O que fazer com a extrema-direita: ouvir ou silenciar?

O convite a Marine Le Pen para vir a Lisboa discursar na Web Summit gerou na classe política posições antagónicas. O DN ouviu outras vozes, da política ativa mas não só.

Francisco Seixas da Costa acaba a citar Churchill: "Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos." Mas não necessariamente pela censura ou pelo silenciamento: "Depende das circunstâncias, é um problema complexo." O que é preciso fazer "sempre, sem descanso", é lutar "para resolver os problemas das pessoas" cujo sentimento de exclusão é explorado pela extrema-direita - e que lhe dão cada vez mais votos.

É isto que o diplomata reformado e ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus defende quando confrontado pelo DN com a pergunta sobre o que fazer com a extrema-direita: dar-lhe palco ou silenciá-la? O debate voltou a estar na ordem do dia depois de se saber que Marine Le Pen, a líder da extrema-direita francesa, esteve convidada para ser oradora em Lisboa na próxima edição da Web Summit (face à polémica, a organização retiraria o convite).

Dois jovens dirigentes do PS - um ex-secretário de Estado e o outro deputado - sintetizaram, com posições antagónicas entre si, este debate. "Não me desagrada que ela venha a um evento em que eu participo, de outra maneira não seria possível para mim ouvi-la, tentar entendê-la e assim conseguir combater de maneira mais eficaz as suas ideias", disse João Vasconcelos. "Ao fascismo não se dá voz: proíbe-se, como na Constituição da República. Mata-se o mal pela raiz, bem cerce, evitando a contaminação da democracia e as tragédias do século XX europeu. É por isso simples até que percebam a mensagem: Le Pen não pode falar na Web Summit", contrapôs Tiago Barbosa Ribeiro.

Nas presidenciais de 2017, Marine Le Pen mais do que duplicou o resultado face ao que o pai tinha obtido em 2002.

Ouve-se ou silencia-se? Foi essa a diferença de 2002 para 2017, nas campanhas presidenciais francesas, quando Jacques Chirac e Emmanuel Macron enfrentaram, respetivamente, o Le Pen pai e a Le Pen filha. Em 2002, Jean-Marie Le Pen surpreendeu tudo e todos passando à segunda volta (e deixando pelo caminho o socialista Lionel Jospin). E depois foi Chirac quem surpreendeu recusando um debate na TV francesa com o então líder da extrema-direita francesa. "Diante da intolerância e do ódio, não há negociação nem compromisso nem debate possíveis. Não se debate com a extrema-direita", explicou. Em maio de 2017, Emmanuel Macron escolheria o caminho oposto. Aceitou um debate televisivo com Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais. Um debate feio, onde os dois passaram o tempo a insultar-se.

Traduzindo em votos: em 2002, Chirac conquistou a Le Pen pai a reeleição presidencial por 82,2% contra 17,8%; em 2017, Macron, que aceitou debater com Marine, também venceu as eleições - por 66% contra 33,9%. Em números absolutos, a filha Le Pen teve 10,6 milhões de votos - mais do dobro do que o pai, 15 anos antes. Reforçou assim, com este crescimento eleitoral, a legitimidade da decisão de 2015 de expulsar o pai da Frente Nacional (partido que também suavizaria a sua designação, passando a Reunião Nacional [Rassemblement National]).

Efeitos contraproducentes

O embaixador António Monteiro, diplomata reformado e ex-MNE, representava Portugal em França durante a campanha de 2002 que reelegeu Chirac Presidente da República. Devidamente autorizado pelo governo liderado por Durão Barroso, foi ao comício final de Chirac (e vários diplomatas de outros países fizeram o mesmo). "Quisemos sinalizar à comunidade portuguesa residente em França a nossa posição de apoio a Chirac." O momento era dramático, Jean Marie Le Pen assustava a Europa toda.

Hoje defende que o combate a fenómenos deste género se deve fazer "encarando os problemas" e contrapondo "os nossos valores" aos valores que os extremistas defendem, fazendo-o "sem tentativas de ostracização porque isso muitas vezes tem efeitos contraproducentes". Portanto, o governo português teve "a atitude correta" ao não pedir aos organizadores da Web Summit que retirassem o convite a Le Pen.

"A política não é só psicologia, nós não queremos só compreender, queremos derrotar."

Para o historiador Rui Tavares, que durante cinco anos (2009-2014), eleito pelo Bloco de Esquerda, conviveu com Marine Le Pen no Parlamento Europeu, a questão do "ouve-se ou silencia-se" é "apenas tática" e ilude o principal. O que importa, isso sim, é que "devemos afirmar sempre as nossas ideias, convictamente", por contraponto às ideias extremistas, "com a mesma convicção com que eles o fazem". "O problema é que Nigel Farage andava há 20 anos a afirmar o seu antieuropeísmo, convictamente. Mas do lado antibrexit não surgiu ninguém a afirmar convictamente o seu europeísmo. O resultado foi o que se viu."

Dito de outra forma: "Podemos compreender tudo. Mas a política não é só psicologia, nós não queremos só compreender, queremos derrotar. E para isso é preciso convicção" e que os democratas deixem de fazer discursos modelados pelas sondagens e não pelo que verdadeiramente pensam. "As pessoas estão fartas de políticos que só falam para o focus group."

Outras três personalidades ouvidas pelo DN defendem também que o combate aos extremismos, no caso em particular à extrema-direita, não passa nunca por atos censórios ou tentativas de silenciamento.

"Parte do crescimento da extrema-direita explica-se pelas tentativas de abafar discussões importantes sobre a imigração ou a construção europeia."

"A Web Summit é um evento privado. Pode convidar e desconvidar quem quiser", diz Vasco Rato, presidente da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento). "Mas", acrescenta, "as ideias erradas combatem-se discutindo-as, não é através de censura. Parte do crescimento da extrema-direita explica-se pelas tentativas de abafar discussões importantes sobre a imigração ou a construção europeia."

Paula Teixeira da Cruz, advogada a vida toda, deputada do PSD e ex-ministra da Justiça, esclarece logo à partida que todos os extremismos lhe são "repulsivos", sejam de direita ou de esquerda. Mas também afirma que lhe "custa muito" que a luta contra isso se faça "coartando a liberdade de expressão". O que é preciso "é uma pedagogia imensa e explicar às pessoas que todos somos produtos de migrações e de miscigenações e que ninguém pertence a uma raça pura".

Já Margarida Marques, antiga funcionária da Comissão Europeia, atual deputada do PS, secretária de Estado dos Assuntos Europeus no início da atual legislatura, defende a importância de "políticas de combate à desigualdade que integrem os marginalizados da globalização" - que são afinal quem leva ao poder as Le Pen e os Trump deste mundo.

Em Portugal o fenómeno da extrema-direita partidária é residual - em parte, explicam os cientistas políticos, por ausência de lideranças fortes. Mas está em crescimento: de 2009 para 2015, o PNR mais do que duplicou o seu número de votos, passando de 11,6 mil para 27,3 mil.

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