O trono dos memes e o rei da quarentena

Tiger King não é ficção, mas o seu problema não é não ser ficção: é comportar-se como se o único aspecto interessante de tudo fosse o facto de não ser ficção.

Em Maio de 2019, há cerca de quinhentos anos, quando Guerra dos Tronos se aproximava do fim, várias pessoas ensaiaram a hipótese de estarmos perante o último artefacto televisivo global: a derradeira experiência colectiva em que toda a gente, em toda a parte, queria ver a mesma coisa ao mesmo tempo, sem que houvesse um evento desportivo metido ao barulho. Era uma profecia cultural bastante promissora nesses tempos inocentes, em que ninguém adivinhava um futuro próximo no qual o desporto entrasse em hibernação global, e milhões de pessoas em todos os continentes passassem as noites a olhar para gráficos com curvas por achatar.

Na nervosa transição para os primeiros dias de confinamento, a programação televisiva mundial sofreu alguns episódios de concertação espontânea cada vez mais raros na época das grelhas personalizadas. Podia ser quinta-feira e toda gente estar a ver o mesmo vídeo de italianos a cantar na varanda; ou podia ser domingo, e as mesmas pessoas decidirem transferir a sua atenção para um sociopata oxigenado a simular música country rodeado de felinos nas profundezas do Oklahoma.

Tiger King foi a série documental que a Netflix lançou para comemorar oficiosamente os estados de emergência. O putativo protagonista é Joe Exotic, exótico veterano de outros formatos (podcasts, noticiários, reportagens longas na Texas Monthly e New York Magazine), empresário, criminoso, polígamo, apreciador de metanfetamina, portador de bijuteria facial, praticante de karaoke, ex-candidato a presidente, e dono de uma dessas típicas curiosidades americanas: a atracção turística à berma da estrada. Em vez de um circo de pulgas amestradas ou uma reserva natural de Cadillacs avariados, Joe Exotic decidiu abrir um museu de tigres vivos, recheado de funcionários toxicodependentes e ex-presidiários. A sua antagonista é Carol Baskin, que lidera uma campanha contra jardins zoológicos privados, e que Joe acusa, entre outras coisas, de ter assassinado o ex-marido e transformado o cadáver em ração de felino. Entre os restantes participantes, contam-se vários mutilados, desdentados, pessoas cuja maquilhagem parece ter sido aplicada com trinchas, ou cujos cortes de cabelo parecem resultado de tiros de canhão. Há um funcionário a quem um tigre arranca a mão à dentada. Há um guru new age com pseudónimo hindu e um harém de nove esposas. Há subenredos sobre optimização de motores de busca e organização de orgias. Há toneladas de carne fora de prazo. Há uma explosão, uma tentativa de assassinato, um suicídio, e uma elegia fúnebre que inclui a frase "ele adorava esfregar os tomates na minha cara quando eu escrevia e-mails a senadores".

São mais ou menos seis horas de bizarria não filtrada e excentricidade de aluguer, que se assemelham ao produto caótico de uma inventividade descontrolada (aquilo que alguma crítica literária do início do século costumava chamar "realismo histérico"). O modo primário é o excesso: a entusiástica acumulação de vinhetas de manicómio, subdivididas em micropeças de teatro do absurdo. O elenco de Tiger King parece ficcional - exilados fortuitos de várias facções literárias especializadas (os inocentes perplexos de Charles Portis, os criminosos incompetentes de Elmore Leonard, os fanáticos estropiados de Flannery O"Connor, os excêntricos desenrascados de Carl Hiaasen). Tiger King não é ficção, mas o seu problema não é não ser ficção: é comportar-se como se o único aspecto interessante de tudo aquilo fosse precisamente o facto de não ser ficção. A perspectiva tácita que o programa adopta não é a de uma omnisciência parcial a explorar e organizar o que acontece, tornando a sua observação parte do tema, mas a de um acotovelamento constante ao espectador: "Já viram bem esta coisa esquisita que aconteceu mesmo?"

Como "documentário", o género a que supostamente pertence, seria um fracasso parcial: a única coisa que lhe interessa é aquilo que é interessante, e, embora seja impossível negar-lhe esse atributo, poucas vezes a palavra "interessante" terá carecido de tantos asteriscos e notas de rodapé. Mas, mais do que um documentário, Tiger King é um híbrido (possivelmente acidental) com outro formato nobre: o reality show. Apesar dos exaltados valores de produção - longos planos filmados por drone, escolhas musicais imaculadas -, o grosso do material é repescado dos arquivos de Joe Exotic, que dá a ideia de ter tido uma câmara por perto durante grande parte da vida.

Embora não tenha forma, nem faça o mínimo esforço de organização narrativa, Tiger King acaba por absorver os ritmos típicos do reality show, apenas e só porque está perante nativos dessa ecologia: pessoas que dedicam todas as suas energias a "ser como são", a "dizer o que pensam", e a construir as versões mais impulsivas e amplificadas de si próprias, alicerçadas em toda a televisão que veio antes delas. São identidades coerentes, mesmo que mediadas: com a sua frontalidade, as suas tatuagens, os seus longos monólogos de auto-justificação - e as suas inimizades semi-imaginárias, pois, apesar de o mundo que habitam estar repleto de causas e consequências, as primeiras são tão dramatizadas que as segundas nunca parecem inteiramente reais. Um incêndio ou um tiro na cabeça são meras mudanças de capítulo.

É um dos efeitos secundários dos reality shows, e é um dos efeitos dissonantes de Tiger King, que reduziu os limites do exercício a "esta maluquice é real". É um estilo de olhar que exalta e reduz em simultâneo - eis algo que merece a máxima atenção e não tem a mínima importância - e portanto convoca um estilo de atenção cujo único propósito é multiplicar-se em reacções efémeras: um mecanismo para produzir memes, gifs e a ocasional mercadoria (a internet confirma que é possível adquirir t-shirts com o rosto de Joe Exotic e a legenda "Rei da Quarentena 2020" por 30 dólares mais portes de envio).

Um documentário melhor poderia ter explorado as várias patologias culturais e económicas em jogo, começando pela ilusão especificamente moderna de que a presença de uma câmara de televisão nos concede por defeito o carisma de um protagonista. O principal apelo de Joe Exotic (cuja transição de inofensivo chanfrado local para sociopata perigoso o espectador reconhece com menos hesitação do que a série) é talvez o modo como parece reconhecer intuitivamente a liberdade possível no estatuto intermédio entre herói da sua própria história e figurante anónimo nas histórias de outros: o actor secundário berrante e memorável, que decidiu que a intensidade da atenção é mais importante do que a sua conversão em aplausos ou apupos. Por um breve e glorioso momento, todos vimos aquele homem no seu palco - a disparar metralhadoras num quintal, a partilhar pizza com um macaco, a abater criaturas em extinção, a destruir hilariantemente algumas vidas reais - antes de voltarmos a fazer tweets e a cozer esparguete.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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