Filho de peixe sabe nadar? Pedro Costa vai a votos pela primeira vez

Há precisamente um ano, Pedro Costa, filho de António Costa, herdou a presidência da junta de Campo de Ourique, em Lisboa. Em Setembro será ele o cabeça de cartaz. Pela primeira vez.

Quando é que Pedro Costa, 30 anos, começou a ter interesse pela gestão autárquica? O próprio localiza isso muito bem no tempo: foi quando viveu sozinho com o pai em Lisboa. Isto foi algures entre 2007 e 2013. O pai, António Costa, presidia à Câmara Municipal de Lisboa e passava toda a semana com o filho na cidade, os dois na mesma casa, enquanto a mãe e a irmã viviam em Sintra, onde todos se juntavam aos fins de semana. Do companheirismo entre pai e filho nesses anos desenvolveu "uma relação afetiva com a cidade".

Por isso aceitou integrar em tempos o executivo da junta de freguesia de S. Domingos de Benfica. E depois, em 2013, ir na lista do socialista Pedro Cegonho candidata à junta de Campo de Ourique. De quem, faz agora precisamente um ano, herdaria a presidência, quando Cegonho decidiu assumir a tempo inteiro o mandato de deputado.

Agora o filho do primeiro-ministro já tem o apoio da concelhia de Lisboa do partido para ser ele próprio nas próximas autárquicas o candidato do PS. Irá portanto ser pela primeira vez cabeça de cartaz num ato eleitoral. E o combate é desafiante - Campo de Ourique é do PS mas já foi do PSD e os dois partidos têm ali um peso eleitoral muito próximo. Para trás, definitivamente, fica uma vida profissional de organizador de eventos, nomeadamente ao serviço de João Lagos. E uma licenciatura em Direito que nunca teve tradução profissional.

Pedro Costa é filho de António Costa e os seus "fregueses" em Campo de Ourique sabem-nos. Segundo conta, não aproveitam isso para lhe meter "cunhas". Mas de vez em quando deixam cair aquilo que o próprio define como "recados". O pessoal da restauração, sobretudo: "Diga lá ao seu pai que tem de abrir os restaurantes." E é tudo.

Com o pai - e também quando trabalhou na organizou de eventos - aprendeu que não vale a pena stressar por antecipação com problemas que sabe que vão acontecer. Cada coisa a seu tempo. Mas, ao contrário do que Marcelo diz do primeiro-ministro, não se considera um "otimista irritante". "Não sou otimista, de todo. Irritante sim, eventualmente..."

A experiência, até agora, como presidente de uma junta que tem nove mil eleitores e um orçamento anual superior ao de muitas câmaras municipais (cerca de quatro milhões de euros) tem sido "muito desafiante". E, embora numa escala incomparavelmente diferente, a razão é a mesma que para o seu pai na chefia do Governo: a pandemia.

Por causa do covid-19, a junta de freguesia teve de acelerar, por exemplo, o processo de digitalização de serviços. Ou seja, providenciar online, e sem necessidade de deslocações às sedes da autarquia, os vários atestados que podem ali ser obtidos: de residência, de prova de vida, as licenças para as esplanadas e as licenças dos animais de companhia (sim, quem tem um cão precisa de licença para isso...).

Ao mesmo tempo, foi necessário implementar planos de contingência, desenvolver uma operação permanente de rastreamento epidemiológico e - numa freguesia envelhecida - reforçar a oferta de entregas ao domicílio de refeições, medicamentos e compras de supermercado.

E, como em milhares de outras juntas de freguesia no país todo, foi necessário também reagir ao facto de grande parte do ano escolar ter sido passado em casa pelos alunos para aumentar a oferta de instrumentos de recuperação pedagógica (vulgo: explicações). Atém de ter sido preciso, igualmente, aumentar de escala a operação de acompanhamento de idosos isolados nas suas casas - um problema evidentemente agravado pela pandemia. E edificar também um sistema de transportes para os dois centros de vacinação que servem Campo de Ourique - nenhum dos quais na freguesia (um fica entre o Rato e o Príncipe Real e o outro na Ajuda).

Em tudo isto - conta agora Pedro Costa - a oposição local não foi um problema. "Foi bastante construtiva, só tenho elogios a fazer", falando por exemplo na candidata do PSD à junta em 2017, Cristina Lobo Antunes (que não quis falar com o DN com o argumento de que não será recandidata).

Enfim, a pandemia revelou-se muito espaçosa mas agora, à medida que a vacinação vai avançando, e com as eleições autárquicas a caminho, o tempo começa a ser de pensar a sério noutros assuntos. O jovem autarca quer "devolver ao bairro" o quartel de Campo de Ourique. Reabilitar a Ferreira Borges é outra prioridade, bem como a encosta do Casal Ventoso. Quanto ao "peso" de ser filho de quem é, nada a dizer: "É a vida."

joao.p.henriques@dn.pt

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