Punidas pelos crimes dos maridos

Leonor, que assinava como Alcipe e ficou para a história como Marquesa de Alorna, é um grande nome da poesia portuguesa, mas o que muitas vezes se esquece é que viveu a infância e a juventude prisioneira num convento por causa do envolvimento da família no célebre caso dos Távora, uma suposta tentativa de assassínio de D. José por figuras da nobreza. Além de Leonor, também a mãe e a irmã passaram quase duas décadas encerradas num convento lisboeta, até D. Maria I subir ao trono e desfazer muito daquilo que o pai (com a ajuda do Marquês de Pombal) tinha feito.

Não faltam, pois, exemplos na história de punições por causa de crimes, reais ou fictícios, cometidos por familiares. E recentemente tive oportunidade de visitar um antigo gulag onde se assumia oficialmente essa função. Criado no tempo de Estaline como líder da União Soviética, naqueles anos 30 em que nem os grandes revolucionários de 1917 sobreviveram à paranoia do senhor do Kremlin, o ALZHIR, como o acrónimo em russo esclarece, era o Campo de Akmola para Mulheres do Traidores à Pátria, sendo que Akmola é o nome da aldeia vizinha, situada hoje perto de Nursultan, capital de um Cazaquistão que se tornou independente em 1991 e ali construiu um museu a contar o drama dessas prisioneiras, vindas de toda a União Soviética.

Para quem já leu O Arquipélago Gulag, do russo Alexander Soljenitsin, ou A Casa dos Encontros, do britânico Martin Amis, a existência de algo como o ALZHIR não surpreenderá, de tal forma, com Estaline e mesmo depois, o sistema prisional soviético assumiu dimensões ilógicas. Mas olhar para aquelas fotografias de russas, bielorrussas, ucranianas, cazaques e por aí fora (a paranoia, realce-se, não poupava nenhuma nacionalidade) presas e enviadas para trabalhos forçados a milhares de quilómetros de casa, muitas vezes ficando sem os filhos e também não sabendo do destino dos maridos, é um alerta sobre um passado recente (século XX, não XVIII, como com a Marquesa de Alorna) que devemos conhecer para evitar que se repita. E, caso contrário, denunciar. A Amnistia Internacional tem exposto que na Coreia do Norte familiares de dissidentes têm sido punidos com base no princípio de "culpa por associação". Em pleno século XXI!

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