Premium A conspiração contra o choque

"É o medo que preside a estas recordações, um medo constante", informa o narrador na primeira frase de A Conspiração contra a América. A declaração didáctica - que estabelece tema e tom de uma assentada - faz que o livro, em muitos aspectos o mais atípico na obra de Philip Roth, pareça alinhado com os restantes. Tal como muitos grandes romances poderiam teoricamente chamar-se "Grandes Esperanças" (de Dom Quixote a Guerra e Paz ao Grande Gabsty, é fazer as contas), também muitos dos livros de Roth, especialmente desde 1987, poderiam começar com a mesma confissão de medo.

O medo pode ter várias causas, mas costuma estar associado a uma perda de poder - poder enquanto cidadão, enquanto portador de talento e carisma, enquanto criatura com um pénis funcional, etc. Os efeitos desse medo no protagonista, e os compromissos e as acomodações que o obrigam a fazer à medida que a sua identidade interage com o mundo, são depois explorados. Pelo meio, temos o humor, as tangentes, os monólogos exasperados, a sabedoria acidental da narração. Este equipamento permitiu a Roth escrever sempre de forma interessante, mesmo quando contava histórias que à partida não tinham grande interesse. Em A Conspiração contra a América, tentou um truque diferente, munido de algo a quem nem sempre teve acesso: uma premissa original, um enredo complexo e todas as possibilidades de um exercício contrafactual.

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