Goa e Macau

Valentino Viegas é historiador. E também um goês que estava em Pangim quando a União Indiana invadiu o antigo território português, faz hoje exatamente 60 anos. Por isso é duplamente interessante ler o ensaio que assina no DN, e que percorre seis décadas, desde aquele dia em que Nehru se cansou de ser pacifista (e Salazar percebeu pela primeira vez que mais de quatro séculos de presença não garantiam a soberania de Portugal) até à atualidade, em que indianos e portugueses se orgulham das excelentes relações.

Como explica Valentino Viegas, já havia uma Goa muito antes da conquista por Afonso de Albuquerque. Mas é indesmentível o protagonismo que o pequeno território indiano teve durante os primeiros séculos de presença portuguesa, quando religiosamente ganhou o estatuto de Roma do Oriente e o do ponto de vista político o seu vice-rei exercia autoridade sobre uma multitude de praças que iam da ilha de Moçambique a Macau.

E por falar nesta última, essa Macau que foi a primeira possessão europeia na China e também a derradeira, com a sua restituição à soberania chinesa a fechar um ciclo imperial iniciado em 1415 com a tomada de Ceuta, sempre sou tentado a fazer comparações com Goa.

Sei bem das diferenças: a Índia à qual Vasco da Gama aportou em 1498 era uma manta de retalhos não só a nível religioso e étnico como também político. Só mais tarde Babur, vindo da Ásia Central, criaria o Império Mogol; já a China do século XVI era um colosso sob domínio dos Ming e portanto muito mais impermeável a influências estrangeiras. Macau teve de ser obtida por negociação em 1557, não por conquista como aconteceu com Goa em 1510. E a presença portuguesa sempre foi mais ténue na foz do rio das Pérolas que nas margens do Mandovi.

Mas também sei que a história levou a saídas diferentes: Portugal nunca aceitou negociar com a Índia e até foi conquistando algumas pequenas vitórias diplomáticas antes de 1961, quando Nehru se decidiu pela anexação pela força, consciente de que a guarnição portuguesa não estava em condições de resistir (também o governador Vassalo e Silva o percebeu e por isso recusou a ordem de Salazar de combater até ao último homem), mas depois limitou-se a aceitar a mesma realidade que levara os britânicos a sair em 1947 e os franceses a entregarem as suas possessões pouco depois. As famílias goesas viram os filhos repartirem-se por duas pátrias, com os que ficaram a viver sob a bandeira indiana a pouco e pouco deixarem de passar a língua portuguesa aos filhos e aos netos e a refugiarem-se no inglês.

Noutra época, bem mais próxima, um Portugal democrático e já sem colónias, negociou pacientemente com a China e foi possível um acordo que garantiu a cooficialidade do português durante meio século, apesar de em Macau nunca a nossa língua ter tido o vigor que teve em Goa. Ou seja, percebemos que havia alternativas teóricas ao simplismo de querer resistir sem ter meios para tal. Se uma negociação entre Salazar e Nehru teria sido possível não sei dizer e provavelmente os estudiosos da época dirão que tudo os opunha, mas quantas surpresas nos trouxe já a história de entendimentos entre opostos. Talvez assim O Heraldo, que nasceu em 1900 e adotou o inglês em 1983, não se limitasse hoje a uma corajosa página em português, que muitas vezes é assinada pelo próprio Valentino Viegas.

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