Premium Como é que se ajuda quem foge da guerra e sobrevive à viagem?

Acolhem refugiados que fugiram para a Europa. Pensavam que os problemas estavam resolvidos com a chegada, tiveram de cavar mais fundo para perceber que não.

A noite sem dormir, acordar com pesadelos, chorar sem razão aparente, automutilação, doença sem causa física. Sintomas de quem foge de países em guerra e com regimes de repressão, dramas que se prolongam durante a viagem e que não terminam com a chegada a terra segura: à Europa.

São conhecidos dos técnicos de saúde, já não as origens, a cultura e a realidade de quem os viveu. Tiveram de começar do zero, pela pergunta: como é que podemos ajudar estas pessoas?

Falamos dos psicólogos da equipa do Serviço de Jesuítas aos Refugiados (JRS) , que gere o Centro de Acolhimento Temporário dos Refugiados (CATR) da Câmara Municipal de Lisboa (CML), pioneiros nesta matéria ao ponto de formarem técnicos para outras áreas do país. Ocupam um palacete no Lumiar cedido à autarquia pela Associação dos Deficientes das Forças Armadas.

Abriu em fevereiro de 2016, com capacidade para 48 pessoas. Quartos coletivos, alguns para famílias, cozinha, sala de estar, espaço multiusos que tanto dá para a prática de ioga como para conferências, jardim. Informações em inglês e árabe, os sapatos arrumados à entrada do quarto.

"Inicialmente, nem se pensava em acompanhamento psicológico, mas apenas no acolhimento", conta Cláudio Gonçalves, técnico psicossocial, coordenador da equipa de psicólogos do JRS. "Rapidamente verificámos que o apoio psicológico poderia facilitar a integração. As pessoas tinham perturbação do sono, depressões, ansiedade, não só por aquilo que passaram ao longo da viagem mas também pelos atrasos no processo de legalização em Portugal."

Rosário Suarez, psicóloga e que imigrou da Argentina há cinco anos, acrescenta: "Esperávamos que os sintomas diminuíssem com a regularização, com a entrega dos papéis, mas não aconteceu, o que nos levou a pensar que as causas poderiam ser outras."

Pediram apoio ao Comité Internacional de Resgate, criado em 1933 para intervir em zonas de guerra, e um dos seus membros veio dos EUA dar formação. Faltava a supervisão, obrigatória, que está a cargo de Bruno Brito, psicólogo clínico especializado nas questões do trauma.

Choque cultural

"A última vaga de conflitos do Médio Oriente desencadeou toda esta fuga de pessoas oriundas da Síria, do Iraque, da Eritreia, e que ficam muito tempo nos campos de refugiados da Grécia e da Itália", começa por dizer Bruno Brito, explicando: "Muitos não querem vir para Portugal. Têm a noção de que os países nórdicos têm melhores condições e acabam por vir como último recurso. O processo de adaptação é difícil porque não só há um choque cultural como este é um processo a prazo. O programa tem 18 meses e, durante esse período, é suposto que aprendam a falar português, a encontrar trabalho, a obter toda a documentação, o que é sentido como uma grande pressão. No início, temos de dar apoio no processo de adaptação e só depois é que se consegue chegar à situação traumática."

Taleb Kenje, sírio, 30 anos, partiu, acabou por voltar. "Cheguei no início de 2017, mas saí, estive oito meses na Bélgica. Os amigos disseram que era muito bom, muito grande, tudo bom. Fui, vi e foi tudo mal. Falei com a polícia belga e disse que queria regressar. Na Bélgica as pessoas não falavam comigo, aqui são simpáticas."

Através do WhatsApp disse a Cláudio Gonçalves que queria regressar. O processo suspendeu-se enquanto viveu na Bélgica, faltam seis meses para o concluir. Tem formação em jardinagem mas prepara-se para ser repositor num dos supermercados da Jerónimo Martins, com quem o JRS tem um acordo de cooperação na área da formação.

