Nações aguerridas

Ao contrário da sua antecessora Sociedade das Nações, que nunca chegou a ter os Estados Unidos como membro e foi-se tornando inútil à medida que a Segunda Guerra Mundial se afigurava inevitável, as Nações Unidas têm uma dimensão quase universal (193 Estados membros) e um historial que vai já quase nas oito décadas. Os seus críticos, numa perspetiva simplisticamente destrutiva, sublinham sempre as discussões bizantinas no Conselho de Segurança e o impasse criado pelo direito de veto dos cinco grandes (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França), mas uma avaliação séria tem que olhar também para toda a bem-sucedida cooperação internacional, em especial através de agências com a Organização Mundial da Saúde, ainda há pouco chamada a coordenar a luta global contra a covid-19, mas também no seu currículo com êxitos como a erradicação de doenças como a poliomielite a nível mundial. E o que dizer do trabalho do Alto Comissariado para os Refugiados ou do esforço do Programa Alimentar Mundial para evitar fomes dramáticas entre populações mais frágeis?

A atual guerra na Ucrânia, que envolve um membro permanente do Conselho de Segurança como invasor, a Rússia, apresenta um tremendo desafio para as Nações Unidas e sobretudo para o secretário-geral, o português António Guterres, que começou a condenar Moscovo, e foi muito aplaudido por isso no Ocidente, mas agora quer ser o árbitro, única forma tradicionalmente de conseguir resultados, mesmo que pequenos, pois qualquer acordo tem de implicar os russos, seja a troca de prisioneiros de guerra, seja a possibilidade de se reatar as exportações de cereais via Mar Negro. Ou as negociações de paz, tardem o que tardar, que ponham fim a tanto sofrimento.

É de esperar que tanto as palavras como os silêncios, tanto do presentes como dos que participam à distância, tenham muito que ver com conflito ucraniano, até porque afeta o uso de energia global e também as redes de abastecimento alimentar. Mas não se espere grandes novidades. A haver será mais à frente e talvez fruto de algumas conversas de corredor que nunca surgirão em nenhuma agenda oficial.

Nem tudo nas Nações Unidas é formalismo, pois há sempre espaço para alguma inovação na sede nova-iorquina da organização fundada em 1945, estava a Segunda Guerra Mundial a terminar. Talvez por essa mistura de formalismo e de inovação, se tenha evitado uma terceira guerra mundial entre nações aguerridas. Não é pouco, admita-se.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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