Paixão por Jesus

A nação chamada Flamengo, em lua-de-mel com os jogadores, beija as mãos de seu treinador Jorge Jesus.

Às 19 horas do último sábado, hora do Rio, assim que o árbitro apitou o final do jogo Flamengo x Santos, 68 mil pessoas vestidas de preto e vermelho no Maracanã começaram a dançar e a cantar enlouquecidas: "Olê/ Olê, olê, olê/ Mistêr! Mistêr!". Mister - ou "mistêr", para rimar com "olê"- é como os torcedores do Flamengo passaram a chamar Jorge Jesus, o treinador português que desembarcou no Galeão há pouco mais de três meses para fazer o clube mais popular do Brasil cumprir a sua maior campanha até agora dos últimos dez anos. O próprio Jorge Jesus pediu que o tratassem assim. Ele não gostou do "professor" com que os jogadores brasileiros habitualmente se dirigem aos seus treinadores. "Professor é quem ensina Matemática ou Filosofia", disse ele. "Chamem-me mister". O carioca não viu nenhum problema nisso. Se depender dele, do jeito que o Flamengo vai, Jesus poderá em breve pedir equiparação até ao seu ilustre xará.

Sob a sua batuta, o Flamengo tornou-se uma máquina de fazer golos sem sofrer nenhum. O seu rendimento no campeonato brasileiro, que lidera com folga ao fim da primeira volta, apresenta números espantosos. Tem o melhor ataque da competição, o melhor saldo de golos, a maior variedade de jogadas, o maior número de vitórias como visitante e, das dez partidas disputadas em casa, venceu simplesmente todas. O seu centro-avante Gabriel Barbosa, o Gabigol, é o goleador do campeonato e já marcou mais golos - 16, por enquanto, em 19 partidas - do que os ataques inteiros de muitos outros clubes. Mas Gabigol não é o único a arrombar as redes adversárias - ao seu lado, Bruno Henrique, Éverton Ribeiro e o uruguaio Arrascaeta também estão entre os principais goleadores.

Das dez maiores arrecadações nos jogos do campeonato, nove foram em jogos do Flamengo. A média de espectadores no estádio é de quase 50 mil por partida e, não apenas o Rio, mas todo o Brasil - não é à toa que o Flamengo é chamado de "nação", com torcedores nos mais remotos grotões - está em lua-de-mel com o técnico e com os seus jogadores. A qualquer hora do dia ou da noite, as ruas vivem cheias de pessoas com a camisola rubro-negra. Nos bares e cafés do país, onde quer que haja um aparelho de televisão transmitindo um jogo do Flamengo, milhões de pessoas reúnem-se alegremente, tomando cerveja e mal tendo tempo de tirar os olhos da TV para petiscar alguma coisa. Não se pode nem piscar - de repente, os armadores Gerson e Arão, os laterais Rafinha e Filipe Luís e até os zagueiros Rodrigo Caio e Pablo Marí são capazes de criar uma jogada que fará a bola chegar aos atacantes para um ataque mortal. E isso só não acontece a partir do guarda-redes Diego Alves porque Jorge Jesus não permite que os seus jogadores deem chutos longos - exige que eles troquem passos de pé em pé. E o que Jorge Jesus diz é para ser seguido ao pé da letra - até os torcedores estão exigindo isso dos jogadores.

Já se fala abertamente nas ruas que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) deveria chamar Jorge Jesus para o lugar do burocrático, pedante e intragável Tite no comando da seleção brasileira. Mas quem fala isso são os torcedores dos outros clubes, interessados no esvaziamento do Flamengo. Os adeptos do Flamengo não querem saber dessa história. Entre o Flamengo e a seleção brasileira, eles não têm nenhuma dúvida quanto à sua preferência. Para mim, por exemplo, o Flamengo está em primeiro, segundo e terceiro lugares - depois, a partir do quarto, talvez venha a seleção e, mesmo assim, se ela jogar bem. E não há nenhum antipatriotismo nisso. O Flamengo é nosso, podemos senti-lo pulsante sob a nossa pele. Já a seleção, há muitos anos, tem sido "deles": Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e outros altos vigaristas, condenados pela justiça, presos em Nova Iorque ou impedidos de sair do Brasil, pelas suas cabeludas ligações com a FIFA. E não vamos nem citar os 7x1 contra a Alemanha.

Pelo que sei, Jorge Jesus está morando num apartamento na Barra da Tijuca, perto do centro de treinamento do Flamengo, em Jacarepaguá, a muitos quilómetros de Ipanema e Copacabana. É onde moram no Rio quase todos os jogadores, em enormes condomínios, onde promovem seus churrascos e festas nos dias de folga. É uma região que muitos cariocas têm dificuldade de reconhecer como sua: espaços a perder de vista, autoestradas intermináveis e nenhum lugar para se ir a pé. Dizem que Jorge Jesus só sai de sua casa para o centro de treinamento e vice-versa. Sugeri noutro dia ao meu amigo Luiz Carlos Fraga, grande advogado e conselheiro do Flamengo, que apanhasse Jorge Jesus em seu carro e o trouxesse para conhecer o Leblon, a Gávea e outras das atrações da cidade. Ele recusou-se: "Não! Pelo menos até ao fim do ano, enquanto o Flamengo não for campeão brasileiro, sul-americano e mundial, vamos deixá-lo quieto onde está!" Pensei melhor e concordei com Fraga.

Li que Jorge Jesus ainda não se acostumou com as distâncias do Rio. Quando quer ir à casa de um vizinho, tem de dirigir durante uma hora e meia para chegar lá. "Se estivesse em Lisboa e dirigisse por uma hora e meia, chegaria a Coimbra!" E li também que os próprios brasileiros lhe recomendam: "Não saia de Rolex ou celular, mister. Podem roubá-los."

Na minha opinião, isso é uma asneira. Se algum ladrão se vir diante de Jorge Jesus - e a maioria dos ladrões, assim como das pessoas de bem, torcem pelo Flamengo -, aposto que se atirará aos seus pés e lhe beijará as mãos, pelo que ele tem feito pelo clube do seu coração.

Jornalista e escritor, autor de, entre outros, Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha (Tinta-da-China).

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