Médio Oriente

2003-2019. A ascensão e a queda do Estado Islâmico

Milhares de mortos depois, a derrota do autoproclamado Estado Islâmico parece iminente. Depois do Iraque, agora na Síria, onde os últimos combatentes estão encurralados no enclave de Baghouz.

Terroristas do Estado Islâmico encontram-se encurralados num enclave na Síria e, ao que tudo indica, está para breve a proclamação do seu fim. Fazendo milhares de mortos, não só no Iraque e na Síria mas também em países como França, Alemanha e Espanha, por exemplo, o grupo terrorista islâmico de inspiração sunita espalhou medo, terror, ódio e derramou sangue de inocentes ao longo dos últimos anos.

Sucessor da Al-Qaeda do Iraque, aproveitou a brecha dos protestos da Primavera Árabe contra Bashar al-Assad para se expandir para a Síria, obrigando a bombardeamentos de uma coligação internacional liderada pelos EUA e a uma perseguição às suas fontes de financiamento, como o petróleo, por exemplo, mas também aos seus apoiantes. Várias vezes se referiu a Arábia Saudita. E países do Golfo.

Na Síria, os habitantes sempre os encararam como mercenários, que vêm e vão, enquanto há dinheiro. Depois desaparecem. Milhares de europeus juntaram-se aos terroristas do Estado Islâmico. Uns morreram. Outros voltaram a casa. Outros querem voltar e não os deixam. Outros estão presos e poderão vir a ser julgados em tribunais ocidentais. É, pelo menos isso, que defende o presidente dos EUA, Donald Trump. E foi, nesse sentido, que neste domingo apelou à Europa para que receba 800 jihadistas. Caso contrário, sublinhou, a alternativa será libertá-los.

2003
Na sequência da invasão norte-americana do Iraque, em 2003, a Al-Qaeda no Iraque mudou o nome para Estado Islâmico do Iraque em 2006. Nesse ano foi morto pelos norte-americanos o líder da Al-Qaeda no Iraque, o jordano Abu Musab al-Zarqawi, tendo sido sucedido pelo iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi. Este chegou a ser prisioneiro dos EUA no Iraque. Na controversa prisão de Abu Ghraib e também em Camp Bucca. Mas acabou por ser libertado como "prisioneiro de baixo risco", segundo notícia do New York Times, de 2014. Natural de Samarra, Al-Baghdadi foi capturado em Fallujah, sendo o seu paradeiro incerto, até hoje, numa altura em que se prepara o anúncio da derrota total dos terroristas do Estado Islâmico.

2011
Aproveitando a revolta na Síria contra o regime do presidente Bashar al-Assad, no âmbito da chamada Primavera Árabe, Al-Baghdadi enviou alguns dos seus operacionais estabelecer uma espécie de filial do grupo terrorista islâmico sunita em território sírio. Dois anos após o início do conflito na Síria, que até hoje já fez 12 milhões de mortos, refugiados e deslocados internos, Al-Baghdadi mudou o nome do grupo terrorista para Estado Islâmico do Iraque e do Levante.

Nalguns países ocidentais, como por exemplo a França, o grupo sempre foi apresentado como Daesh, ou seja, uma sigla que resulta da junção das letras do nome inicial do grupo em árabe, que era Al-Dawla al-Islamiya fil Iraq wa al-Sham. Ao chamar-se Estado Islâmico, o grupo pretendia, eventualmente, vir a ser reconhecido como um Estado independente. Segundo consta, os seus líderes não gostavam da sigla Daesh por, alegadamente, considerarem que era pejorativo e, de acordo com a NBC, ameaçaram mesmo cortar a língua a quem falasse em Daesh.

