade e colam com um certo sentimento popular. O problema das "notícias falsas" é que parecem ser verdade para melhor mentir. No caso do relógio de Catarina Martins é assim - a história faz claramente alusão ao caso do prédio de Ricardo Robles e vai no mesmo sentido de denunciar o suposto cinismo das convicções dos dirigentes do Bloco de Esquerda. Num caso era verdade. No outro é mentira.

O autor destas notícias falsas é um obscuro empresário têxtil que domina as redes sociais e o ambiente cibernético, mas não é ingénuo e tem convicções políticas - dizendo ao que vem logo no nome da página que criou: Direita Política. Talvez esse seja o seu único erro, desvalorizando o conteúdo ao denunciar o objetivo. Mas imaginem que não o fazia. Este é um bom, aliás, mau, prenúncio do que poderá vir por aí, em ano eleitoral, de intoxicação da opinião pública, de manipulação das vontades. À direita e à esquerda.

Na cacofonia das redes sociais, o que podemos fazer? Pouco, muito pouco. Sabemos, no fundo, que as pessoas vão acreditar no que querem. E, como vivem cada vez mais em câmaras de eco, com toda a informação que consomem sendo selecionada por algoritmos de redes sociais que só lhes dão o que acham que vai ao fio do seu pensamento, e não ao arrepio, de convívio com pessoas que pensam o mesmo que elas, de leituras de opiniões com as quais vão concordar, é cada vez mais fácil divulgar boatos que lhes pareçam verdade.

Há tentativas. No Brasil está a tentar-se apurar responsabilidades sobre a rede de mensagens falsas WhatsApp criada por uma série de empresários que apoiam Bolsonaro. Nos EUA, há processos contra incertos - uma vez que os autores das principais notícias falsas contra Hillary Clinton são russos e estão a milhares de quilómetros de distância. Mas ambos os processos são complexos e difíceis de chegar a bom porto. E é por isso que baixamos com tanta facilidade os braços.

Pois podíamos começar por um ato higiénico, proponho. Chamar os bois pelos nomes. Começa no nome a falsidade das notícias falsas. É que ou são notícias, ou são falsas. Porque não há notícias falsas, há mentiras.

"Fake news", em inglês. "Fake" tanto quer dizer falsas como falsificadas - o que é algo mais correto, mas não chega. Também não há notícias falsificadas. Ou há notícias ou falsificações. Se começássemos por aqui, a falar claro, talvez fosse mais fácil encarar o fenómeno de frente e não de cernelha. E combatê-lo. Ou, pelo menos, evitar a suavização de algo tão perigoso - porque ataca o discernimento para escolher que é a base da democracia.

Mentiras há desde que Eva chamou maçã ao que não o era, mas as chamadas "fake news" começaram na campanha de Barack Obama, quando circularam nas redes sociais rumores de que ele não tinha nascido nos EUA. Essa tramoia foi agarrada e aperfeiçoada por Trump. Depois das eleições, ele virou o bico ao prego e lançou a culpa contra os jornais que o escrutinavam. E começou pelos números da multidão na inauguração de Trump, no Mall de Washington: os jornais diziam que eram muito menos do que o recém-empossado achava que eram. E então a Casa Branca inventou uma outra expressão: factos alternativos. O jornal americano The New York Times, um dos visados, contrapôs com uma explicação cirúrgica: "A alternativa de verdade é uma mentira."

O jornalismo, aliás, tem uma responsabilidade acrescida nisto. A nossa profissão e negócio baseia-se em dar notícias, informações que o leitor valoriza por lhe serem úteis, ou seja, por serem verdadeiras. Não apenas a busca da verdade mas o rigor e profissionalismo desse trabalho de busca da verdade. Há uma série de regras a seguir - esta é uma profissão controlada - e entorses, pequenas falhas éticas, pouco recuo, pouca noção dos interesses em causa, notícias que não se confirmam... opinião servida como factos, opinião turvando factos - tudo isto contribui para a quebra de confiança e para o relativismo.

Se o que lhes é fornecido como informação fidedigna for de tão pouca confiança como o que lhes é servido como falso (sem que o saibam) e, pior, tudo tiver a mesma aparência, é provável que as pessoas acreditem mais no que querem acreditar.

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