Presidente do Sertanense quer mudar o feriado municipal para esta sexta-feira à custa do Benfica

Paulo Farinha revela que os benfiquistas da Sertã estão "muito zangados" por o jogo da 3.ª eliminatória da Taça ser em Coimbra e assume que este é o desafio "de todos os sonhos". O treinador João Manuel Pinto acredita na surpresa: "Já fui jogador do Benfica e estive naquela equipa que perdeu em casa com o Gondomar."

A vila da Sertã fica a pouco mais de 20 quilómetros do centro do país, o chamado Centro Geodésico de Portugal situado na serra da Melriça. As bolas do sorteio da Taça de Portugal ditaram a primeira visita do gigante Benfica àquela localidade, mas, ao contrário do que ditou a sorte, nesta quinta-feira (20.45 horas) os encarnados não vão visitar o Sertanense no pequeno e humilde Campo de Jogos Dr. Marques dos Santos, inaugurado em 1994, mas sim no moderno Estádio Cidade de Coimbra. É caso para dizer que a tradição da Taça já não é o que era...

A justificação para a mudança do palco do jogo prendia-se com o mau estado do relvado, algo que João Manuel Pinto, antigo jogador das águias e atual treinador do Sertanense, refuta de forma categórica. "Jogadores, treinadores, presidente e a população ficaram muito sentidos com o facto de o Benfica não jogar na Sertã, pois o nosso relvado não está degradado... há campos bem piores. Perde-se assim um pouco da tradição e o carinho por esta competição. Quem perde é a vila, que há uns anos aqui recebeu o FC Porto por duas vezes", adianta o técnico de 45 anos ao DN.

Paulo Farinha, presidente do clube do Campeonato de Portugal, revelou que tem vivido "dias de grande adrenalina" com os preparativos para o jogo. "Não durmo há 48 horas, pois tudo o que diz respeito à organização está a passar por nós, que somos amadores e temos empregos. Qualquer dia sou despedido", atirou o dirigente, que não esconde a mágoa pelo jogo não se realizar na Sertã. "É muito frustrante, já recebemos aqui o FC Porto duas vezes e agora não podemos receber o Benfica, mas temos de ser positivos", acrescentou, revelando que "há muitos benfiquistas na vila e esses estão ainda mais zangados do que os sócios do Sertanense por o jogo não ser no nosso campo".

"Só não quero ter prejuízo, porque senão não faz sentido falar em festa da Taça. Se o Benfica for solidário e nos der a sua parte da receita seria ótimo, dava-nos muito jeito", diz Paulo Farinha

Apelo à solidariedade do Benfica

Apesar desse revés, o sonho do clube beirão está bem vivo. "Estamos a tentar mobilizar todos os habitantes para irem a Coimbra, só espero que não chova. Se tivermos dez mil pessoas no estádio já será bom... só não quero ter prejuízo, porque senão não faz sentido falar em festa da Taça. Se o Benfica for solidário e nos der a sua parte da receita, será ótimo, dá-nos muito jeito", sublinhou Paulo Farinha ao DN, que apesar do cansaço mantém a esperança. "Quero obrigar o presidente da Câmara da Sertã a mudar o feriado municipal para esta sexta-feira. Era a coisa que mais prazer me dava", atira em jeito de brincadeira, para depois, de forma mais realista, ter uma abordagem diferente: "Esta será a quinta-feira dos sonhos, só não quero ser goleado e espero ver alguns jogadores valorizados."

Se o jogo com o Benfica é de todos os sonhos, João Manuel Pinto bem pode dizer que já fez a vida difícil aos encarnados. Foi há cinco anos, quando orientava o Cinfães: perdeu apenas 1-0 frente à equipa então treinada por Jorge Jesus, que tinha jogadores como Jan Oblak, Jardel, Lindelöf e um tal de Bernardo Silva, que entrou aos 80 minutos, numa das raras aparições na equipa principal das águias. "Temos de acreditar que é possível ganhar e temos de ter coragem para enfrentar um adversário tão forte", afirmou o técnico, que assume tratar-se de "um momento histórico para todos os jogadores, pelo que é normal que estejam ansiosos".

"Quero obrigar o presidente da Câmara da Sertã a mudar o feriado municipal para esta sexta-feira. Era a coisa que mais prazer me dava"

Apesar da hora tardia do jogo (20.45) e dos 73 quilómetros que separam a Sertã e Coimbra, João Manuel Pinto faz votos para que "a população faça um sacrifício para ir ver o jogo", apesar de reconhecer que "não será a mesma coisa" do que jogar em casa. Até porque, conforme faz questão de dizer, "será bem mais difícil jogar com o Benfica num campo tão grande como o de Coimbra".

As lembranças do Gondomar

A necessidade de jogar em Coimbra não tira, no entanto, o entusiasmo ao plantel do Sertanense, composto por jogadores amadores e bastante jovens (média de idades de 23,5 anos). "Os meus jogadores não falam de outra coisa. No dia do sorteio houve uma grande barulheira no balneário e foram os jogadores que entraram no meu gabinete, todos contentes, a avisar-me de que tinha saído o Benfica", revela João Manuel Pinto, lembrando que na sua equipa "há muitos jogadores que vieram dos escalões distritais e dos juniores", razão pela qual o entusiasmo é ainda maior.

"Todos querem fazer parte deste momento único, mas tenho de tomar as melhores decisões e ser o mais justo possível... seria mais fácil se todos pudessem ir para o banco de suplentes", refere João Manuel Pinto

O Sertanense ocupa o 8.º lugar da Série C do Campeonato de Portugal, com três vitórias, três empates e uma derrota, e os objetivos da temporada passam simplesmente pela manutenção neste escalão. "Nós fazemos das tripas coração para nos mantermos vivos. Somos um dos quatro clubes que se mantêm há dez anos neste campeonato e só pensamos em ficar nos nove primeiros lugares", atirou, deixando escapar uma gargalhada quando questionado se um dia veremos o Sertanense nos escalões profissionais: "Com as cidades que temos aqui à volta, é algo impossível. Como presidente, apenas quero apresentar todos os anos a declaração de não ter dívidas à Segurança Social e às Finanças."

É com esta realidade que o clube da Sertã se apresentará nesta quinta-feira diante do Benfica, um jogo que acarreta uma grande dor de cabeça a João Manuel Pinto. "Todos querem fazer parte deste momento único, mas tenho de tomar as melhores decisões e ser o mais justo possível... seria mais fácil se todos pudessem ir para o banco de suplentes", refere o treinador, que já avisou os seus atletas de que não há impossíveis. "Eles sabem quem vai estar do outro lado, mas na Taça de Portugal pode haver surpresas. Já fui jogador do Benfica e estive naquela equipa que perdeu em casa com o Gondomar, por isso é preciso acreditar", assume o técnico, que avisa que o Sertanense é "muito melhor" do que o seu Cinfães, que em outubro de 2013 fez a vida difícil aos encarnados.