Ainda me recordo de haver entre os líderes políticos dos afro-americanos, comunidade que costuma votar maciçamente nos democratas, algumas dúvidas sobre se Barack Obama seria o candidato ideal para o partido nas presidenciais de 2008, sinal de evidente simpatia pela sua rival nas primárias, Hillary Clinton. Filho de um queniano e de uma branca do Kansas e com a juventude passada na Indonésia, o senador-estrela dos democratas não os entusiasmava muito, apesar da cor da pele. Mas não esquecer que quem o desafiava era, além de também senadora, a mulher de Bill Clinton, a quem a Nobel da Literatura Tony Morrison chamou um dia "o nosso primeiro presidente negro", uma frase por vezes mal entendida, mas que tinha a ver com o passado do político, órfão de pai, com uma mãe trabalhadora-estudante, criado pelos avós numa terriola do Arkansas, em cuja mercearia brancos e negros faziam compras, apesar das leis segregacionistas no Sul dos Estados Unidos. Mais poeticamente, a romancista destacava ainda a paixão de Clinton pelo saxofone como algo que o aproximava dos afro-americanos..Os discursos inspirados de Obama (e a presença de Michelle ao seu lado) acabaram por convencer os afro-americanos, tal como a América em geral. Ganhou com clara vantagem, em 2008 e em 2012, e contra os melhores candidatos republicanos em décadas, John McCain e Mitt Romney. Como me disse a embaixadora Randi Charno Levine, em entrevista que hoje publicamos no DN, "foi incrível". Incrível porque desfez uma série de mitos sobre os Estados Unidos, mostrando que tudo é possível, mesmo um político com pele escura e nome muçulmano, e até um Hussein entre Barack e Obama, ser a escolha para inquilino da Casa Branca. Eu que estive em reportagem em Hope, a tal terriola com a mercearia onde brincava em miúdo um futuro presidente, e sempre vi Clinton como a encarnação do sonho americano, tenho que admitir que a história de Obama é tão ou mais inspiradora. Mostrou que a questão racial - tão presente na manutenção da escravatura quando os americanos se libertaram da coroa britânica como hoje, passados dois séculos e meio, quando se discute a violência policial - existe, condiciona, complica, mas não determina já obrigatoriamente aquilo que um afro-americano pode ser..Em 2000, o último ano em que Bill Clinton esteve na Casa Branca, defendi uma dissertação de mestrado em Estudos Americanos em que comparava Colin Powell e Louis Farrakhan como modelos antagónicos para os negros dos Estados Unidos, cerca de 15% da população. O general Powell, que foi o primeiro afro-americano chefe do Estado-Maior e depois secretário de Estado, era bem mais inspirador do que o líder da nação do Islão, mas mesmo ele, quando tentaram que fosse candidato republicano em 1996, não acreditou que fosse possível um presidente negro. Incrível, pois, digo eu também, que na época tive dificuldade em imaginar a naturalidade com que alguém como Obama chegaria à presidência, naturalidade que se repetiu em 2020 com a eleição de Kamala Harris, filha de um jamaicano e de uma indiana, para vice-presidente de Joe Biden.."A América é um mosaico, é muito diversa, acho que o facto de os americanos estarem a reconhecer que todos estes grupos contribuíram para o que é hoje a América e para o que significa a América, acho que isso já é uma grande vitória", sublinha a embaixadora Levine, que se diz "uma criança dos anos 60", quando o movimento dos direitos civis triunfou e acabou com a segregação que se seguiu à abolição da escravatura por Abraham Lincoln..Para este esforço de reconhecer o contributo afro-americano na cultura e sociedades americanas contribui, e muito, o Black History Month, o Mês da História Negra, que começou a ser celebrado na década de 1920, em redor da semana de fevereiro em que se assinalam os aniversários tanto do presidente Lincoln como de Frederick Douglass, líder abolicionista que nasceu escravo. Durante a presidência de Gerald Ford, a Semana da História Negra passou oficialmente a mês, e por isso todo um leque de atividades ao longo de fevereiro promovidas, não só nos Estados Unidos como mundo fora, pelas embaixadas..Em Lisboa, na terça-feira, no Teatro da Trindade, acontece o espetáculo L"USA-Fonia, com temas de gospel, jazz e hip-hop, tudo música criada nas lutas por justiça social dos afro-americanos, mas que nessa noite será interpretada por artistas lusófonos. Uma bela forma de reforçar também as relações entre os Estados Unidos e Portugal e reconhecer como a cultura africana contribui na música, como em tantas áreas, para as sociedades de ambos os países, mesmo que estes tenham experiências históricas bem distintas.