Sangue, suor e as informações que conseguimos apurar

Um quintal delapidado povoado por gatos de rua. Entre charcos de água estagnada, ervas daninhas, enxadas enferrujadas, uma pilha de tábuas e sete latas de tinta, um dos gatos rebola-se de barriga para o ar no meio da poeira. Outro mastiga placidamente um ovo de codorniz. Dois gatos mais jovens perseguem furiosamente as próprias caudas. Um siamês interrompe o seu repouso espreguiçante em cima de uma mesa para afastar com a patinha uma ameixa apodrecida, até esta tombar ao chão.

Ao mesmo tempo, alguns homens de fato e gravata sentados ao fundo do quintal vão comentando os acontecimentos: dois deles asseguram que essa ameixa lançada ao chão marca um triunfo inteiramente justificado, produto de muito trabalho por parte do gato; outro especula que o gato inaugurou um novo período de hegemonia no quintal; os dois discutem de seguida os prós e os contras de dar os parabéns ao gato num contexto de justiça e consciência individual, enquanto um terceiro sorri sarcasticamente e grita muito alto que a mesa estava inclinada e a ameixa era na verdade um abrunho. Um quarto elogia a elegância e a dignidade com que os gatinhos pequenos mijaram nas latas de tinta, e um quinto afirma estar em condições de adiantar que o ovo de codorniz era indigesto e o gato que o comeu se encontra a estudar opções de futuro. O último homem de fato e gravata jura a pés juntos que não viu gato nenhum, que pessoalmente até prefere cães, mas que não tem qualquer dúvida de que, caso alguma coisa de estranho se tenha passado no quintal, tudo será esclarecido em devido tempo, e em sede própria.

Há dezenas de horas de espaço televisivo todas as semanas que têm de ser preenchidos com aquilo a que se chama, com enorme generosidade, "comentário futebolístico", grande parte dele dedicado a reproduzir a penosa e extenuante tarefa que é lamentavelmente essencial na experiência de qualquer adepto: encontrar razões para as coisas terem acontecido daquela maneira e não de outra. Traduzido noutros termos, isto implica a criação e a gestão de um problema insolúvel, o que são péssimas notícias do ponto de vista emocional, mas óptimas notícias do ponto de vista da criação de valor. No humilhante confronto entre as fricções da realidade e as promessas imbecis sussurradas pela nossa ignorância ou pelas nossas opiniões anteriores, a única derrota é perder a capacidade de continuar a encontrar explicações, de preferência explicações que não abalem uma única das nossas certezas.

Os programas de "debate" desportivo são o laboratório epistemológico em que todos podemos trabalhar. O objectivo não é tornar o jogo mais interessante ou compreensível (Deus nos livre), mas garantir uma oferta constante de respostas possíveis a toda e qualquer pergunta. O volume - no sentido de quantidade, mas também no sentido sonoro - é o objectivo primário. No programa da SIC Notícias dedicado a "analisar" a conquista de mais um campeonato pelo FC Porto, um dos comentadores identificou o momento decisivo: o momento em que Sérgio Conceição "deu um murro na mesa".

Quão menos interessantes são as laboriosas discussões sobre sistemas tácticos, modelos de treino ou momentos de forma individuais quando comparados com isto: a transformação de uma figura retórica num derrame de testosterona que transbordou os seus limites enquanto gesto imaginário para se transformar em algo que explica tudo. Há algo simultaneamente intoxicante e analgésico em saber com 0% de dúvidas que aquilo que aconteceu após milhares de circunstâncias em centenas de jogos de futebol é a única coisa que podia ter acontecido, e que a causa decisiva está ali à rectaguarda, todas as consequências ordeiramente alinhadas à sua frente.

Na CMTV, na mesma noite, debatia-se um tema mais esotérico, mas não menos importante no vasto fenómeno futebolístico: um rumor de origem desconhecida sobre Jorge Jesus e uma advogada brasileira. Instado a pronunciar-se sobre a possibilidade de o rumor ser "uma armadilha", um comentador disse o seguinte: "Pois, não sei, não é a minha especialidade... estes temas... não sei se é verdade ou se é mentira o que se passa. Sei que no mundo do futebol tudo é possível. Tanto é possível uma armadilha como outra coisa qualquer... Mas tenho a certeza que algo se saberá em concreto muito em breve. Porque nestas coisas também... os rumores têm de assentar e as verdades têm de vir ao de cima... E não tenho dúvidas nenhumas que vai acontecer... isso. Seguramente."

