Premium A geometria da modernidade

Neste verão, podemos ver ou rever Dois Homens em Manhattan, um filme de Jean-Pierre Melville que nos devolve aos tempos da Nova Vaga francesa - o cenário, em todo o caso, é nova-iorquino.

1. Ao rever o filme Dois Homens em Manhattan, de Jean-Pierre Melville (1917-1973), não pude deixar de pensar como a história do cinema permanece uma paisagem em aberto, suscetível de permanentes avaliações e reavaliações. Importa não cedermos a essa ideia simplista, a meu ver anticinéfila, segundo a qual os filmes envelhecem "bem" ou "mal". Mesmo neste tempo de muitos e variados suportes de difusão digital, os filmes permanecem iguais a si próprios - somos nós que mudamos e, melhor ou pior, envelhecemos.

2. Datado de 1959, Dois Homens em Manhattan é uma das magníficas reposições deste verão, integrada num ciclo de clássicos franceses (a decorrer até outubro) que nos pode permitir contextualizar a grandeza algo esquecida de Melville. Falo por mim, entenda-se. Sempre gostei de resumir a eclosão da Nouvelle Vague através de três títulos emblemáticos, todos de 1959, precisamente: O Acossado, de Jean-Luc Godard, Os 400 Golpes, de François Truffaut, e Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais. E é verdade que também sempre admirei a frieza geométrica do Melville de obras como O Ofício de Matar (1967), o policial em que Alain Delon, no papel de um samurai dos tempos modernos, encontrou a sua mais bela imagem de marca. Mas importa recolocar Dois Homens em Manhattan no turbilhão de 1959, quando os franceses estavam a abrir os caminhos de uma modernidade que iria ecoar nos mais diversos contextos (incluindo Portugal e a geração do Cinema Novo).

3. Curiosamente, podemos definir o enraizamento de Dois Homens em Manhattan através da música e, em particular, do jazz. A banda sonora de Christian Chevallier conta com a participação de Martial Solal, notável pianista e compositor francês, nascido na Argélia, que no mesmo ano assinou a música de O Acossado. Solal surge mesmo numa sequência do filme, de alguma maneira personificando uma sonoridade que estava a cruzar-se com as convulsões da criação cinematográfica - recorde-se que, um ano antes, Miles Davis tinha composto a banda sonora de Fim de Semana no Ascensor, de Louis Malle.

4. Melville assume um dos papéis centrais. Ele é um jornalista que, na companhia de um fotógrafo (Pierre Grasset), tenta descobrir as razões que terão motivado a ausência injustificada de um diplomata francês numa reunião nas Nações Unidas... O filme organiza-se como uma espécie de on the road citadino, com os protagonistas de rua em rua, visitando várias mulheres com quem o desaparecido terá mantido alguma relação. Em boa verdade, na admirável fotografia a preto e branco assinada por Nicolas Hayer, Nova Iorque é a primeira e fundamental personagem: mais do que um cenário, a cidade existe como um mapa imaginário em que verdade e mentira estabelecem ambíguas alianças.

5. Há qualquer coisa de mágico e, ao mesmo tempo, objetivo nesse registo das ruas de Nova Iorque. Melville homenageava os mestres do policial de Hollywood e, ao mesmo tempo, assumia-se como repórter do aqui e agora - a Nouvelle Vague foi também uma arte de baralhar as lógicas tradicionais de documentário e ficção.

6. No final, a investigação conduz os dois homens - e, no fundo, o próprio filme - a um dilema moral: tendo em conta tudo o que está em jogo, deverão ou não divulgar as fotografias que, afinal, constituíam um dos objetivos fundamentais da sua investigação? Lição a reter: este cinema de militante fascínio pela abstração das linguagens narrativas não era estranho a uma elaborada visão social.

7. Daí que Dois Homens em Manhattan seja tudo o que se quiser, menos um objeto banalmente nostálgico: a sua capacidade de registar rostos e lugares transcendeu o momento concreto da rodagem. Podemos mesmo dizer que Melville consegue estabelecer com as ações que filma uma corrente de atenção e cumplicidade com o seu quê de sensual. Dois Homens em Manhattan é, por certo, uma história de descrença nos poderes românticos do amor, mas há nele uma sensualidade que resulta da maneira de olhar o mundo à sua volta.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)