2014
Neste ano representou o auge da influência do Estado Islâmico, que começou por conquistar Fallujah, no Iraque, depois Raqqa, na Síria. Os terroristas conquistaram Mossul, no norte do Iraque, depois Tikrit, cidade natal do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, onde ficou também sepultado após a sua execução por enforcamento a 30 de dezembro de 2006. Na grande mesquita de Mossul, em julho de 2014, Al-Baghdadi voltou a mudar o nome do grupo terrorista para Estado Islâmico e proclamou um califado.

Começou então o reinado do terror. Na Síria foram massacrados centenas de membros da tribo Al-sheitaat. No Iraque, milhares de yazidi foram massacrados no Monte Sinjar. Milhares de mulheres e raparigas, estima-se cerca de sete mil, foram transformadas em escravas sexuais, violadas e comercializadas como gado. Uma delas, Nadia Murad, recebeu, em 2018, o Prémio Nobel da Paz. "Violavam-nos sem culpa, como se fosse uma coisa natural", disse a jovem, que conseguiu fugir e escreveu um livro.

Na internet, a partir de fóruns e sites usados pelos jihadistas para comunicar entre si e difundir propaganda, começaram a surgir vídeos com decapitações de reféns. Ocidentais e não só. Foi o caso, por exemplo, do jornalista norte-americano James Foley, do trabalhador humanitário britânico David Haines e de 21 cristãos egípcios raptados na Líbia. Os vídeos das decapitações tornaram-se autênticas produções cinematográficas. No dos egípcios os reféns surgem vestidos de fato-macaco cor de laranja, uma alusão à farda dos presos dos EUA, ajoelhados numa praia, com uma faça encostada à garganta. Cada um tem o seu próprio carrasco. Vestido de preto.

Fartos de ver estas imagens a circular e a propaganda do Estado Islâmico sempre a crescer, os EUA, ainda liderados por Barack Obama, lançaram uma coligação internacional para bombardear as posições do Estado Islâmico. Em paralelo armaram as Unidades de Proteção Popular, milícias curdas conhecidas pela sigla YPG, que, em Kobani, lutaram para afastar os terroristas daquele grupo da fronteira com a Turquia. Apesar de a proteção do território turco ser também do seu interesse, o presidente Recep Tayyip Erdogan, alvo de um golpe de Estado falhado em 2016, sempre criticou o apoio que fora dado pelos Estados Unidos a estas milícias curdas.

2015
Dois irmãos terroristas inspirados pelo Estado Islâmico atacaram o semanário satírico Charlie Hebdo, em Paris, a 7 de janeiro de 2015. Mataram dois polícias e uma parte da redação do jornal, conhecido por desafiar os extremistas, com cartoons a satirizar o profeta Maomé. Jean Cabut, Stéphane Charbonnier, Philip Honoré, Bernard Velhac e Georges Wolinski foram os cartonistas assassinados com tiros de Kalashnikov. Nos dois dias seguintes, um terceiro terrorista matou mais uma mulher-polícia e quatro reféns de um supermercado kosher.

O balanço total foi de 17 mortos. Em choque, milhões de pessoas, em França e noutras partes do mundo, saíram às ruas para condenar o terrorismo e gritar Je suis Charlie. Em novembro, o terror regressou a solo francês, com o ataque ao Bataclan, à zona noturna do norte de Paris e ao Stade de France. 130 pessoas morreram. 90 delas estavam no Bataclan. Um português, Manuel Colaço Dias, de 63 anos, morreu junto ao estádio, quando o suicida detonou a bomba.

Em maio de 2015, terroristas do Estado Islâmico tomam Ramadi, no Iraque, bem como a cidade histórica de Palmira, na Síria. Causam danos significativos em ruínas classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade. Mas no final do ano já tinham grandes dificuldades em controlar estes bocados de terra em ambos os países árabes. Ocidente e seus aliados lançaram uma guerra ao financiamento do EI, tendo a Arábia Saudita e outros países do Golfo sido acusados, várias vezes, de financiar o grupo. Também a Turquia foi acusada de comprar petróleo ao Estado Islâmico. Apesar de o regime de Erdogan o ter desmentido. Entretanto, na Síria, a Rússia intervinha contra o Estado Islâmico, em apoio do regime de Assad, tal como o Irão. Cada um protegendo, obviamente, os seus interesses específicos. E estratégicos.

