Quando a vida se torna bizarra e obriga ao isolamento

Dispatches from Elsewhere estreia-se hoje no canal AMC e marca o regresso do ator Jason Segel à televisão, na companhia de Sally Field, Andre Benjamin e Eve Lindley. Uma história surreal de perseguição da verdade de pois do sucesso Foi Assim Que Aconteceu (How I Met Your Mother).

Os acasos são suspeitos e a magia é um ponto de vista na história de quatro estranhos cujas vidas guinam para uma curva apertada quando esbarram uns com os outros. Todos levaram para casa uma parte de uns panfletos misteriosos espalhados pela cidade e entraram, sem saber como, num jogo urbano que é meio caminho entre um jogo camuflado de vida real e uma batalha entre forças do bem e do mal.

Eles não saberão a resposta durante muito tempo e os espectadores que esta segunda-feira à noite assistirem ao primeiro episódio também vão ficar a coçar a cabeça. É precisamente isso que o criador e protagonista Jason Segel quer com Dispatches from Elsewhere, a série que marca o seu regresso à televisão depois do hiato que se seguiu ao fim de Foi Assim Que Aconteceu.

Tal como a trama, o elenco é também inesperado: ao lado de Jason Segel está Sally Field, ganhadora de dois Óscares e veterana de Hollywood, Andre Benjamin (ler entrevista em baixo), mais conhecido do público como Andre 3000 do duo OutKast, Richard E. Grant, que faz um monólogo fantástico no primeiro episódio, e Eve Lindley, uma das mais cotadas atrizes transexuais do momento.

É ela que interpreta um dos papéis mais intrigantes da série. "A Simone é uma mulher inteligente e forte por fora mas por dentro está a desmoronar-se e sente-se aterrorizada que alguém veja essa parte dela", disse Lindley em entrevista ao DN. "Penso que encontra, com este grupo de pessoas, uma versão de si própria de que realmente gosta e está contente de apresentar ao mundo."

A particularidade de Simone é que a sua transexualidade não é sequer abordada, o que levou Eve Lindley a ficar "impressionada" com o guião escrito por Jason Segel. "Nunca tinha lido nada assim, nunca tinha visto nada assim em televisão, nunca tinha visto uma mulher transexual retratada como alguém que se pode amar, no centro da história", afirmou. "A sua transexualidade, o seu passado, não fazem parte da história." Simone aparece como interesse romântico de Peter (Jason Segel) de forma natural e bem construída. É uma lufada de ar fresco em televisão.

O formato, série de antologia de dez episódios, faz sentido numa história estranha. O primeiro episódio é tão bizarro que a AMC vai estrear o segundo logo a seguir, o que poderá ajudar a desenrolar alguns dos novelos na cabeça dos espectadores.

Eve Lindley não tem dúvidas de que a narrativa, apesar dos contornos inusitados, será interessante para um público internacional como o português. "As personagens estão tão bem desenhadas que é fácil identificar-se com um pouco de todas", indicou. "Não me parece que faça diferença de onde a pessoa vem para se identificar, a experiência humana é sempre sobre tentar encontrarmo-nos a nós próprios e à nossa comunidade."

Comunidade é a mensagem subjacente numa história que Jason Segel criou a partir de um acontecimento real. Há alguns anos, o ator participou num jogo imersivo de realidade alternativa, juntamente com milhares de outras pessoas que foram para as ruas de São Francisco em busca de pistas num puzzle do mundo real. A experiência foi tão intensa que germinou a base de Dispatches from Elsewhere, tal como Segel explicou durante o painel de apresentação da série na tour de inverno da Associação de Críticos de Televisão, em Los Angeles, algumas semanas antes da pandemia covid-19.

"Fiquei comovido", disse Segel, sobre a experiência do jogo. "Um monte de pessoas participou naquilo porque sentiam que algo faltava às suas vidas", examinou. "Somos muito mais parecidos, e confusos, do que pensamos."

