Kiev sob ataque e o "exército fandango" que a defende.Apesar de Vladimir Putin se reafirmar empenhado em "atingir os seus objetivos" na guerra e de o próprio Volodymyr Zelensky ter acusado o Kremlin de levar a cabo uma "guerra de aniquilação", o presidente ucraniano afirmou ter visto sinais positivos na retórica do homólogo russo. Retóricas à parte, se as tropas russas continuam com dificuldades em avançar até à capital ucraniana a verdade é que o centro de Kiev foi neste dia alvo pela primeira vez de um disparo da artilharia russa, que destruiu o telhado de uma casa. Mas nas ruas da capital há quem recuse sair e até se tenha organizado no que Pedro Cruz, o enviado do DN à Ucrânia, descreve como um "exército fandango" -"Não há duas fardas iguais, nada bate certo com nada, uns usam colete outros não. Alguns tapam a cara com passa-montanhas, o mais "pintas" do bairro usa uns óculos escuros, armação azul, lentes azuladas, todos o gozam pela escolha do adereço." O objetivo de todos: ficar "até à nossa vitória"..Rússia manda recado com ataque às portas da NATO .Um dia depois de o Kremlin ter declarado que as colunas de armamento vindas do Ocidente são "alvos legítimos", o exército russo mandou uma mensagem clara ao bombardear uma base de formação militar em Yavoriv, perto de Lviv e a apenas 25 km da fronteira com a Polónia. Um ataque às portas da NATO que logo levou os EUA a garantir que irão responder militarmente se a guerra salpicar para território da Aliança Atlântica. O balanço foi de 35 mortos e 134 feridos naquele que desde o início da guerra era um centro de treino de voluntários estrangeiros. Em mais um exemplo de duplicidade de visões, para Kiev todas as vítimas eram ucranianas, para Moscovo o ataque resultou em "até 180 mercenários estrangeiros e um grande número de armas estrangeiras eliminados"..Pausa técnica nas negociações mas não nos ataques.No 19.º dia da guerra, um edifício de apartamentos em Kiev foi atingido por um ataque russo, tendo morrido uma pessoa, 12 ficaram feridas e muitas desalojadas. Isto quando o Kremlin ameaçava tomar o "controlo total" de várias cidades, alegando só ainda não o ter feito porque "as perdas civis seriam grandes. Mas enquanto a guerra não dava tréguas, as negociações entre russos e ucranianos prosseguiam numa quarta ronda que terminou com a decisão de voltarem a reunir no dia seguinte. "Fizemos uma pausa técnica", escreveu no Twitter o principal negociador ucraniano. Noutra frente de batalha, a da desinformação, depois de notícias de que a Rússia pedira equipamento militar e ajuda económica à China, o Kremlin veio negar e Pequim acusou os EUA de "espalharem desinformação"..Aliados chegam de comboio e o adeus ao sonho da NATO.Depois de uma viagem de comboio até Kiev, os primeiros-ministros da Polónia, República Checa e Eslovénia reuniram-se com Zelensky, numa mostra de apoio da União Europeia ao presidente ucraniano. "É aqui, na Kiev devastada pela guerra, que a história está a ser feita. É aqui que o futuro de todos nós está em risco", lembrava o primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, num tweet em que partilhou a foto com os homólogos checo, Petr Fiala, e esloveno, Janez Jansa, e com o seu vice-primeiro-ministro (e líder do partido) Jaroslaw Kaczynski. Com recolher obrigatório de 35 horas em Kiev e perante as recusas com que os seus pedidos de uma zona de exclusão aérea foram recebidos, Zelensky admitiu pela primeira vez claramente que a Ucrânia não entrará na NATO. "Ouvimos durante anos que as portas estavam abertas, mas também ouvimos dizer que não podíamos aderir. Esta é a verdade e temos de a reconhecer.".A comparação com o 11 de Setembro e mil milhões dos EUA."Eu tenho um sonho", afirmou Zelensky numa intervenção perante as duas câmaras do Congresso americano em que o presidente ucraniano não só ecoou as palavras de Luther King como comparou a invasão russa da Ucrânia aos atentados de 11 de Setembro de 2001 que fizeram quase três mil mortos nos EUA. Voltando a afirmar que precisa de "proteger os céus" do seu país, Zelensky mencionou Pearl Harbor e o 11 de Setembro quando "inocentes foram atingidos por ataques vindos dos céus" para lembrar que os ucranianos estão a "viver isso todos os dias". Se não conseguiu mais uma vez a zona de exclusão aérea que tanto tem pedido, Zelensky recebeu de Biden a garantia de um novo pacote de mil milhões de dólares de ajuda militar americana para a Ucrânia. E ouviu o presidente dos EUA chamar "criminoso de guerra" a Putin..A Nossa Senhora de Fátima em Lviv e o "ditador assassino".Terra da maior comunidade católica da Ucrânia, foi com emoção que Lviv recebeu a réplica da imagem da Nossa Senhora de Fátima enviada pelo santuário de Fátima. "A Senhora da Paz chega em tempos de guerra", escreveu Pedro Cruz de Lviv, e ali vai permanecer durante um mês na Igreja de São Jorge. Um sinal de esperança, esperam os crentes. Mas o dia esteve longe de ser de paz. Enquanto, os EUA e a União Europeia acusavam a Rússia de "crimes de guerra", o presidente Joe Biden subia o tom, chamando "ditador assassino" a Putin. No terreno, enquanto os mísseis russos atingiam Kiev, Kharkiv e Chernihiv, em Mariupol procurava-se chegar aos sobreviventes do ataque ao teatro onde estavam abrigadas centenas de pessoas. No seu tour virtual pelos Parlamentos ocidentais, Zelenskky pediu diante do alemão: "Caro Olaf Scholz, deite abaixo este muro"..A Bíblia de Putin, a paz de Xi e mísseis chegam a Lviv.De um lado, Vladimir Putin discursou para dezenas de milhares de pessoas num estádio de Moscovo em apoio ao exército russo na Ucrânia, no oitavo aniversário da anexação da Crimeia. "As palavras da Bíblia Sagrada vêm-me à cabeça: não há maior amor do que dar a vida pelos amigos", garantiu. Do outro Xi Jinping, num telefonema com Joe Biden, lembrou ao presidente americano que a China e os EUA precisam "assumir" as suas "responsabilidades internacionais" e "trabalhar pela paz e tranquilidade no mundo". A conversa durou perto de duas horas e os dois líderes concordaram que "a crise ucraniana não é algo que gostaríamos". Mas enquanto as movimentações diplomáticas se multiplicam, no terreno os ataques chegaram pela primeira vez a Lviv, refúgio para muitos dos que fugiram do conflito. Mísseis russos atingiram uma oficina de manutenção de aviões junto ao aeroporto da cidade, lançando uma coluna de fumo para os céus.