Morreu Ben Ali, o presidente tunisino derrubado pela Primavera Árabe

O ex-presidente, derrubado em janeiro de 2011, morreu no exílio na Arábia Saudita. Tinha 83 anos.

Em janeiro de 2011, pouco depois de a Primavera Árabe nascer na Tunísia, o presidente Zine El-Abidine Ben Ali partia para o exílio. Foi na Arábia Saudita que esta quinta-feira morreu, aos 83 anos.

"Ben Ali acaba de morrer na Arábia Saudita", confirmou à Reuters o advogado Mounir Ben Salha. Ben Ali morreu hoje em Jidá e o corpo vai ser trasladado para Meca, até que a família decida onde vai sepultá-lo, explicou Mounir Ben Salha.

No poder desde 1987, Ben Ali fugiu da Tunísia na sequência de uma revolta popular contra o seu regime, abrindo caminho para uma transição democrática no país. A sua morte surge três dias depois de umas presidenciais antecipadas após a morte de Beji Caid Essebsi, a 25 de julho.

Nos seus 23 anos no poder, a família de Ben Ali amontoou uma enorme fortuna, com os media a garantir que levou com ele para o exílio na Arábia Saudita uma tonelada e meia de ouro roubado do Banco Central da Tunísia.

Ben Ali chegou ao poder através de um chamado "golpe de Estado médico - convenceu os médicos a declarar que o presidente Habib Bourguiba, pai da independência, estava senil e incapaz de governar. Bourguiba foi afastado e morreu, anos mais tarde, na sua terra natal, em Monastir.

Inicialmente saudado por trazer crescimento económico ao país e promover o turismo na Tunísia, a intolerância de Ben Ali em relação a qualquer oposição política e o seu estilo de vida luxuoso - muito alimentado pela mulher, Leila Trabelsi - levaram os tunisinos a afastar-se cada vez mais do regime. Manteve, porém, a tradição laica de Bourguiba.

Em 2002, Ben Ali organizou um referendo para alargar os seus poderes, que venceu com 99% dos votos - gerando duras críticas e acusações de fraude. Em 2009, conseguiu um quinto mandato consecutivo num escrutínio que venceu com 90%.

Início da revolta e exílio em Riade

Dois anos depois, Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante de Sidi Bouzid, imolou-se pelo fogo em protesto contra as condições de vida no país, originando os protestos em massa que deram origem à Primavera Árabe. Um movimento de revolta popular que levaria ao exílio de Ben Ali e que alastraria ao Egito, Líbia e Síria.

Muitos tunisinos guardarão na memória a última aparição na televisão do homem que os governou durante duas décadas. A 13 de janeiro de 2011, Ben Ali surgia nos ecrãs para garantir: "Eu não sabia de nada. Enganaram-me. Eu compreendo-vos", numa referência à repressão exercida sobre os manifestantes.

Este terceiro discurso público em menos de uma semana não chega para acalmar as ruas, que exigem a sua demissão, e 24 horas depois Ben Ali e todo o seu clã fogem para Riade.

Nascido em 1936 numa família modesta, o quarto de 11 irmãos juntou-se à resistência contra as forças coloniais francesas e acabou preso. Expulso da escola, nunca terminou o liceu e depois de estudos profissionais no Instituto Técnico de Sousse, que também não terminou, juntou-se ao exército em 1958, dois anos depois da independência.

Diretor da secreta militar entre 1964 e 1974, foi também adido militar em Marrocos. De volta à Tunísia, assume a direção da segurança e em 1978 não hesita em reprimir violentamente umas manifestações.

Afastado do cargo em 1980, é enviado como embaixador para Varsóvia, na Polónia, mas volta quatro anos depois, para controlar os chamados "motins do pão", sendo depois nomeado ministro da Segurança Nacional e Interior. Começa então a sua ascensão até ao poder. Ministro do Interior, faz da luta contra os islamitas o centro da sua mensagem, a mesma que mantém como primeiro-ministro de Bourguiba e, depois, como presidente.

Depois do seu derrube, os islamitas foram legalizados e hoje são um partido importante no sistema política tunisino, tendo-se transformado num partido islamo-conservador. A Tunísia espera agora a segunda volta das presidenciais. E, apesar de ser o caso de sucesso da Primavera Árabe, o país enfrenta agora a incerteza dos tempos pós-Essebsi, o discípulo de Bourguiba que foi essencial para o sucesso da transição democrática.

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