Jesus despertou o Flamengo e já é modelo para os treinadores brasileiros

Carlos Alberto Parreira, Muricy Ramalho e René Simões falam do impacto que Jesus está a ter no futebol brasileiro. Acreditam que o ​​​​​​mister será campeão e destacam a capacidade de acordar o gigante carioca.

Hoje tem Jesus no controlo." Esta é uma das muitas frases que se podem ler nos cartazes que os adeptos exibem nos estádios onde o Flamengo joga. O povo brasileiro é profundamente religioso e o nome do treinador português transporta esse cariz de fé para os 35 milhões de torcedores do clube carioca. Só que esta devoção a Jorge Jesus foi conquistada a pulso.

Quando a 10 de junho foi apresentado como novo treinador de um clube que não é campeão brasileiro desde 2009 e não vence a Taça Libertadores há 38 anos, os adeptos queriam esperar para ver e na opinião pública, sobretudo entre os treinadores brasileiros, existia alguma desconfiança. Afinal, a resistência à entrada de técnicos estrangeiros era enorme e só em 1959 um não brasileiro conseguiu levar um clube ao título: o argentino Carlos Volante, ao serviço do Bahia.

"No início gerou-se alguma desconfiança em torno de Jesus porque uma coisa é a conversa e a teoria, outra bem diferente é a prática", admite ao DN Muricy Ramalho, técnico quatro vezes campeão brasileiro. Aos poucos, Jesus foi impondo as suas ideias, desde logo as táticas, mas também uma maior intensidade da equipa em campo. E até mesmo questões mais simples como obrigar os jogadores a agradecer aos adeptos no final de cada jogo ou assistirem ao vivo a desafios dos adversários... raridades na cultura brasileira.

E logo nos primeiros tempos marcou a diferença quando um funcionário do clube o tratou por Jesus e ele respondeu: "Jesus não, o meu nome é Jorge, mas pode chamar-me mister." Este episódio foi revelado pelo próprio numa conferência de imprensa e a palavra mister entrou no léxico brasileiro.

O escritor Ruy Castro definiu na perfeição, numa das suas crónicas no DN, o alcance deste tratamento que a partir daí foi dado a Jesus: "Ele não gostou do "professor" com que os jogadores brasileiros habitualmente se dirigem aos seus treinadores. "Professor é quem ensina Matemática ou Filosofia", disse ele. "Chamem-me mister". O carioca não viu nenhum problema nisso. Se depender dele, do jeito que o Flamengo vai, Jesus poderá em breve pedir equiparação até ao seu ilustre xará."

É que quatro meses após ter chegado, com o Flamengo a oito pontos do Palmeiras, Jesus já virou a mesa e lidera agora o Brasileirão com oito pontos de avanço sobre o Verdão de São Paulo. Carlos Alberto Parreira, técnico campeão do mundo pelo Brasil em 1994, recorda que "Jorge Jesus não era muito conhecido no Brasil e por isso foram levantadas algumas dúvidas, o que é normal, mas o trabalho que tem feito mostra que tem tudo para dar certo."

Reconhecimento cada vez maior

Desde os históricos 7-1 da Alemanha ao Brasil nas meias-finais do Mundial 2014 que o debate sobre a contratação de treinadores estrangeiros e de uma maior abertura ao conhecimento eram muito acesos. Os resultados que Jorge Jesus tem vindo a conseguir voltam a abrir a discussão, mas Parreira deixa um aviso: "Não há aqui qualquer lição aos treinadores brasileiros. Ele deixa, tal como outros, um legado de competência e profissionalismo." Ainda assim, o técnico de 76 anos tem a certeza de que Jesus "foi muito bem-vindo" e que "o seu trabalho já é reconhecido por todos".

René Simões, antigo selecionador olímpico do Brasil que em 1987-88 orientou o V. Guimarães, admite que no futebol brasileiro deixou-se de pensar o jogo, pois "com o talento dos jogadores bastava um pouco de organização tática para ter sucesso". O técnico de 66 anos considera que "na Europa começou a pensar-se o jogo, adotando uma forma coletiva para anular a individualidade", o que fez o futebol brasileiro ser ultrapassado.

E é isso que reconhece em Jorge Jesus: "Quando começou a falar-se dele para orientar o Flamengo, eu disse que ia agitar o nosso futebol e fui criticado por outros técnicos. E confirmou-se aquilo que previ. Já trabalhei em sete países e considero que a troca de conceitos e ideias é muito saudável e há coisas que o Jesus trouxe que os brasileiros podem implementar, mas ainda há muita resistência às suas ideias, o que é normal porque há um sentimento de proteção do emprego e da classe", frisa o técnico de 66 anos.

