As novas amêndoas

Quando eu era pequena, em nossa casa as compras faziam-se ao mês num grande armazém; e lembro-me de ver chegar de uma assentada uma grande saca de batatas (que ia logo para a varanda), pacotes de arroz, farinha, massa, feijão, sal e açúcar, garrafas de azeite e óleo, embalagens de bolacha maria, frascos de compota, azeitonas e sei lá que mais. Nada era especialmente apetecível, excepto as tabletes de chocolate para fazer mousse (que quase sempre desapareciam misteriosamente da despensa ao fim de uma semana) e um saco de rebuçados sortidos iguais aos que as pastelarias vendiam em frascos de vidro, sendo os meus favoritos umas bolas com sabor a tangerina. Em crianças, todos éramos bastante gulosos lá em casa, e eu paguei caro o vício: vendo numa tarde ao lado do fogão o que parecia um delicioso caramelo embrulhado em papel de prata, mastiguei a coisa mais salgada e horrível de que tenho memória: um cubo de caldo de galinha! Mas não fui a única castigada: a minha irmã enfiou na boca três rebuçados de uma só vez e engasgou-se de tal maneira que foi preciso bater-lhe nas costas com toda a força... Os rebuçados até saíram disparados, chocando com a parede.

É normal que as crianças se sintam atraídas por doces, especialmente quando são coloridos ou estão bem embalados. Isso explica porque o INEM recebe mais de uma centena de chamadas por ano envolvendo cápsulas de detergente que os mais pequenos levam à boca e trincam, pensando tratar-se de guloseimas. Geralmente, como o sabor é desagradável, cospem-nas, mas já houve casos em que a ingestão dos químicos causou intoxicação e foi precisa uma lavagem ao estômago.
Até aqui, nada de novo: pode pedir-se aos pais que fiquem mais atentos, mas não a um bebé que leia rótulos e aja com maturidade. O problema é quando essas mesmas cápsulas são introduzidas na alimentação - e até objecto de cozinhados criativos partilhados na internet - por jovens que sabem com o que estão a lidar. Chama-se Tide Pod Challenge (e a Tide já se declarou inocente) este desafio iniciado nos EUA, em que adolescentes armados em heróis se filmam a comer cápsulas de detergente, indiferentes ao facto de estas provocarem vómitos, dificuldades respiratórias e até alguma perturbação mental (se é que já não a tinham).

Precisarão de uma lavagem ao estômago ou ao cérebro? É que o passatempo, parecendo uma das muitas fake news que hoje se publicam, é infelizmente uma notícia verdadeira. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Ler mais

Exclusivos

Premium

adoção

Técnicos e juízes receiam ataques pelas suas decisões

É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.