PSD. Acordo com o Chega nos Açores serve de balão de ensaio para 2023?

O acordo que o PSD fez com o Chega para formar o Governo Regional continua a gerar ondas de choque no partido. Há até quem peça um congresso extraordinário, como Jorge Moreira da Silva, pela "repulsa" que lhe causa. Mas os politólogos António Costa Pinto e Adelino Maltez admitem que o entendimento na região autónoma possa vir a ser um balão de ensaio para um eventual regresso ao poder do centro-direita nas legislativas de 2023.

"O acordo dos Açores coloca pela primeira vez os partidos da direita na mesma posição que o PS tinha em 2015, quando se entendeu com os partidos à sua esquerda para formar governo", lembra António Costa Pinto. E, admite, "automaticamente que a sua projeção nacional será óbvia e será o primeiro teste de alternativa política à direita do PS".

O politólogo entronca nesta ideia o posicionamento do líder do PSD, Rui Rio, sobre o partido de André Ventura quando admitiu o entendimento poderia ser possível caso existisse uma "moderação" do Chega. O que até não aconteceu, mas que já deu origem a um acordo de incidência parlamentar nos Açores para viabilizar um governo de coligação PSD-CDS-PPM, tendo também por parceiro o Iniciativa Liberal (IL).

Apesar de todas as vozes críticas que se levantaram entre sociais-democratas e centristas, o politólogo lembra que nunca houve até agora na direita a "mesma estigmatização" do Chega, como a que "marcou o PS com os partidos à esquerda, PCP e BE", mas que acabaram por se entender quando ninguém acreditava ser possível sob a batuta de António Costa.

O acordo dos Açores coloca pela primeira vez os partidos da direita na mesma posição que o PSD em 2015, quando se entendeu com os partidos à sua esquerda para formar Governo.

Só chegados a este momento em que foi preciso abraçar o Chega no arco do poder, nos Açores, é que os partidos de centro-direita, cada um à sua vez, tentaram assobiar para o lado e dizer que nada têm a ver com o partido que consideram de direita radical e populista. "Como o Chega ainda não teve o teste de ser um partido verdadeiramente importante, os partidos à direita têm todo o interesse em menosprezá-lo", mesmo que precisem dele para soluções de poder - o que deixa o PSD isolado com o peso nas costas de toda a censura política.

"Até às eleições, os partidos à direita vão obviamente entrar numa dinâmica de relativa demarcação uns dos outros para maximizar os resultados eleitorais", frisa António Costa Pinto. E vê o PSD a aproximar-se sobretudo do CDS, porque "tem todo o interesse que se mantenha como o polo mais ativo de potenciais coligações à direita".

O meteoro André Ventura continua e vai aproveitar todo o que ganhou nos Açores para jogar no processo político nacional. Ele mostra como quer destruir o 'sistema' com um pé no 'sistema'.

Mais do que o pingue-pongue da críticas ao acordo do PSD-Açores com o Chega, o politólogo José Adelino Maltez frisa que os resultados do IL e do Chega na região autónoma mostram que há uma parte da sociedade açoriana, essencialmente micaelense, que está com as antenas voltadas para Lisboa e apenas meia dúzia de pessoas, desses partidos, conseguiram replicar nas ilhas o que aconteceu a nível nacional nas últimas eleições legislativas, ou seja, eleger deputados regionais. No caso do IL, um, e do Chega dois, mais um do que para a Assembleia da República, onde André Ventura é o único representante - o que os tornou "essenciais" para uma geringonça de direita.

Também José Adelino Maltez admite que o acordo regional possa vir a ser replicado daqui a três anos nas eleições para a Assembleia da República, caso o centro-direita consiga ter mais votos do que a esquerda. "O meteoro André Ventura continua e vai aproveitar todo o que ganhou nos Açores para jogar no processo político nacional. Ele mostra como quer destruir o 'sistema' com um pé no 'sistema'."

"Repulsa" e "envenenamento"

É certo que este acordo nos Açores fez tocar as campainhas em vários setores do PSD e do CDS. A mais recente censura partiu do antigo líder da JSD e antigo vice-presidente do PSD Jorge Moreira da Silva, que admitiu sentir "repulsa" pela solução de viabilização do Governo Regional dos Açores com o auxílio do Chega. Defendeu mesmo que é preciso um congresso extraordinário para reafirmar os valores e os princípios que norteiam a social-democracia.

Num artigo publicado no jornal Público, o antigo ministro de Passos Coelho fala de traição aos valores do partido e pede a realização de um congresso extraordinário a tempo das autárquicas e das legislativas.

Moreira da Silva considera que a solução governativa para os Açores é uma alteração radical do posicionamento ideológico do partido, o que, afirma, se trata de uma "traição" aos valores e aos princípios sociais-democratas.

O antigo ministro de Passos Coelho defendeu que quem ganha deve governar e lembra que foi contra a solução da geringonça, em 2015. Os maus exemplos dos outros não devem ser imitados, argumenta. Para o antigo dirigente do PSD, não se fazem acordos com partidos "xenófobos" e "racistas", nem negociações ou sequer conversas formais ou informais.

À voz de Jorge Moreira da Silva já se tinham juntado as de Pacheco Pereira, que tinha considerado que o acordo como Chega "vai envenenar o PSD e a política nacional". No programa a Circulatura do Quadrado, da TVI, o antigo deputado social-democrata manifestou "vergonha" de ver André Ventura a elogiar Rui Rio na Assembleia da República.

Qualquer acordo com o Chega não se contém nos Açores, como se viu. É sempre um acordo de natureza nacional.

"Qualquer acordo com o Chega não se contém nos Açores, como se viu. É sempre um acordo de natureza nacional", disse o comentador, que foi dos apoiantes de primeira linha de Rui Rio. Pacheco Pereira frisou ainda que o Chega "não é um partido vulgar de extrema-direita, mesmo que fosse, já era bastante para que um partido democrático como o PSD não o apoiasse". "O Chega é um partido de extrema-direita com uma dinâmica eleitoral e política forte que corresponde a uma mudança significativa nos partidos de extrema-direita e populistas na Europa. Um Partido Social-Democrata não faz nenhuma espécie de acordo com um partido de extrema-direita", reforçou.

Também no Público, um conjunto de personalidades de centro-direita subscreveram um abaixo-assinado em que se insurgem contra a "direita autoritária", sem mencionar o Chega, mas com a mira no partido de André Ventura e no acordo que foi celebrado nos Açores. Entre os signatários estão o antigo vice-presidente da bancada parlamentar do PSD José Eduardo Martins e o centrista e antigo secretário de Estado do Turismo do Governo PSD-CDS, Adolfo Mesquita Nunes.

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