Are you talkin' to me?

Se Taxi Driver acumula uma enorme informação cinéfila, não é menor a presença de outros elementos e influências, desde logo da religião. Nascido numa família católica de Nova Iorque, Martin Scorsese teve uma infância atormentada e, a dada altura, chegou a pensar abraçar a vida sacerdotal. Paul Schrader, por sua vez, é oriundo de uma família alemã estritamente calvinista, de Grand Rapids, Michigan. O pai estudara para pastor, tendo de abandonar essa carreira devido à Grande Depressão de 1929, e Paul foi educado numa rigidez tal que, até aos 17 anos, nunca teve autorização para ver filmes ou ir ao cinema.

Em Taxi Driver não há padres nem missas, e a religião marca presença, antes de mais, pela sua ausência, pelo retrato de uma cidade afundada na prostituição e na violência, no crime e na pornografia, de um mundo sem Deus, no seio do qual Travis Bickle se sente profundamente só. A dado trecho, confessa-se um "solitário de Deus" e noutro, como um profeta bíblico, diz aguardar o dia em que um novo dilúvio limpe a cidade da podridão e do vício. Em lugar algum Travis confessa ser religioso ou ateu, sendo esse tópico menos explícito do que em A Desaparecida, de John Ford, no qual o agnosticismo de Ethan/John Wayne é patente e afirmado.

Em todo o caso, e como tem sido observado, a personagem interpretada por Robert De Niro fantasiava ser, sem dúvida, um anjo vingador, que primeiro tenta alvejar um político e candidato presidencial, Charles Palantine, e depois direcciona a sua fúria para Sport, o proxeneta de uma prostituta de 12 anos (ao contrário do que por vezes se diz, não foi a estreia de Jodie Foster no cinema: a jovem actriz já tinha entrado em Alice Já não Mora aqui e, em parte por causa disso, a mãe convenceu-a a aceitar o novo desafio de Martin Scorsese, contra aquela que era a vontade inicial de Jodie, que não queria participar num filme tão cru e tão violento, no qual, devido à sua idade, teve de ser dobrada pela irmã mais velha nas cenas com diálogos mais ásperos e grosseiros).

O filme vai evoluindo até se converter num ensaio psicológico sobre o evoluir da paranóia e os efeitos do stress pós-traumático na mente de um homem de 26 anos, veterano da Guerra do Vietname. Scorsese recordou que uma das histórias de infância que mais o marcaram foi contada pelo pai, sobre um tio veterano na Segunda Guerra que, sempre que ouvia o barulho mais sonoro de um escape de um automóvel nas ruas de Nova Iorque, disparava a correr, apavorado, um gesto muito comum em todos quantos conheceram os horrores da guerra.

Alguns comentadores, como Amy Taubin, dizem que Travis Bickle é um caso típico de uma personalidade borderline, que, devido a condições propícias (isolamento e solidão, frustrações sexuais, trauma de guerra, insónias permanentes, abuso de álcool e de medicamentos, a rotina do táxi nas ruas violentas), desenvolve uma psicose paranóica, com traços narcísicos pronunciados. A dificuldade que Travis sente em manter contactos sociais é patente logo nos primeiros momentos do filme, quando tenta, sem sucesso, estabelecer um diálogo com a empregada do bengaleiro de um cinema de filmes pornográficos. Essa dificuldade prolonga-se e intensifica-se no decurso do filme, nomeadamente quando se avista com outros colegas de ofício na cafetaria Belmore, um histórico local de encontro dos taxistas de Nova Iorque. O diálogo não flui, a conversa emperra, Travis tem momentos de completo alheamento e, num desvio onírico, contempla os clientes negros da cafetaria, que aos seus olhos surgem como feras agressivas.

Aos poucos, o seu universo reduz-se a dois espaços protegidos: o apartamento minúsculo e imundo, pejado de revistas pornográficas e restos de junk food, com uma bandeira do Vietname na parede, e o táxi, convertido em lugar de refúgio e posto de observação.

Nessa fase, há ainda alguns pontos de contacto com a realidade: Travis diz a Betsy que gostava de ser mais organizado, e tem no seu quarto um letreiro com essa promessa, exactamente como Arthur Bremer, o homicida de George Wallace, que também escrevera no diário que tinha de pôr ordem na sua vida. Mas, à medida que o filme progride, esse desejo de normalidade desvanece-se e as coisas tomam um rumo cada vez mais desorganizado e caótico, com o mundo exterior a surgir como uma ameaça crescente. À saída da cafetaria Belmore, Travis e um colega vêem-se subitamente cercados por um bando de jovens negros, ruidosos e ameaçadores, e, noutra ocasião, quando atravessa o Harlem ou o Bronx, um outro bando de jovens negros ataca o táxi em movimento, atirando ovos ou dejectos, numa cena que mostra que a ameaça do exterior não era tão imaginária quanto poderíamos julgar nem fruto exclusivo da mente doente de Travis Bickle.

