Dezasseis

Dezasseis mulheres perderam a vida no primeiro semestre deste ano, a maioria delas assassinadas pelos maridos ou companheiros, 15 em casa. Em todos os casos, familiares ou amigos tinham conhecimento de que estas mulheres eram vítimas de violência doméstica, mas apenas duas tinham apresentado queixa às autoridades.

Só no distrito de Lisboa, o Ministério Público recebeu quase 2700 queixas nos primeiros três meses do ano. A violência doméstica volta a aumentar em Portugal. Ciúme, exercício de poder, recusa da separação, são as causas que continuam a matar e a deixar morrer as mulheres em Portugal.

O diagnóstico está feito há muito tempo e a violência doméstica é imune a condição económica, local de residência, idade, credo, orientação sexual ou profissão. O que têm em comum as vítimas de violência doméstica é quase sempre o silêncio, o medo de partilhar, a vergonha social. Isso mostra o quanto ainda há para fazer.

A violência doméstica é crime público há vários anos e, mais recentemente, também a violência no namoro, mas as práticas sociais parecem não estar a acompanhar essas mudanças legais ao ritmo desejado. O medo e a vergonha são ainda regra e há mitos que teimam em não abandoná-los. Quantas vezes não ouvimos dizer, mesmo das pessoas que menos esperaríamos, que "foi só porque ele bebeu de mais", ou que "ela gosta de provocar" ou ainda que "é só uma fase e já passa". Quantas vezes já ouvi eu, em visitas a escolas, jovens contarem histórias que se passaram "com amigas" e sobre as quais pedem opinião...

É nossa obrigação coletiva não deixar normalizar o crime, é nossa responsabilidade coletiva, e em particular de quem exerce cargos públicos, perceber que é urgente colmatar a distância entre a lei e a prática. A educação para a igualdade, a vigilância sobre os conteúdos, a formação contínua de profissionais, os recursos necessários, o apoio a quem apoia as vítimas, são apenas alguns dos exemplos do que é preciso fazer ou continuar a fazer. Há pouco mais de um mês, na Nova Zelândia foi aprovada uma lei pioneira que permite uma licença remunerada de dez dias para todas as pessoas vítimas de maus-tratos, permitindo que deixem quem agrediu e se protejam a si e aos seus filhos, se os houver. Se não fizermos mais e melhor, continuarão a morrer-nos mulheres, vítimas de agressores mas também da nossa passividade.

Desde 2004, foram já 491 as mulheres assassinadas em Portugal. É certo que a violência doméstica não afeta só mulheres, afeta também homens, crianças e cada vez mais idosos, independentemente do sexo. Mas é igualmente certo que quando parecia que o assassinato de mulheres estava a entrar numa curva descendente os números voltaram a aumentar. Números com rostos, idades, vidas e sonhos destruídos.

Na semana em que nos deixou Aretha Franklin é inevitável relembrar a canção que foi um hino para o movimento de libertação das mulheres, Respect, e os versos que marcaram várias gerações: "Tudo que eu quero / É um pouco de respeito quando chegas casa." Temos de recuperar esse grito.

Eurodeputada do BE

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.