Adelino Maltez: "Como não há sinais de apodrecimento do PS, o PSD está em crise"

Entrevista ao politólogo José Adelino Maltez a propósito da segunda volta das diretas no PSD.

O PSD nasceu como um partido social-democrata mais à esquerda mas derivou para um partido de direita?
O regime político português é um regime que só tem centro, centro de esquerda e centro de direita. O PS e o PSD são espelho, um do centro-esquerda e outro do centro-direita. Vivem de um eleitorado de um milhão de tipos bailarinos, que ora puxam para um lado ou para o outro, em 80% das opções dos portugueses. O que acontece neste momento é uma reorganização do PSD perante o êxito do centro-esquerda, que é o PS e António Costa. Isto de vez em quando acontece, já aconteceu com o próprio PS que entrou numa crise profundíssima quando o PSD estava no seu auge. O que significa que qualquer destes dois blocos só não está em crise quando o outro apodrece. Como não há sinais de apodrecimento do PS, naturalmente o PSD está em crise, mas dentro mesmo bloco que é assimétrico.

O PSD é o partido que teve mais líderes, houve algum deles que encostou o partido mais à direita? Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho?
Cavaco teve uma governação que o levou a ter um grande crescimento à direita, mas os estudos feitos sobre os votos que recebeu vieram do PS, do PCP. Era multilateral.

Carisma?
Não. Teve êxito, vendeu o produto e a imagem. Foi recebido pela população, mas tanto virou à direita como à esquerda e foi até às profundezas do eleitorado comunista.

E Passos Coelho, o líder mais à direita?
Ele até era mais à esquerda dentro do PSD, mas depois foi um desastre comunicacional. Se se perguntar aos portugueses, toda a gente diz que Passos é que nos trouxe a troika e é quem nos levou à austeridade, o que não corresponde à verdade.

Mas ele não desviou a matriz do partido?
Não. A matriz do partido é a do oportunismo, são partidos interclassistas, quer o PSD quer o PS.

Dos dois candidatos à liderança que vão à segunda volta neste sábado, Rui Rio e Luís Montenegro, consegue distinguir entre eles alguma diferença programática e ideológica?
Absolutamente nenhuma. Luís Montenegro está sempre a vender o mesmo produto que Rui Rio. Não há um mais à esquerda nem outro mais à direita.

Mas os dois candidatos têm uma postura completamente diferente em relação ao PS e ao governo. Rui Rio quer uma "oposição construtiva", sem ruturas, e Montenegro oposição firme. É por aqui a diferença entre ambos?
Lengalenga de marketing. O que Montenegro diz, que tem a herança de Passos Coelho e é cavaquista mais profundo do que Rui Rio é só conversa tática. O PSD vai afirmar-se se o sistema se mantiver e o PS cometer muitos erros.

De outro modo...
Se o PS não cometer muitos erros, repete a dose.

Ou seja, a probabilidade de o PSD perder as próximas eleições autárquicas é grande?
É bastante grande. Até porque como vão ganhar as eleições presidenciais com Marcelo, a falta de elites que agora afetou esta luta interna no PSD vai ser descompensada totalmente quando for a campanha presidencial. Afinal vai ver-se que o PSD tinha muitas elites que estavam escondidas e que só vão aos jantares e almoços se ganharem com Marcelo.

As elites só aparecem quando têm uma perspetiva de vitória?
Sim. Agora como Rio ameaça perder não aparecem. Vai fazer que o partido se sinta compensado com as eleições presidenciais e não se mobilize nestas lutas internas.

Mas será importante para o PSD voltar a implantar-se no poder autárquico?
São os dois. PS e PSD têm 81% dos lugares autárquicos.

Mas os novos partidos são uma ameaça para o PSD?
Mesmo que um Chega consiga 10% é um fenómeno passageiro. é a repetição do Marinho e Pinto. O sistema só rebentará como em França, Itália e Espanha quando outros dados emergirem. Somos conservadores deste sistema bipolar.

Que dados são esses?
O eleitorado ir às urnas e reduzir o PS e o PSD a 10% e isso pode acontecer.

Após a primeira volta no PSD, consegue perceber-se quem vai sair vencedor nesta segunda volta?
Não, percebo que o PSD mobiliza menos do que o Sporting... Em princípio ganha Rui Rio.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG