O reconhecimento da soberania marroquina sobre o Sara Ocidental por Israel, revelado esta semana por Rabat depois de o rei Mohammed VI ter recebido uma carta oficial do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a comunicar a decisão, tem um valor simbólico enorme para Marrocos, mas está longe de ser uma verdadeira surpresa, tendo em conta o passado recente, e não só..Os laços históricos entre os dois países são fortes, com os sucessivos monarcas marroquinos a manterem boas relações com Israel, ao ponto de haver ocasionais encontros políticos de alto nível (como em 1986 a audiência de Hassan II a Shimon Peres, então primeiro-ministro) e cooperação ao nível securitário muito antes do estabelecimento de relações diplomáticas em 2020. Essa formalização de há três anos foi patrocinada pelos Estados Unidos, que em simultâneo reconheceram a marroquinidade das províncias do sul, nome dado por Rabat à antiga colónia espanhola, reivindicada também pelo movimento independentista Frente Polisario..Marrocos pode orgulhar-se de ter hoje a maior comunidade judaica do mundo árabe, mas o país assistiu como outros na região à partida maciça da população judaica depois da criação do Estado de Israel em 1948. Uma migração tão importante que se fala da existência atual de meio milhão, por vezes até se diz um milhão, de israelitas de origem marroquina. Embora solidários com a luta palestiniana por um Estado (a carta do rei agora a agradecer a Netanyahu lembrou os palestinianos), Hassan II e o seu filho Mohammed VI nunca descuraram as vantagens para Marrocos de um entendimento com Israel e de manter pontes com esses milhares de israelo-marroquinos. Assim, foram dando ao longo dos anos sinais de que o conflito israelo-árabe não punha em causa o legado judaico na cultura e identidade nacionais, algo reconhecido na Constituição de 2011. Um sinal dessa relação afetiva foi a escolha de um judeu para conselheiro da casa real, outro sinal o fluxo de turistas israelitas via terceiros países, que agora atinge números recorde, graças a voos diretos e ao novo clima político..A facilitar o estabelecimento de relações diplomáticas entre o reino alauita e o Estado Judaico estiveram também os chamados Acordos de Abraão, que viram outros países árabes como o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos reconhecer Israel. Durante décadas, só Egito e Jordânia, entre os membros da Liga Árabe, mantinham relações oficiais com Israel..O reconhecimento da soberania marroquina sobre o Sara Ocidental, que a Espanha deixou em 1975, foi conhecido horas depois do anúncio da nomeação por Israel do seu primeiro adido militar em Rabat, um judeu de origem marroquina, como não podia deixar de ser. O que confirma que um dos eixos da colaboração entre Marrocos e Israel é a Defesa, área estratégica dada a tensão com a vizinha Argélia, que apoia a Frente Polisario e é considerada uma tradicional aliada da Rússia. Os próprios Estados Unidos veem com bons olhos esta aproximação entre Marrocos e Israel, patrocinada por Donald Trump e mantida pelo presidente Joe Biden, que não alterou a decisão sobre o Sara Ocidental..Há que ter também em conta a componente da cooperação económica, com Marrocos interessado em beneficiar do potencial das empresas israelitas. Uma parte significativa da opinião pública marroquina tem reticências sobre a normalização com Israel, por causa da questão palestiniana, mas mostra compreensão por questões pragmáticas, como as muitas possibilidades de negócios (além da vertente militar). Essas possibilidades de negócios são relevantes para um Marrocos que aposta forte no desenvolvimento económico e que quer juntar aos argumentos históricos que usa para justificar a soberania do Sara a possibilidade de dizer que a qualidade de vida da população está a melhorar..Argélia e Frente Polisario já reagiram criticamente a esta decisão israelita, e a imprensa argelina fala até de cooperação entre "colonizadores", mas nem os governantes de Argel, nem os líderes separatistas sarauís têm grande hipótese de contrariar os ganhos diplomáticos recentes de Marrocos na questão do Sara Ocidental, onde mais de duas dezenas de países abriram consulados em Layoune e Dakhla. A própria Espanha, que tradicionalmente apoiava a realização de um referendo de autodeterminação patrocinado pelas Nações Unidas, passou a considerar o plano de autonomia apresentado por Marrocos como a solução mais realista. Em maio deste ano, numa cimeira luso-marroquina, também Portugal apoiou a iniciativa de autonomia marroquina, mas invocando um papel da ONU na solução para o território (controlado em 80% por Marrocos). Aquando da recente visita do presidente argelino a Lisboa, o presidente português falou da importância de uma solução política - mediada pela ONU, liderada por António Guterres - para resolução de uma tensão que se arrasta há décadas e que afeta todo o desenvolvimento do Magrebe (Marrocos e Argélia têm fronteiras fechadas e vivem bizarramente de costas voltadas) e dessa forma também a cooperação entre a Europa, e em especial a Península Ibérica, e os vizinhos do Sul. Portugal, que se esforça por manter boas relações com Rabat e com Argel, tem obrigação de seguir atentamente tudo o que vai acontecendo no seu flanco sul..Diretor adjunto do Diário de Notícias