O que vamos dizer aos nossos filhos?

No dia 6 de agosto, com repercussões em todo o mundo, foi conhecido um importante estudo sobre alterações climáticas, dado à estampa pela prestigiada Academia das Ciências dos EUA, com o título "Trajetórias do Sistema Terra no Antropocénico". Antes de ir ao essencial, gostaria de frisar a qualidade científica dos seus 16 coautores. Destacaria dois, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente, o coordenador, Will Steffen, que persegue uma carreira brilhante na Austrália e na Suécia, e Hans Joachim Schellnhuber, talvez o mais influente cientista europeu, diretor do Instituto de Clima em Potsdam. Os cientistas do Sistema-Terra fazem hoje o trabalho que até ao século XVIII pertencia aos filósofos: pensar o mundo como um todo dinâmico. Contrariando a ciência tradicional, servida às fatias, em especialidades não comunicantes, os cientistas da Terra usam todos os meios poderosos hoje disponíveis, desde os supercomputadores aos modelos de circulação geral da atmosfera, analisando com rigor quantidades antes inimagináveis de dados do nosso planeta, tanto em tempo real como em séries históricas que podem recuar milhares e mesmo milhões de anos.

A tese central deste estudo é a de que o futuro próximo contém uma ameaça cada vez mais real, que pode comprometer a habitabilidade da Terra nos próximos séculos e milénios. Devido ao aumento descontrolado das emissões de gases de estufa, lançados para a atmosfera pelo nosso modelo de civilização, corremos o risco de que, mesmo que as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas, a temperatura média da Terra aumente muito para além dos 2º C em relação ao período pré-industrial (cerca de 1850). O planeta pode entrar numa rota desastrosa para a humanidade e a biosfera, que os autores designam como "Terra-Estufa" (Hothouse Earth). A novidade do estudo é tomar em consideração com mais rigor as chamadas "retroações (feedbacks) positivas": são efeitos desencadeados pelas alterações climáticas, que, por sua vez, aumentam a intensidade das próprias alterações climáticas. Por exemplo, quando o gelo flutuante do Árctico se derrete, diminui dramaticamente o efeito de albedo (a radiação e o calor refletidos para o espaço exterior), aumentando o calor que é absorvido pelos mares... O mesmo acontece com o recuo das florestas, com o derretimento do permafrost, e muitos outros efeitos das alterações climáticas, que as agravam depois, podendo tombar-se num perigoso "efeito de cascata"...

Este relatório funda-se no conhecimento, mas destina-se a iluminar a ação. Confesso que, depois de tantos anos nas lutas pelo ambiente, sinto uma náusea misturada com revolta. Desde pelo menos 1988 que já sabíamos o suficiente para começar uma transição energética, que nos poderia ter livrado deste pesadelo que vamos deixar como herança aos nossos filhos e netos. Perdi a paciência para negociações em que se faz promessas baratas, traídas por vantagens medíocres. As alterações climáticas não são "uma falha de mercado", mas um crime contra a humanidade, cometido ao longo de décadas por grandes companhias e por sistemas políticos corruptos. Gente de carne e osso, que comprometeu o futuro da humanidade por 3000 anos, em troca de 30 anos de cupidez e ganância. Não estou seguro de que evitaremos a catástrofe, mas espero que os responsáveis - sejam os despudorados, como Trump, ou os cínicos, como os que autorizaram o furo de Aljezur - não escapem sem castigo.

Professor universitário

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.