Por mais fácil que pareça vista de fora, a tarefa dos participantes nestes programas é muito difícil. A vergonha e o medo do ridículo são emoções fortes, constantes e aparentemente universais. Os mais bem-sucedidos são os que conseguem sublimar essas emoções poderosas em certezas de soma zero que sejam ao mesmo tempo impenetráveis e irrefutáveis. Nem todos o conseguem. Há inúmeras maneiras de não ter razão neste tipo de programas, uma das quais é adoptar um discurso de omnisciência hipertrófica, em que cada sequência de duas goleadas é transformada num parágrafo de Fukuyama sobre o Fim da História. Outro comentador da SIC Notícias, Rui Santos, é especialmente propenso a estas aventuras proféticas, e um vídeo seu com alguns meses (no qual vaticinava mais um troféu e um consequente período de domínio hegemónico, para o clube que vai acabar a época em segundo) circulou na internet e, pelos vistos, na redacção da TVI 24, onde foi comentado com indisfarçável (mas encriptado) deleite por Rui Pedro Braz: "Aquele mito de que o Benfica é hegemónico... nada disso é verdade... e quem andou a dizê-lo durante tanto tempo agora tem de engolir as suas palavras."

Rui Pedro Braz é talvez o mais fascinante de todos os habitantes desta curiosa ecologia, e o motivo é simples: encontrou uma postura alternativa ao comentador que vê a ameixa deitada ao chão pelo gato como um assunto de vida ou morte sobre o qual vale a pena gritar, mas também ao comentador que vê o quintal de gatos como uma abstracção teórica, sobre a qual é possível sorrir ou piscar o olho. Braz está no quintal para ser sério e toda a sua performance retórica é uma produção constante dessa seriedade.

O estilo é reconhecível, mesmo para quem nunca o tenha ouvido. É declamatório, fastidioso e azedo. Aglutina as certezas foscas da pseudociência, os ritmos e a sintaxe do correspondente em Bruxelas e um vocabulário munido de várias muletas do glossário jornalístico, em que cada tiro ao boneco é caucionado pelo misterioso cruzamento de várias "fontes". Vem inchado de repetições, e perguntas retóricas, e diversos "vamos por partes", ou "as últimas indicações, ou "segundo conseguimos apurar".

A distribuição específica de energia e atenção é óbvia, mas os raciocínios que as sustentam são frequentemente ininteligíveis. Acima de tudo, é desprovido de humor. Se Rui Pedro Braz alguma vez se ri, é apenas o ronco áspero e irritadiço emitido na direcção de quem ousou questionar a sua idoneidade: pode ter um respeito inegociável pela nuance e pela ambiguidade quando se trata de questões mundanas como fraude fiscal ou branqueamento de capitais, mas quando se trata de defender o facto de ter imensa razão, transforma-se em Winston Churchill.

O alvo esta semana foi Poiares Maduro, que cometeu o delito de tweetar ("cobardemente") um vídeo seu, com um comentário em que confessava incompreensão. Braz dedicou três minutos do programa seguinte a confessar que pagava religiosamente os seus impostos; a acusar Poiares Maduro de ter truncado e descontextualizado o vídeo (não o fez); a afirmar que Poiares Maduro integrou a Comissão de Gestão do Sporting (nunca integrou); e a garantir que faz sempre questão de debater estas coisas olhos nos olhos (olhando para uma câmara no estúdio).

Há qualquer coisa de hipnotizante no profissionalismo com que Braz encarna esta postura, servindo doses industriais de Nestum verbal, cada floco polissilábico meticulosamente enunciado. Quando toda a gente for para casa, e a noite descer sobre o quintal, ele ainda lá estará, um derradeiro baluarte de seriedade, garantindo heroicamente o nosso direito a saber quem é que sempre teve razão sobre as ameixas e os gatinhos.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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