Serviço militar obrigatório

oltámos a ser recentemente confrontados com mais uma declaração do ministro da Defesa sobre possibilidade de se restabelecer o serviço militar obrigatório. E digo voltámos, porque desde que este governo iniciou funções já por diversas vezes que o titular da pasta vem tentar trazer este tema para a agenda. O mesmo ministro que não sabe justificar o desaparecimento de material militar, para quem Tancos é ainda um mistério, considera que a falta de efetivos nas Forças Armadas se resolve com o regresso do serviço militar obrigatório. Para mim, o mistério reside na situação de Azeredo Lopes ainda ser ministro. Mas adiante.

Começa logo por ser estranha a oportunidade desta "proposta". Ela surge numa altura em que mais notícias davam conta da gravidade de haver material militar em parte incerta. Deu algum jeito dispersar as atenções do escândalo de Tancos com um tema que nem se encontra sequer no programa do governo. Entretanto o próprio ministro que veio trazê-lo foi o mesmo que o levou embora: era apenas uma "ideia interessante".

Importa recordar que o fim do serviço militar obrigatório faz parte do legado que a JSD tem deixado ao país. Várias lideranças desta juventude lutaram durante anos para que finalmente, num governo liderado pelo PSD em 2004, fosse posto fim ao serviço militar obrigatório. A JSD contribuiu decisivamente para que se acabasse com um tormento que penalizava jovens que assim tinham de adiar o início dos seus projetos de vida.

Compreendendo a necessidade de se dar resposta à falta de efetivos nas Forças Armadas, a prioridade de qualquer governo passa (ou deveria passar) por tornar mais atrativa a carreira militar, criando incentivos e benefícios, valorizando aqueles que por sua livre vontade queiram de facto ingressar nas Forças Armadas.

Há outro argumento a que não sou indiferente. A ideia de que falta alguma noção de pertença a uma mesma comunidade, a noção de serviço público, a convicção de que temos de dar o nosso contributo à sociedade. Concordo com o diagnóstico, mas discordo da solução. Rejeito que isto apenas se consiga por via do restabelecimento do serviço militar obrigatório. Considero que deveríamos começar por fazer da escola muito mais do que um mero agrupamento de salas de aula, onde os exames e o "programa" são as únicas preocupações, salvo raras exceções. Em segundo lugar, parece-me fundamental levar para a escola matérias relacionadas com cidadania e política - seria uma boa forma de tornar os nossos jovens cidadãos mais ativos, mais exigentes e mais comprometidos com o seu país. É chocante que um jovem termine o seu ciclo de estudos sem fazer a mínima ideia de quem são os seus representantes, como é que estes são eleitos, como é que podem e devem ser fiscalizados, a título de exemplo. E em terceiro lugar, se a ideia é reforçar o interesse dos jovens para considerarem ingressar nas Forças Armadas, seria fundamental começar não apenas por valorizá-la mas por dar-lhe maior importância e visibilidade.

Haverá, decerto, muitas outras formas de atrair mais jovens para as Forças Armadas. E estou inteiramente disponível para essa discussão. Façamo-la. Mas não tentem por favor acordar fantasmas do passado que durante anos a fio atormentaram jovens que tiveram de adiar o início dos seus projetos de vida.

Presidente da JSD

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