O caos pós-Kadhafi, como o caos pós-Saddam

Entre os ditadores derrubados pela Primavera Árabe de 2011, o líbio Muammar Kadhafi foi o que teve o destino mais trágico: nem o exílio, como o tunisino Ben Ali, nem a prisão, como o egípcio Hosni Mubarak. Teve um fim bem mais parecido com o do líder iraquiano Saddam Hussein, derrotado, capturado e executado quase uma década antes. A revolta contra Kadhafi acabou em morte, por linchamento, e com os derradeiros momentos filmados por telemóveis. O rosto tanto de estupefação como de horror do governante líbio impressionava quem quer que visse as imagens e estas foram transmitidas pelas televisões do mundo inteiro. Também a morte de Saddam foi filmada.

Passados pouco mais de oito anos sobre o fim de Kadhafi (morto a 20 de outubro de 2011), não falta na Líbia quem admita que a vida era melhor no tempo do ditador. As pessoas dizem-no em voz baixa aos jornalistas estrangeiros, mas a verdade é que o caos que se seguiu à queda do regime explica as comparações. A Líbia está mergulhada numa guerra civil e o provável vencedor desta até é um antigo aliado de Kadhafi depois caído em desgraça, o marechal Khalifa Haftar. Este, com a sua base de poder baseada no leste do país, a Cirenaica, controla quase todo o território com exceção de Trípoli, a capital, também coração da província da Tripolitânia. Quem resiste à ofensiva final de Haftar é o governo chefiado por Fayez al-Sarraj , reconhecido pelas Nações Unidas, mas muito dependente das milícias armadas, sobretudo da de Misrata.

Não só lutam líbios contra líbios, como várias potências apoiam um ou outro lado. É o caso do Egito, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, que financiam Haftar, e também do Qatar e da Turquia, sólidos ao lado de Al-Sarraj. Já a Rússia apoia Haftar, enquanto a União Europeia parece estar em geral com o governo de Trípoli. Mas a comprovar que a situação é caótica, os Estados Unidos são suspeitos de simpatizar com Haftar, pelo menos desde que o presidente Donald Trump lhe telefonou. E, entre os europeus, a França tem-se esforçado por manter laços com Haftar.

Com vastas reservas petrolíferas, a Líbia exporta hoje dois terços daquilo que era tradição. E sobretudo os petrodólares chegam pouco à população, ao contrário do tempo de Kadhafi, que financiava um generoso sistema de saúde e de educação que fazia da Líbia o país de África com maior índice de desenvolvimento.

Para se entender o impacto de Kadhafi na história deste país norte-africano é importante notar que quando chega à independência em 1951, após sucessivas colonizações turca, italiana e franco-britânica, a Líbia era miserável. Em 1961, o início da exportação de petróleo traz uma fonte de riqueza, mas o rei Idriss continua a ignorar as necessidades do povo. E é contra a monarquia que um grupo de jovens oficiais se revolta em 1969, tomando o poder. O novo regime é inspirado nas ideias pan-arabistas do egípcio Nasser, mas depressa tomará características próprias, com Kadhafi a personalizar cada vez mais o Estado.

Desejoso de ser revolucionário toda a vida, Kadhafi criou uma república especial, mas por trás de um aparente processo de decisão coletiva todo o poder recaía sobre si, mesmo que se mantendo coronel. No plano externo foi acusado de apoiar o terrorismo e de fomentar revoluções, sobretudo em África. Aliás, foi por ter falhado numa intervenção militar no Chade nos anos 1980 que Haftar caiu em desgraça e acabou por se tornar, no exílio, o inimigo número um.

Nos anos imediatos antes da queda, Kadhafi conseguiu recuperar certa respeitabilidade na Europa, com visitas a vários países, incluindo Portugal. Desistira em 2003 do programa de armas de destruição maciça, atento ao destino de Saddam. O dinheiro líbio atraía então empresas ocidentais e, apesar das suas bizarrias, Khadafi começava a gozar de simpatias e não faltavam até políticos europeus nas suas festas em Trípoli.

A revolta contra Kadhafi começou em fevereiro de 2011 em Benghazi, cidade da Cirenaica que nunca aceitou muito bem o ditador. E houve desde o início a influência de elementos conservadores religiosos. Contudo, sem a intervenção da NATO em março dificilmente os rebeldes teriam sido bem-sucedidos. Entre os instigadores da ação estiveram o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron.

A Rússia, que ao abster-se de usar o seu direito de veto na ONU deu luz verde à operação, cedeu às pressões dos países árabes e acreditou numa interpretação restritiva no sentido de a NATO usar a sua aviação meramente para evitar a destruição das forças rebeldes. Foi enganada.

Cameron e Sarkozy, que visitaram Trípoli em finais de 2011 como libertadores, estão já fora da política, mas o presidente turco Recep Erdogan, que também foi a Trípoli colher louros, continua no ativo. Ora, a Turquia, que inspirou a Primavera Árabe como exemplo de país muçulmano e democrático, prepara-se para enviar tropas para a Líbia em apoio do governo reconhecido pela ONU.

A ideia dos turcos é aliviarem no mínimo a pressão sobre Trípoli, que Haftar continua ocasionalmente a bombardear. As tropas do marechal conquistaram nas últimas semanas Sirte, a cidade natal de Kadhafi, e puseram assim maior pressão sobre Misrata e Trípoli.

Sirte, que chegou a estar sob controlo de uma célula obediente ao Daesh, une-se agora ao antigo inimigo de Kadhafi cujo principal apelo é prometer um regresso à normalidade que existia na era kadhafiana. Mas o marechal, que acusa o governo de Trípoli de ter apoios islamitas, passou a ter o apoio de confrarias islâmicas ultraconservadoras.

Com receio de se enfrentarem como na Síria, turcos e russos estão já a dialogar sobre a Líbia. Vladimir Putin conseguiu mesmo organizar em Moscovo uma ronda negocial com a Al-Sarraj e Haftar, mas sem sucesso. Nova ronda negocial, patrocinada pela Alemanha, está prevista para Berlim. O objetivo é acabar com um caos que parece o do Iraque pós-Saddam. E que contamina a vizinhança africana, sobretudo o Sahel inundado de armas, e ameaça a Europa por causa do tráfico humano crescente por parte das redes de emigração ilegal.

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