Folhas de erva

High Maintenance rejeita esquemas sofregamente didácticos e dedica-se ao que uma pessoa pode fazer ou dizer longe de toda a matéria passível de opiniões ou editoriais.

Há um momento característico nas ficções de Tchékhov em que uma personagem tenta comunicar a outra uma experiência emocional ressonante e descobre os frustrantes limites da sua eloquência. O momento ocorre em mais de meia dúzia de contos e a experiência incomunicável tanto pode ser trágica e traumática (Lipa, em "Na Ravina", a tentar descrever, sem sucesso, a sua mágoa pela morte do filho recém-nascido) ou extática (o soldado em "O Beijo" a contar aos camaradas o episódio mais memorável da sua vida e a perceber que, em voz alta, o episódio se tornou banal).

Lembrei-me várias vezes desses momentos enquanto via High Maintenance (HBO Portugal), não só porque um dos temas secundários da série é a discrepância de escala entre o tumulto expansivo da vida interior e a insuficiência dos meios (narrativos e gestuais) ao nosso dispor para o transmitir, mas também porque High Maintenance é o tipo de objecto artístico sobre o qual é muito mais fácil fazer proclamações extravagantes do que justificá-las. Durante o tempo em que a estamos a ver, pode parecer a melhor coisa na televisão. A sensação não desaparece propriamente quando desligamos o aparelho e começamos a nobre tarefa de propaganda, mas é pelo menos atenuada por um cepticismo específico: pode algo tão difícil de elogiar com precisão ser realmente assim tão bom?

A série nasceu em 2012 como produto de baixíssimo orçamento, autofinanciado pelos criadores, na plataforma Vimeo. A popularidade desses primeiros miniepisódios - que variavam entre cinco e 15 minutos - valeu-lhes uma transferência para a HBO em 2016. Os orçamentos subiram e a duração de cada episódio aumentou para os 30 minutos regulamentares, mas High Maintenance mantém-se fiel à estrutura original.

Cada segmento é mais ou menos autocontido, com duas ou três histórias que, apesar de pontos de contacto temáticos, não são ligadas dramaticamente a não ser pelo mais próximo que tem de um protagonista: um pequeno empresário que percorre Nova Iorque de bicicleta a vender ganza a clientes habituais. Esse modelo de simpatia monástica, conhecido apenas como "the guy" (nunca sabemos o seu nome), torna-se um dispositivo antropológico ambulante, acedendo temporariamente a espaços privados para fornecer um serviço, paciência, e boa onda, convertendo a soma de várias transacções económicas furtivas numa curiosidade panóptica sobre as vidas de estranhos.

Ao contrário de outras ficções sobre este tipo de "consumo", High Maintenance nunca resvala para a farsa surreal, nem sequer exactamente para a pura comédia. (Há pouquíssimas piadas citáveis na série inteira, pois a maioria dos momentos cómicos são executados visualmente ou através de ecos contextuais; uma das maiores gargalhadas ocorre no primeiro episódio da segunda temporada, e é provocada pela imagem de uma pessoa a tomar banho vigorosamente durante os créditos finais: a gargalhada é preparada por uma frase tangencial ouvida dez minuto antes). Algumas das colisões de histórias produzem imagens e sequências associáveis à mitologia cultural de Nova Iorque - o episódio em que um judeu hassídico é salvo de morrer sufocado após uma traqueotomia improvisada por um travesti podia pertencer a uma canção de Lou Reed - mas o espírito é demasiado difuso para ser filiado em influências específicas.

Essa difusão descontraída é uma das maiores virtudes da série, que nunca submete o espectador a sermões: não embaraça as personagens mais ridículas, nem sentimentaliza as mais heróicas, nem procura fazer de nenhuma delas um exemplo de algo a celebrar ou deplorar. O que faz é colocar o seu semiprotagonista na posição passiva de alguém cujas próprias circunstâncias o transformam num inquérito composto de perguntas circunstanciais, e de quem ouve as respostas sem nunca julgar o facto de serem excêntricas, incompletas ou indecifráveis.

Há uma avidez ostensiva na forma como a maioria das séries e filmes actuais procuram activamente fazer parte de discursos culturais mais amplos. Muito entretenimento contemporâneo substituiu a antiga ética de escapismo e distracção por uma ética de afiliação: filmes e séries que procuram a fidelidade militante de adeptos, dando-lhes, para esse efeito, esmolas suficientes para poderem legitimar as suas predilecções, encaixando-as em assuntos sérios.

Um efeito colateral deste processo (que é predominantemente comercial) é a profusão de narrativas sobredeterminadas: puzzles em que cada peça encaixa, cada símbolo é alvo de holofotes, cada solilóquio reitera os seus próprios "temas", e cada pormenor vago cumpre uma função específica no diagrama, muitas vezes com notas de rodapé embutidas remetendo para possíveis "tópicos de discussão", como num teste escolar ("Comente em dois parágrafos a questão das alterações climáticas à luz deste episódio de A Guerra dos Tronos. Seis valores"; "Analise o significado da pianola nesta cena de Westworld. Oito valores"). A familiaridade crescente com os tropos da ficção televisiva "de qualidade" acaba por gerar uma segurança ilusória: o poder de antecipar transforma-se na possibilidade de abstrair, e de ignorar os defeitos da falsa dramatização.

O radicalismo descontraído de High Maintenance reside na rejeição destes esquemas sofregamente didácticos, e no interesse que dedica àquilo que uma pessoa pode fazer ou dizer longe de toda a matéria passível de opiniões ou editoriais. Os seus micromelodramas existem não nas surpresas compulsórias das convenções narrativas nem no conhecimento omnisciente partilhado por criador e espectador, mas na maneira como organiza a nossa atenção, promovendo no espectador a mesma curiosidade orgânica, mas vagamente distraída, capaz de se surpreender a si mesma quando percebe algo sozinha.

Uma das consequências da exposição prolongada a este tipo de atitude acaba por ser o florescer de uma compaixão inusitada pelo resto da televisão. Uma pessoa vê seis, sete, 15 episódios de High Maintenance, e começa a sentir uma tolerância pluralista pelas séries que circulam à sua volta, nas grelhas de programação. Cresce um carinho genuíno por todas essas ficções atarefadas - com os seus mistérios ostensivos, as suas simetrias berrantes, as suas simbologias de aluguer. Parecem todas tão tensas, tão nervosas. O que as outras séries precisam, concluímos, é de relaxar um bocadinho. O que as outras séries precisam é de experimentar um pouco daquilo que High Maintenance vende.

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