2016
A 14 de julho deste ano, em plena celebração do seu feriado nacional, a França voltou a ser atacada mais uma vez. Desta vez em Nice. Um terrorista conduzindo uma carrinha frigorífica entrou a alta velocidade pelo Passeio dos Ingleses, onde a multidão assistia ao fogo-de-artifício, matando 86 pessoas e deixando 458 feridas. 43 das vítimas eram francesas e as outras eram de outras 18 nacionalidades. Pelo menos dez dos mortos eram crianças. Os ataques por atropelamento, numa altura em que o cerco das autoridades europeias aos apoiantes e simpatizantes do Estado Islâmico apertava, tornaram-se cada vez mais frequentes. Alguns dos envolvidos em atentados foram para a Síria e voltaram, depois, para a Europa.

A 19 de dezembro de 2016, um camião entrou pelo mercado de Natal na Breitscheidplatz, em Berlim, na Alemanha. 12 pessoas morreram. Ao volante vinha um tunisino a quem tinha sido recusado asilo político. Isto acentuou, ainda mais, o debate em torno dos migrantes e refugiados na Alemanha, numa altura em que a chanceler alemã, Angela Merkel, já estava debaixo de fogo por ter aberto a porta a 1,5 milhões de estrangeiros. Muitos eram refugiados fugidos da guerra na Síria. Mas não só. A campanha anti-imigração levou à subida da extrema-direita na Alemanha. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) foi o terceiro mais votado nas legislativas de 24 de setembro de 2017.

Em junho de 2016, as forças de segurança iraquianas recapturaram Fallujah e, em agosto, as Forças Democráticas Sírias retomaram Manbij. Alarmada pelos avanços das milícias YPG, a Turquia lançou uma intervenção, em simultâneo contra as milícias curdas e contra o Estado Islâmico. A oposição entre o regime de Ancara e os curdos das YPG iria dificultar ainda mais as operações contra o Estado Islâmico.

2017
Neste ano o Estado Islâmico sofreu derrotas significativas. Em junho perdeu Mossul, no Iraque, após meses de conflito com as forças iraquianas. O governo de Bagdade declarou o fim do califado e a derrota do Estado Islâmico no Iraque. Em setembro, com o apoio da Rússia e do Irão, as forças sírias leais ao regime de Bashar al-Assad conseguiram empurrar o Estado Islâmico para fora de Deir ez-Zor e, em outubro, de Raqqa. Antes disso, o novo presidente dos EUA, Donald Trump, tinha mandado bombardear com mísseis Tomahawk posições do regime sírio, acusado pela oposição e por organizações internacionais de usar armas químicas contra a sua própria população civil. Ultrapassara a linha vermelha. Trump aproveitou a oportunidade para criticar Obama, por nada ter feito contra Assad, apesar do uso de armas químicas.

Apesar de tudo, o Estado Islâmico continuou a atacar o ocidente, sobretudo a Europa, sempre que conseguiu. A 22 de maio de 2017, um bombista-suicida fez-se explodir num concerto de Ariana Grande, na Manchester Arena, fazendo 33 mortos e 139 feridos. O ataque foi prontamente reivindicado pelo Estado Islâmico, que glorificou como "soldado do califado" o terrorista, um jovem britânico de origem líbia com apenas 22 anos. Este foi o pior atentado terrorista em Londres, desde os ataques de 2005, na altura reivindicados pela Al-Qaeda.

