Só falta Biden-Xi

Agora só falta a Joe Biden falar com o número dois mundial, Xi Jinping.
E digo número dois porque é a verdade assente nos factos: seja na economia seja no poderio militar, ainda é grande a vantagem dos Estados Unidos sobre a China, mesmo que as últimas quatro décadas tenham sido de impressionante redução do fosso e ainda ontem três astronautas iniciassem uma missão na nova estação espacial chinesa, fonte de orgulho patriótico.

Na sua visita à Europa, o presidente americano teve cimeiras com o britânico Boris Johnson, com o G7 (e aí encontrou-se logo com o japonês Yoshihide Suga, também com a alemã Angela Merkel e o francês Emmanuel Macron), com a NATO (na qual repetiu Johnson, Merkel e Macron e ainda acrescentou o turco Recep Erdogan), com a UE (de novo vários europeus repetidos, incluindo Ursula von der Leyen que esteve nas reuniões do G7) e por fim com o russo Vladimir Putin.

Tirando nesta última cimeira, na quarta-feira, o tema China esteve sempre nas prioridades de Biden, procurando o americano a cada reunião (na do G7, o indiano Narendra Modi participou por convite via vídeo) criar uma espécie de aliança das democracias para contrariar a ascensão do gigante asiático. Mesmo na cimeira com a NATO, organização que continua a considerar a Rússia como a grande ameaça, a China acabou por ser denunciada pelo secretário-geral Jens Stoltenberg como um desafio sistémico, o que terá correspondido pelo menos em parte aos desejos de Biden.

Realizada na neutral Suíça, a cimeira Biden-Putin até pode lembrar cimeiras do tempo da Guerra Fria em países como a Finlândia, mas a verdade é que já não se trata de uma reunião entre iguais, pois a Rússia pós-soviética, tirando o arsenal nuclear, já não compete com os Estados Unidos. Realizado sob o signo da cordialidade possível, o encontro de mais de três horas entre estes veteranos da política (Biden, como vice de Barack Obama, lidou com Putin enquanto primeiro-ministro e presidente) serviu para decidirem cooperar no nuclear (lá está!), também para o americano impor algumas linhas vermelhas ao russo no que diz respeito a ciberataques e desrespeito pelos direitos humanos. Putin, que era agente do KGB quando Biden como senador chegava a falar com ministros soviéticos, ganhou pessoalmente com esta cimeira por Biden, nove anos mais velho, reconhecer através dela, apesar de palavras duras anteriores, a relevância inegável do líder russo na cena internacional.

E para quando a cimeira Biden-Xi? Não há data previsível, mas ambos têm interesse em falar com o outro. Os chineses já perceberam que os americanos têm margem para complicar a sua ascensão e que mesmo chegando a primeira economia mundial (previsível no espaço de poucos anos) não é certa a supremacia global, dado o dinamismo dos Estados Unidos e a sua rede de alianças. Por outro lado, os americanos perceberam que não podem lidar com os chineses com a brutalidade verbal que usava Donald Trump, contraproducente perante um país que não esquece as humilhações perante as potências ocidentais no século XIX e inícios do século XX.

Algum tipo de acomodação entre Estados Unidos e China deverá ser negociado para a estabilidade no mundo. Biden e Xi são velhos conhecidos, de quando eram ambos vice-presidentes, e isso talvez facilite que cheguem a acordo em assuntos de interesse comum como o combate às alterações climáticas (tema que os juntou em abril numa cimeira virtual de 40 líderes). Já sobre assuntos como o comércio internacional, os direitos humanos e a liberdade dos mares é difícil imaginar mais do que o início de um diálogo tenso entre Washington e Pequim.

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