Taxi Driver - e esse é um dos seus maiores prodígios - consegue manter, do início ao fim, a permanente tensão entre fantasia e realidade, ou seja, muito daquilo que Travis imagina como hostil e perigoso é, de facto, hostil e perigoso. Na preparação do filme, Robert De Niro obteve licença para guiar um táxi em Nova Iorque. Scorsese, que o acompanhou várias vezes, recorda ainda hoje o temor que sentia sempre que alguém fazia menção de entrar a bordo, sentando-se subitamente no banco de trás, sem dar tempo ao motorista para ver quem era, qual o seu aspecto, que riscos comportava. É também esse perigo, evidente e real, que Martin Scorsese quis transmitir aos espectadores, num chamamento à realidade dura da vida que a contracultura dos anos de 1960 desprezara. O mal e o perigo, corporizados nas prostitutas de rua, nos drogados, na violência omnipresente, não são produto do espírito perturbado de Travis Bickle, são, sim, as causas de uma perturbação maior - na mente de Travis e na nossa.

O filme será recordado para sempre pela frase "Are you talkin' to me?", com que Travis Bickle/Robert De Niro se confronta a ele próprio, e a nós, frente ao espelho da sua casa. A cena foi filmada num ângulo em que a linha de fogo da arma tem apenas dez graus de diferença em relação ao olhar dos espectadores, de modo que estes se sentissem especialmente interpelados pela raiva incontida do protagonista e pelo seu narcisismo pujante. Scorsese diz que o diálogo ao espelho foi inspirado numa cena de Marlon Brando de John Huston, de 1967. Mas a frase celebérrima, ao que parece, foi ouvida casualmente por Robert De Niro no espectáculo de um comediante underground da Baixa de Manhattan. Desconhece-se a identidade do autor daquela tirada de génio, e hoje isso pouco importa.

Taxi Driver configura-se como um filme densamente psicológico e íntimo, mas também político e objectivo. Na altura em que foi estreado, choveram críticas da esquerda, pois a mensagem e o tom geral da obra são, ao menos na aparência, conservadores, moralistas, securitários. O final, com a reabilitação do justiceiro que acabou por matar um proxeneta e dois cúmplices, aponta abertamente nesse sentido, e Scorsese contribuiu para isso ao afirmar que o seu filme era, ou deveria ser, um sinal de aviso para uma sociedade que produz psicopatas, não esclarecendo se se estava a referir tão-só a Travis Bickle ou aos outros marginais que com ele se cruzam nas ruas de Nova Iorque, como um negro seminu que corre gritando que vai matar a mulher, os clientes das prostitutas, os frequentadores dos cinemas hard core ou os clientes do táxi, como o protagonizado pelo próprio Scorsese, que dizem que irão castigar a esposa adúltera e o seu amante de raça negra.

A ideia fundamental de Taxi Driver, disse Scorsese, era apresentá-lo como "um percurso entre um filme de terror e o Daily News de Nova Iorque". Após o massacre, Travis adquire a celebridade fátua dos heróis dos tablóides, conquista o reconhecimento eterno dos pais da rapariga salva da prostituição e até a simpatia de Betsy, a mulher que antes o rejeitara. Os colegas passam a tratá-lo por "matador", o que, no universo agreste dos chauffeurs de táxi, não deixa de ser um epíteto respeitoso.

O final é, talvez, o momento mais implausível de um filme que prima pelo extremo realismo, como Schrader logo reconheceu numa entrevista da época, republicada no coffee table book da Taschen sobre o filme. Mesmo na Nova Iorque dos anos 70, e mesmo a pretexto de salvar uma menina da prostituição, não era provável que alguém matasse três homens a sangue-frio e não cumprisse qualquer pena. É possível que se trate de uma concessão às exigências do happy ending, mas hoje, muito provavelmente, teria prevalecido o outro final prenunciado na tela, o do suicídio de Travis Hikcle na própria cena do massacre, que aquele tenta ensaiar, em jeito de samurai, mas já não tem munições para levar a cabo. Scorsese teve de contornar a ameaça da censura através de expedientes imaginativos, e o final menos trágico, com Travis a voltar às ruas e ao seu táxi, foi, por certo, uma tentativa de diminuir o negrume de um filme que os estúdios de Hollywood só a muito custo apoiaram, e sempre com enorme desconfiança.

Na fase final de pós-produção, chegaram a exigir a Scorsese que suprimisse as cenas em que a violência é mais explícita. Martin ficou à beira de um colapso, conta Peter Biskind no apaixonante livro Easy Riders, Raging Bulls, e convocou os seus amigos do cinema para uma reunião de emergência na sua casa de Mulholland, onde John Milius, Steven Spielberg e Brian De Palma o foram encontrar à beira de um ataque de nervos, a partir copos e garrafas no chão da cozinha. No decurso da conversa, alguém teve a ideia, para acalmar os censores, de descolorir a tonalidade do sangue na cena do massacre, na linha do que John Huston fizera em Moby Dick. Graças a isso, em larga medida, o filme foi salvo de uma classificação mais severa por parte das autoridades, o que, a ter acontecido, dificultaria o sucesso de bilheteira que acabou por alcançar.