Muricy Ramalho também assume que "a troca de ideias é importante" e está convencido de que Jesus "está a ser muito bom para a evolução do futebol brasileiro" e, como tal, "a nova geração de treinadores brasileiros pode melhorar, mas vai depender do tempo que ele vai ficar" no país: "Quanto mais tempo ficar, melhor para todos."

As novidades no futebol brasileiro

Ao contrário do que muitas vezes acontecia em Portugal, Jesus tem-se furtado a trocas de palavras com treinadores rivais. Isto apesar de alguns ataques, sobretudo protagonizados por Renato Gaúcho, técnico do Grémio, antes da primeira mão das meias-finais da Taça Libertadores. "Ele só ganhou dois ou três títulos portugueses. Saiu de Portugal e foi para a Arábia, nunca treinou um grande clube europeu e não conquistou nada aos 65 anos", afirmou o técnico gremista, não obtendo resposta, algo que é interpretado por René Simões como a vontade do treinador português em "não se expor como fazia antes".

"Há um ditado aqui no Brasil que diz que o homem nasce incendiário e morre bombeiro. E o Jesus está numa fase de bombeiro. Está mais organizado no que pensa e na forma como executa", diz, assumindo que impressiona o facto de o Flamengo ter "adquirido os conceitos do seu treinador, pois os jogadores mudam, mas todos sabem o que fazer em campo".

Muricy Ramalho é da opinião de que Jorge Jesus impôs "conceitos táticos muito difíceis de implementar" e destaca que o técnico "conseguiu fazer que o jogador brasileiro trabalhe mais quando não tem a bola", o que "contribui para que o Flamengo seja uma equipa compacta, de grande pressão sobre o adversário e sempre à procura da baliza".

E foram esses conceitos que conquistaram os adeptos. "O Flamengo tinha problemas e ele conseguiu tirar o melhor dos jogadores. Esse é o grande mérito dele", assume Carlos Alberto Parreira, revelando que os amigos que tem no clube carioca lhe têm elogiado "o profissionalismo" do português.

"É alguém que vive o futebol, planeia tudo ao pormenor, muito empenhado no que faz e que, acima de tudo, conseguiu reacender a nação rubro negra, que tem as maiores assistências da história do Maracanã", frisou o histórico técnico brasileiro, elogiando ainda a capacidade de Jesus em aglutinar as massas: "O melhor reconhecimento do trabalho que tem feito é o facto de os adeptos no final dos jogos cantarem mister, mister." Essa empatia e a forma como o Flamengo tem ultrapassado todos os adversários - bateu o recorde de vitórias consecutivas no Brasileirão e não perde há 13 jogos - levam a uma onda positiva em torno de um clube que vivia mergulhado em constantes depressões e que agora até pode alcançar um feito do Santos de Pelé, a única equipa a ser campeã brasileira e a vencer a Taça Libertadores no mesmo ano. Além disso, tem na mira o recorde de 81 pontos no Brasileirão disputado em 36 jornadas, que está na posse do Corinthians desde 2015.

"Dificilmente Jesus não será campeão", garante Parreira, uma ideia suportada por René Simões: "Acho que vai ser campeão brasileiro, já a Libertadores será mais difícil, porque o Grémio é uma equipa de mata-mata."

Muricy admite que "já esperava uma grande época do Flamengo porque o investimento foi muito grande", uma ideia que é defendida por muitos dos rivais do Mengão. René Simões considera que o clube "está noutro patamar" a nível financeiro, de gestão e organização, mas considera que "Jesus é o treinador certo, no momento e lugar certos, pois noutro clube talvez não tivesse tanto suporte".

Com a época a aproximar-se do fim (domingo tem dérbi com Fluminense), Jorge Jesus terá na madrugada de quinta-feira o jogo do ano, no qual o Flamengo voltará à final da Taça Libertadores caso vença, no Maracanã, o Grémio. Se o conseguir, a loucura em torno do mister será ainda maior, afinal, desde os tempos de Leandro, Mozer, Júnior, Zico, Tita e Andrade, em 1982, que a multidão rubro negra não celebra um feito internacional.

Exclusivos

Premium

Legionela

Maioria das vítimas quer "alguma justiça" e indemnização do Estado

Cinco anos depois do surto de legionela que matou 12 pessoas e infetou mais de 400, em Vila Franca de Xira, a maioria das vítimas reclama por indemnização. "Queremos que se faça alguma justiça, porque nunca será completa", defende a associação das vítimas, no dia em que começa a fase de instrução do processo, no tribunal de Loures, que contempla apenas 73 casos.