Vidas com três situações potencialmente traumáticas: os conflitos na origem, o caminho e a travessia marítima; as expectativas sobre a Europa. Cláudio Gonçalves acrescenta fatores de risco: ser mulher, idade avançada, níveis educativos elevados - facilita integração mas gera frustração quando as expectativas são goradas -, a saúde e o tempo prolongado nos campos de refugiados.

O tratamento começa com uma conversa informal, numa abordagem feita com pinças, até porque o acompanhamento psicológico não é visto com bons olhos nos países onde nasceram. "Têm uma visão pesada e ligada à psiquiatria", diz Rosário Suarez, concluindo: "Temos de perceber quais são as implicações culturais do que a pessoa está a sentir. Por exemplo, qual é o significado cultural de sonhar com um morto, tem que ver com o contexto em que a pessoa morreu, pode significar culpa por não o ter socorrido ou dado uma sepultura. Não se pode ver só a questão dos pesadelos, tem de se perceber o significado cultural."

Youserf Mohamed, 21 anos, sírio, é um dos utentes do centro. Chegou há 14 meses, está em formação para trabalhar no Pingo Doce. Fugiu para a Grécia, onde fez voluntariado e conheceu portugueses que lhe apresentaram Portugal. "Estou muito bem, antigamente ficava nervoso, cortava-me, agora quero começar a trabalhar", fala em árabe, já que o português ainda é limitado. "Muito fixe, tudo fixe."

Ter um intérprete na sessões é outra dificuldade, além de que muitos viveram os mesmos dramas

A necessidade de intérpretes é outra dificuldade para os técnicos, já que significa uma terceira pessoa nas sessões. "O acompanhamento psicológico deve ser feito na língua materna e é preciso que a pessoa esteja à vontade", sublinha Rosário Suarez.

Tiveram de formar intérpretes, colocando a tónica na confidencialidade e no distanciamento dos casos clínicos. Com a agravante da generalidade de as pessoas que falam as línguas do Médio Oriente serem também refugiados, partilhando os mesmos dramas. O JRS tem uma bolsa de 30 intérpretes/mediadores para dar apoio em todo o território nacional.

Andreia Exposito, 23 anos, é uma exceção. É espanhola e estagia no CATR. "Fiz estudos árabes e islâmicos na Universidade de Granada. Comecei a interessar-me por esta área quando fui com os pais visitar um tio que estava a trabalhar em Marrocos, já falava inglês, resolvi aprender árabe."

O Centro de Acolhimento Temporário de Refugiados (CATR) vai entrar em obras ainda neste ano para duplicar a sua capacidade, que atualmente é de 48 pessoas. A Câmara Municipal de Lisboa (CML) prevê um investimento de um milhão de euros no palacete do Lumiar, que foi cedido pela Associação dos Deficientes das Forças Armadas e mantém alguns dos sócios no edifício. Uma das prioridades é a receção de famílias, "o que era dificultado pela configuração atual do espaço", dizem os responsáveis da autarquia. Ao longo de 2017, o centro recebeu 151 refugiados vindo da Grécia e da Itália, ao abrigo do Programa de Recolocação da UE. O Programa Municipal de Acolhimento de Refugiados em Lisboa, iniciado em 2015, prevê um ciclo de apoio de 18 meses "desde a chegada da pessoa refugiada a território nacional até à sua autonomização". Teoricamente, nos primeiros três a quatro meses ficam no CATR, prazo que nem sempre é cumprido, nomeadamente pela dificuldade dos refugiados em regularizar a situação. Depois desta primeira fase, são colocadas em habitações suportadas pelo município, com o acompanhamento de uma equipa da Associação Crescer, que inclui psicólogos e assistentes sociais. A CML apoia, também, o Centro de Acolhimento para Menores não Acompanhados, que está localizado no Parque da Bela Vista, e é gerido pelo Conselho Português para os Refugiados. Disponibiliza, ainda, um edifício e ajuda financeiros para o Centro Pedro Arrupe, que pertence ao Serviço de Jesuítas aos Refugiados. Destina-se a migrantes em situação de vulnerabilidade social, muitos dos países africanos de língua portuguesa.

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