Nessa altura, Segel sentia-se perdido porque não sabia o que queria fazer com a sua vida artística, depois de uma década a encarnar Marshall em Foi Assim Que Aconteceu. Decidiu mesmo sair de Los Angeles, ir para outros sítios onde pudesse imaginar coisas novas sem a influência das vozes conhecidas. A ideia que teve para Dispatches from Elsewhere foi explorar o sentimento de solidão que toda a gente experimenta nalgum momento da sua vida. "Isolamento; toda a gente se sente assim de uma forma ou de outra", disse, na altura, com palavras prescientes que hoje adquirem um novo sentido dado o distanciamento social imposto pela pandemia.

A personagem que Segel interpreta, Peter, tem a vida mais aborrecida e desinteressante que se pode imaginar em televisão. Este jogo com que esbarra um dia introdu-lo a três desconhecidos que vão perseguir com ele a verdade sobre o Instituto Jejune, a misteriosa Clara e o verdadeiro significado de magia. Simone (Eve Lindley) é a aventureira sem medo, enquanto Fredwin (Andre Benjamin) é o intelectual desconfiado e Janice (Sally Field) a septuagenária corajosa.

A música, as cores e a forma como as imagens são apresentadas contribuem para o envolvimento numa história que percorre vários géneros, apesar de ser sempre estranha. Às vezes torna-se cómica e às vezes trágica. Acima de tudo, é aspiracional. Ainda que estreie num momento em que ninguém sairá à rua para jogar com estranhos, a tangibilidade da monotonia e o desejo de a romper fazem mais sentido do que nunca para quem está confinado ao sofá de casa.

Dispatches from Elsewhere estreia-se nesta segunda-feira, às 22.10 no canal AMC Portugal e tem produção executiva de uma bateria de nomes grandes de Hollywood: Jason Segel, Scott Rudin (Lady Bird, Fences), Mark Friedman (showrunner), Garret Basch (My Dinner with Hervé, The Night of), Eli Bush (Lady Bird, Isle of Dogs), Jeff Freilich (Lodge 49, Grace and Frankie) e Alethea Jones (Queen America, Lodge 49).

"Todos precisamos uns dos outros, não estamos sozinhos"

Entrevista ao ator da série Andre Benjamin

A cara que aparece por detrás da personagem Fredwin na nova série AMC, Dispatches from Elsewhere, não será estranha a muita gente. Mas este papel é radicalmente diferente de tudo o que levou Andre Benjamin ao estrelato. A voz que cantava Shake it like a polaroid picture no megassucesso Hey Ya e You can plan a pretty picnic but you can't predict the weather em Ms. Jackson era a do hipertalentoso Andre 3000, metade do duo que fez história no hip hop, OutKast.

Andre reaparece agora noutro formato, o de ator numa série criada por Jason Segel, o Marshall de Foi Assim Que Aconteceu. Foi uma jornada longa a que levou Andre 3000 - aqui identificando-se pelo seu nome Andre Benjamin - a interpretar uma personagem desconcertante e aparentemente deslocado, ombreando com a veterana Sally Field e contracenando com a estrela em ascensão Eve Lindley.

A verdade é que não se consegue perceber onde Fredwin encaixa, à primeira vista. Mas a sua presença fará muito mais sentido à medida que a história se vai desenrolando. Dispatches from Elsewhere segue quatro desconhecidos que se juntam para perseguir a verdade num jogo de aventura da vida real e Fredwin, interpretado por Andre Benjamin, é um deles.

O DN conversou com o artista em Los Angeles, antes do início da pandemia. Acompanhado da flauta que Sally Field comentou ser um localizador da sua presença durante as gravações da série, Andre falou numa entrevista exclusiva sobre o papel que o levará aos ecrãs portugueses nesta série de antologia.

Qual é o tema da série, que inicialmente apanha os espectadores na curva?
É sobre comunidade, estas quatro pessoas que sentem que algo falta nas suas vidas. Muitos de nós chegam a esse ponto. Este jogo junta-os secretamente - ou talvez não. Eles acabam por perceber que precisam uns dos outros. Havendo um tema, é comunidade. Todos precisamos uns dos outros, não estamos sozinhos.