A 17 de agosto de 2017, 13 pessoas morreram e 130 ficaram feridas num atropelamento em massa nas Ramblas, em Barcelona, Catalunha. Também neste caso foi o pior ataque terrorista em Espanha desde os atentados de 11 de março de 2004 em Madrid. Entre as vítimas mortais deste atropelamento estão duas portuguesas. Avó e neta, respetivamente com 74 e 20 anos, tinham ido passar férias a Barcelona e encontravam-se a passear nas Ramblas. Como qualquer turista. Por causa desta tipologia de ataques, foram colocadas barreiras de betão à porta das principais embaixadas ocidentais, bem como nos acessos a eventos ao ar livre com grandes concentrações de pessoas, aumentaram as revistas policiais, como aconteceu por exemplo na Passagem de Ano no Terreiro do Paço em Lisboa.

2018
O regime sírio recuperou o controlo dos enclaves de Yarmuk, a sul de Damasco, bem como a zona na fronteira com os Montes Golã. As Forças Democráticas Sírias avançaram em direção ao Eufrates e as forças iraquianas retomaram o controlo do resto da zona de fronteira. O presidente dos EUA anunciou a retirada das forças norte-americanas da Síria e a derrota iminente do Estado Islâmico. A sua administração clarificou entretanto que retirada dos norte-americanos será progressiva.

2019
Últimos combatentes do Estado Islâmico cercados pelas Forças Democráticas Sírias num enclave do Eufrates em Baghouz. "Estamos a avançar devagar porque há milhares de civis a ser usados como escudos humanos. Mas dentro de dias iremos dar a boa notícia a todo o mundo, a todas as pessoas da região, curdos, árabes, assírios, de que os militares acabaram com o EI", declarou o comandante das Forças Democráticas Sírias leais ao regime do presidente sírio Bashar al-Assad, Chia Kobani, num briefing à imprensa, citado neste sábado pela CNN.

A fase seguinte do combate ao grupo terrorista, frisou o comandante, é combater as células adormecidas do EI. Grupo terrorista islâmico sunita, o autoproclamado Estado Islâmico, chegou a controlar uma área equivalente à Grã-Bretanha, ou seja, 209 mil quilómetros quadrados, no Iraque e na Síria, abrangendo cerca de dez milhões de pessoas. O equivalente a toda a população de Portugal. Hoje em dia, referiu Chia Kobani, controla menos de mil metros quadrados, à volta de setecentos metros quadrados. O que é menos do que o tamanho de um campo de futebol.

Iminente então a proclamação da derrota do Estado Islâmico, sem se saber, até agora, onde está Abu Bakri al-Baghdadi, a discussão prepara-se para passar para o nível de saber o que fazer com os cidadãos europeus que se juntaram ao grupo terrorista islâmico no Iraque e na Síria. Shamina Begun, cidadã britânica hoje com 19 anos, é um desses casos. Apelidada de "noiva do Estado Islâmico", estava grávida, tendo a família comunicado neste domingo que ela já deu à luz, um rapaz, num campo na Síria. O atual ministro do Interior britânico, Sajid Javid, conservador e muçulmano, já fez saber que "bloqueará" o regresso da jovem a território do Reino Unido.

No auge do Estado Islâmico, o grupo terrorista chegou a contar com 40 mil combatentes oriundos de países estrangeiros, entre os quais Rússia, Arábia Saudita, Tunísia, França, Marrocos, Alemanha, Jordânia, Reino Unido, Usbequistão, Turquia, Reino Unido e, até mesmo, Portugal. Neste domingo, o presidente dos EUA, através do Twitter, pediu aos países da Europa, Reino Unido incluído, que recebam 800 combatentes do Estado Islâmico capturados na Síria, para que estes possam ser levados a julgamento. Pois a alternativa, sublinhou, não é boa. Ou seja: "Podemos ser forçados a libertá-los." No passado, em plena discussão sobre o que fazer com os prisioneiros de Guantánamo, vários países da UE, mas não todos, aceitaram receber ex-detidos. Portugal, por exemplo, recebeu dois sírios em 2009.

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