A verdade na zona de exclusão

Há um momento em Vida e Destino, a obra-prima do escritor soviético Vassili Grossman, em que o leitor percebe que o protagonista Viktor Strum não é o "herói" do romance, mas apenas mais uma das suas vítimas. Um físico nuclear talentoso e inteligente, Strum vê o valor objectivo do seu trabalho oscilar ao sabor de caprichos ideológicos, e as suas pesquisas sobre mecânica quântica são publicamente vilipendiadas por não serem "reconciliáveis" com a doutrina do materialismo dialéctico.

O processo era típico e tipicamente racional. O dissipar de recursos humanos valiosos era instrumental para a sobrevivência do sistema. Se alguém mostrava qualidade suficiente para ser útil ao país, o raciocínio era que mais tarde ou mais cedo mostraria qualidade suficiente para ser uma ameaça ao regime. Só a mediocridade era considerada inofensiva e, portanto, tolerada; o talento - qualquer talento - tinha de ser controlado, ou neutralizado. Isto pode parecer uma patética subordinação da independência científica à ortodoxia, mas a verdade é que a ortodoxia nunca existiu; aquilo a que se chamava ortodoxia não passava de um conjunto de normas infinitamente maleáveis, concebidas para justificar o próximo acto expediente.

Preocupações temáticas semelhantes parecem ter ocupado os autores de Chernobyl, a nova minissérie da HBO que dramatiza os acontecimentos de 1986 e fornece, entre outras coisas, um catálogo de maneiras de como a verdade pode ser distorcida. O primeiro episódio abre com um monólogo do cientista Valery Legasov, que conclui uma confissão gravada no seu apartamento antes de se enforcar: "Qual é o preço da mentira? O risco não é que a confundamos com a verdade. O verdadeiro perigo é que demasiadas mentiras nos tornem incapazes de reconhecer a verdade de todo."

A incapacidade de reconhecer a verdade é o tema recorrente dos dois primeiros episódios, que se passam nas primeiras horas do desastre e vão alternando entre primeiras reacções. No caso dos habitantes de Pripyat que saem à rua para ver as chamas e dos bombeiros que acorrem a um incêndio que não estão equipados para combater, a incapacidade é apenas fruto de ignorância e falta de informação. No caso dos administradores locais e dos burocratas em Moscovo que recusam, contra todas as evidências, reconhecer a seriedade do problema, o fenómeno já envolve as distorções próprias de qualquer hierarquia rígida e autoritária. Num sistema em que até a concessão de privilégios se limita a acrescentar algo ao que o indivíduo tem a perder, e em que os erros são desproporcionalmente punidos, o que acontece não é as pessoas deixarem de cometer erros, mas sim começarem a negar que os erros acontecem. A radiação não pode ser mais alta do que 3,6 porque esse é o valor máximo registado pelos instrumentos disponíveis. O reactor não pode ter explodido porque os reactores não explodem. Vómito, queimaduras e pessoas a sangrar pelos poros não são compatíveis com o materialismo dialéctico. Qualquer testemunho em conflito com a posição mais conveniente é tratado como incompetência, insubordinação ou propaganda reaccionária. Porque ninguém quer ser culpado de nada, o incentivo é para agir como se não houvesse culpa para atribuir, ou então para a delegar a inferiores.

Embora martele esta mensagem de formas nem sempre subtis (a dada altura, um apparatchik diz sorridentemente a uma cientista que "prefiro a minha opinião à sua"), a série tem o mérito de mostrar outro modo de oclusão, que deve menos aos mecanismos internos de uma autocracia e mais aos mecanismos internos de qualquer indivíduo.

A principal diferença entre os semivilões de Chernobyl (o engenheiro-chefe Dyatlov, os directores da central) e os espectadores de Chernobyl não reside no facto de eles fazerem parte de um regime opressivo e nós não, mas no facto de nós sabermos estar a ver uma história chamada Chernobyl e eles não saberem fazer parte de uma história chamada Chernobyl.

"Estamos perante algo que aconteceu pela primeira vez na história do planeta", diz a dada altura Legasov, sem uma pinga de exagero. Uma situação totalmente nova implica que ninguém tem experiência relevante, e a tecnocracia depressa resvala para a orquestração da futilidade. Porque nunca um reactor explodiu, e ninguém tem uma solução imediata, tentam solucionar-se problemas que não existem. Como pergunta um dos operadores da central a um colega: "A alternativa é aceitar que nós já morremos e milhões vão morrer também. É isso que queres ouvir?" O interlocutor decide que não e acaba por ir virar mais umas supérfluas manivelas.

Vemos uma versão deste mórbido processo a operar em quase todas as personagens centrais: as contorções internas necessárias para justificar uma escolha entre colaborar passivamente numa ilusão, ou arriscar defender uma verdade minoritária, inoportuna, e possivelmente insolúvel: uma escolha, no fundo, entre diferentes modos de capitulação.

A primeira obra dramática sobre Chernobyl surgiu apenas três meses depois do acidente, em Julho de 1986. O editor de ciência do Pravda, Vladimir Gubaryev, foi o primeiro jornalista autorizado a deslocar-se ao local do desastre, com a missão de produzir uma série de reportagens no terreno, e ainda um artigo de "reflexão". O choque provocado pelo que observou levou-o a rejeitar a segunda tarefa, optando por escrever uma peça de teatro intitulada Sarcófago, publicada na revista Znamya e levada ao palco no mês seguinte, aproveitando as primeiras brechas que a glasnost abrira no aparato de supressão. A acção decorre num instituto fictício onde se estudam os efeitos da radioactividade, e ao qual chegam dez vítimas de um desastre nuclear. Num dos momentos-chave da peça, um cientista interroga um inspector de segurança sobre quem teria autorizado o desactivar do sistema de emergência. O diálogo é interrompido por outro paciente do instituto, um mutante chamado Bessmertny, que sobreviveu a uma dose fatal de radiação após 16 transplantes de medula, e que assumiu um estatuto indefinido entre profeta e bobo da corte: "Quem autorizou? O sistema autorizou-se a si mesmo: o mesmo sistema cujo único propósito é impedir que alguém seja responsável."

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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