Como é a sua personagem, Fredwin? O doido das conspirações ou o único que acertou?
Ele é definitivamente louco às vezes. A coisa engraçada é que, nalgum ponto da série, todos acertam. No início o Fredwin pensa que é o único que é esperto, que sabe o que se está a passar, é um teórico das conspirações e vai ao fundo da questão, mas está errado algumas vezes. E ao mesmo tempo estava certo. O resto das personagens ajudam. Todos precisamos disso.

O que o atraiu para este papel e esta série, algo tão diferente daquilo por que é conhecido?
O guião. Assim que o li, e eu só tinha um episódio, queria saber mais. Precisava de ver o episódio dois, e o três, e o quatro. Falei com o Jason e foi o conteúdo que me convenceu.

Como foi trabalhar com estes atores tão diversos, a vencedora de Óscares Sally Field e um Jason Segel que nunca se tinha visto a fazer este tipo de trabalho?
É um elenco fenomenal. Foi quase como um sonho tornado realidade. Nunca pensei que estaria a trabalhar com a Sally e com o Jason, com a Eve. A primeira vez que a vi achei incrível. Às vezes estamos entre filmagens, com a câmara nela, e eu consigo ver logo que ela será fantástica.

A audiência vai sentir essa química entre as personagens?
Sim, é uma química estranha porque todos somos como as pessoas erradas que se juntam. Há alturas em que eu e a Sally trabalhamos juntos, em parelha, e eu sou uma pessoa de astúcia rápida e a Sally é uma senhora velhota, por isso é interessante. Vocês vão achar o máximo.

O que é que esta série tem de universal para captar a atenção de uma audiência internacional?
A parte humana. A parte de tentar encontrar o seu melhor eu. Nesta equipa, ajudamo-nos uns aos outros a encontrar o melhor eu de cada. Este jogo - que foi um jogo real, jogado em São Francisco - leva-nos numa aventura, tira-nos da vida normal e do tédio do quotidiano. Penso que as pessoas sentirão essa ligação em qualquer língua, a busca pela melhor versão e a tentativa de sair da monotonia. Independentemente de onde o espectador está, vai encontrar uma ou duas personagens com quem irá identificar-se. Vai achar que tem um bocadinho do Fredwin, por exemplo.

A história será toda contada nestes dez episódios ou haverá espaço para mais temporadas?
Ainda não dá para dizer. É uma série tão boa que espero que continue, sem dúvida. Quem sabe o que os produtores vão fazer.

Estamos numa era em que há mais de 500 séries de ficção na televisão, o pico da TV. O que convencerá alguém a ver esta entre tanta escolha?
Mais uma vez, é a experiência humana. Sim, pode-se ir buscar isso a qualquer lado, mas esta série é especial porque torce os limites dos géneros, não dá para dizer que é apenas um drama, ou apenas uma comédia. Tem tudo lá dentro. Penso que só a parte do espetáculo e da fanfarra, a parte mágica, isso vai atrair as pessoas. Tal como aconteceu quando li o guião, quem assistir ao primeiro episódio vai querer saber mais. É essa a atração natural da série.

A série entra pelo mundo do sobrenatural e da magia?
As nossas personagens estão a tentar descobrir isso. A forma como foi filmada é tão bonita que nos faz sentir, por vezes, que estamos perante uma obra de ficção científica. Parece um filme fantástico e depois torna-se numa história de amor. E então acontece uma tragédia, e a seguir drama. Não quero entrar pelo cliché de dizer que é tudo, mas é um bocado tudo, vai em tantas direções. É isso que mantém os espectadores sentados na beira do sofá.

Teve oportunidade de influenciar a forma como a sua personagem foi escrita?
Nem por isso. Os escritores fizeram um trabalho excelente. Houve alguns momentos em estúdio em que tivemos de mudar alguma coisa à última da hora e eu disse que o Fredwin não diria aquilo assim, mas foi mínimo.

Jason realizou o primeiro episódio, como foi isso?
Foi bom vê-lo trilhar caminhos diferentes, o seu profissionalismo. Vê-lo mudar coisas no momento mesmo tendo sido ele a escrever e perceber que não funcionava. E depois voltar a vestir a pele de ator. Fiquei maravilhado a olhar para aquilo. Está a arrasar.

Além disto, o que é que anda a ver na televisão?
Don"t f*** with Cats. Servant também é uma boa série.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG