"Pior do que o que existe não há, temos de fazer passar esta lei." Foi com esta mensagem e com a de que o argumento do acesso gratuito e livre das plataformas é uma falsa questão que a socialista Maria João Rodrigues convenceu a larga maioria dos colegas europeus do seu grupo no sentido de voto sobre revisão das regras sobre os direitos de autor no mercado digital, também conhecido como relatório Voss..Este foi o mais recente capítulo de uma reforma que mexe com os cidadãos, os criadores e os grandes grupos tecnológicos. Seja qual for a origem geográfica ou a orientação ideológica, os deputados dividiram-se num tema complexo e que mexe com as liberdades e com o acesso e fruição à cultura e à informação..Em julho, o Parlamento Europeu não chegou a um acordo sobre o texto a levar para as negociações finais com o Conselho e a Comissão Europeia, antes de o articulado regressar a plenário para uma votação final para que, por fim, passe a diretiva (o que terá de acontecer em 2019)..Divisão profunda.Para que não se corresse o risco de o tema voltar a ficar bloqueado, Maria João Rodrigues, coordenadora-geral do grupo dos socialistas e democratas (S&D), pegou no dossiê e tomou uma decisão, poucos dias antes da discussão e votação em plenário.."Há uma parte dos membros do PE e dos membros do S&D que estão particularmente sensíveis à necessidade de proteger os criadores, os jornalistas, os artistas, pagando devidamente pelo trabalho deles e garantindo contratos que protejam os seus direitos e tornando as plataformas online responsáveis pela utilização do material. E há uma outra corrente de opinião mais sensível às expectativas dos cidadãos em geral, dos utilizadores, para quem é muito importante o acesso às plataformas e àquilo que a internet possibilita da forma mais aberta e gratuita possível. O choque entre uma corrente e outra existe, na opinião pública em geral, no PE e dentro de cada grupo do PE", comenta Maria João Rodrigues.."O grupo estava completamente dividido. Entrei no processo nos últimos dias e concluí que tinha de argumentar de maneira diferente. Ambas as partes protestaram, mas a liderança serve para isto, correr o risco. Bloquear era muito pior. Assumi as minhas responsabilidades e dei a orientação de voto", conta.."O meu argumento foi o de que o grupo S&D deve estar sensível às expectativas de ambos os atores, os utilizadores e os criadores", prossegue. "Só que há um terceiro elemento em causa: as grandes plataformas online, dotadas de um poder de quase monopólio que lhes permite ditar em que condições é que o acesso se realiza e em que condições o trabalho dos produtores tem lugar. O que está em questão é exigir das plataformas online condições para que haja acesso livre e muitas vezes gratuito, mas ao mesmo tempo conseguindo que se pague aos produtores. E isso é possível porque as plataformas geram uma tal massa de valor acrescentado e de lucro que têm margem para isso. Se houver uma lei europeia suficientemente forte nós vamos conseguir corresponder às expectativas dos utilizadores e dos produtores.".Na quarta-feira passada, em Estrasburgo, o relatório acabou por ser aprovado com 438 votos favoráveis em 751, após mais um acalorado debate na véspera..S&D fez a diferença.O segundo maior grupo depois do Partido Popular Europeu é a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D), composto por 189 deputados. O sentido de voto geral podia fazer - e fez - a diferença. Após a votação das mais de 200 emendas, no momento da votação geral, só 26 votaram contra (entre eles o português Francisco Assis) e nove votaram em branco.."Raramente vi tal tensão no Parlamento Europeu, pareciam cabos de alta voltagem. Cada voto era uma sensação", recorda..No final, o relator, o alemão Axel Voss, da CDU, regozijou-se com o "bom sinal para as indústrias criativas da Europa"..Do outro lado da barricada, deputados como Marisa Matias (BE), João Ferreira ou Pimenta Lopes (CDU) votaram contra. Marisa Matias, por exemplo, foi a voz de quem acha que é a instituição da censura na internet..A ex-ministra do governo de António Guterres reconhece que a "lei não é perfeita e tem de ser melhorada na negociação com o Conselho e a Comissão". No entanto, ressalva que há "uma série de aspetos técnicos para garantir que os filtros não se tornem num instrumento de censura. E conclui: "Atualmente o acesso já está filtrado e hierarquizado. Dão-nos o que queremos ver. O grande risco é o de cada um olhar para a realidade de forma diferente ao gerirem as plataformas de acordo com os nossos perfis e não o que devíamos ver.".Instrumentalização dos cidadãos.A deputada do Partido Socialista reconhece que houve "um enorme movimento da opinião pública" que se mostrou contra o texto agora aprovado, mas, diz, "em parte instrumentalizado pelas plataformas". Daí que ache da maior importância o anúncio da intenção de se criar uma lei de proteção do Parlamento Europeu e da Comissão contra ciberataques e manipulações.."Vimos o que se passou nos Estados Unidos e vimos o que se passou com o brexit. Se isto acontece com o copyright pode acontecer com qualquer lei", alerta.