Salvou-se a obra, decerto, e a carreira de Martin Scorsese, mas, sobretudo devido ao desenlace final, muito pouco realista e credível, Taxi Driver aproximou-se perigosamente dos "filmes de vigilantes" que marcaram aquele tempo, com Dirty Harry à cabeça, o que acabou por lhe conferir uma tonalidade conservadora que, todavia, não pode esconder a denúncia feita do racismo profundo da sociedade americana, da sua misoginia violenta, bem como da crítica social feita à desigualdade e às injustiças do mundo, patente na existência de dois universos radicalmente separados: o da campanha presidencial de Palantine, luminoso e diurno, pleno de cor; e o das viagens de táxi de Travis Bickle, negro e violento, assustador, pecaminoso.

A mensagem global de Taxi Driver não é caracteristicamente "de direita" e, menos ainda, panfletária. O filme, como notou Peter Biskind, encontra-se próximo da linha "centrista" que dominaria a futura presidência de Jimmy Carter, a qual se afastou do radicalismo de esquerda de McGovern, derrotado por Nixon nas presidenciais de 1972, aquelas em que George Wallace se candidatara, nas primárias dos democratas, e em que fora alvejado por Arthur Bremer. "O que animou Hollywood nos anos 70 foi a política, mas tudo isso acabou com Jimmy Carter. Não há nada melhor para destruir o Partido Democrata do que um democrata", comentou acidamente Warren Beatty.

E, na verdade, depois de Carter veio Ronald Reagan, alvo de um grave atentado em Washington, D.C., em Março de 1981. O homicida frustrado, John Hinckley Jr., acabou por ser absolvido por razões de insanidade, o que causou enorme controvérsia, havendo quem recordasse, e bem, que para essa decisão contribuiu o facto de ser filho do presidente da poderosa Vanderbilt Energy Corporation e dono da petrolífera texana Hinckley.

John era o caso típico de um filho-família degenerado, com uma carreira escolar acidentada, na qual avultava uma longa e infrutífera passagem de vários anos pela Universidade do Texas. Em 1975, foi para Los Angeles, perseguindo o sonho de uma carreira como músico, mas, aos poucos, as cartas que enviava para casa falavam apenas das suas desventuras artísticas e pediam sempre mais e mais dinheiro. À semelhança de Travis, que escreve para os pais dizendo ter uma namorada encantadora, Betsy, também John falará do seu amor por uma rapariga, Lynn Collins. Após o atentado contra Reagan, descobriu-se que tudo não passava de uma fantasia sua, que essa rapariga nunca existira, e que uma parte substancial do dinheiro que os pais lhe mandavam era gasta a comprar armas, com as quais John praticava tiro ao alvo dias a fio, tal qual Travis de Taxi Driver.

Logo que o filme se estreou, John começou a ficar obcecado com ele, viu-o dezenas de vezes, apaixonado doentiamente por Jodie Foster. Quando esta entrou na Universidade de Yale, mudou-se para New Haven, no Connecticut, para estar perto dela e para a perseguir. Nos seus devaneios mais poderosos, sonhava sequestrar um avião ou suicidar-se em frente dela para chamar a sua atenção.

Poucos dias antes de tentar assassinar Ronald Reagan, escreveu-lhe uma carta dizendo que tentara falar com ela inúmeras vezes ao longo de sete meses, que lhe enviara dezenas de cartas, poemas e mensagens de amor, e que, perante a sua indiferença, iria fazer algo grandioso para a impressionar. Ao princípio da tarde de 30 de Março de 1981, disparou seis tiros sobre Ronald Reagan, quando este saía do hotel Hilton em Washington, D.C. Durante o julgamento, em que Taxi Driver foi exibido aos jurados, os peritos da defesa sustentaram que John Hinckley padecia de esquizofrenia, e até mesmo a acusação descreveu a sua personalidade como narcísica, com traços esquizóides e características borderline e passivo-agressivas.

Os testes realizados no hospital psiquiátrico onde foi internado acentuaram a sua extrema perigosidade, mas com o passar dos anos as medidas de segurança foram sendo aliviadas, e Hinckley acabou por ser libertado em 2016, com a obrigação de residir em casa da mãe e de trabalhar três dias por semana, além de um sem-número de proibições, entre as quais as de contactar a família Reagan, Jodie Foster e os seus familiares e agentes, de consumir pornografia ou assistir a filmes violentos. Por certo, nunca mais poderá ver Taxi Driver, o filme que, inspirado na história de um crime violento, acabou por inspirar outra história de um crime violento, ou várias, numa espiral de morte sem fim, sem fim.

Pouco depois do atentado contra Reagan, e de se saber a influência que Taxi Driver teve na mente perturbada do homicida falhado, Martin Scorsese considerou seriamente abandonar o cinema e a sua carreira como realizador. Pensou melhor, decidiu continuar. O filme que fez a seguir, com Robert De Niro no papel principal, chamou-se O Rei da Comédia.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG