A deriva da América Latina

Em 1980, quando a Guerra Fria marcava a situação das metades em que se dividia a Europa, a Alemanha, Berlim, com consequências no Terceiro Mundo em processo de consolidação dos resultados do fim do colonialismo ocidental, na América Latina, a outorga do Prémio Nobel da Paz ao presidente Óscar Arias, da Costa Rica, pareceu um marco para o avanço da política de paz e democratização da América Latina.

Foi nessa perspetiva que o movimento se mostrava confiante por terem desaparecido os ditadores na Argentina e no Brasil, e aqui na Europa, países com histórica ligação à América Latina - Portugal, Espanha e Grécia - integrariam a União Europeia. Não foram necessários muitos anos para o desastre Venezuela, da responsabilidade original de Hugo Chávez, uma ressurreição do eucrata que parece estar a multiplicar-se, e que ambicionou projetar a sua influência e pregação na região, causando a decadência da Organização dos Estados Americanos (OEA), de inspiração democrática, não tendo obtido resultados pacificadores do movimento os esforços por exemplo do chamado Grupo de Lima.

A crise da Venezuela, um dos dramas da nossa época, tem animado movimentos de modernização da vida habitual, visando repor e reforçar os direitos e as aspirações da juventude, das mulheres, consolidando a garantia da cidadania. Não é uma cooperação bem-vinda a política do muro que pelo menos desde 2016 o presidente Trump transformou em conceito estratégico fundamental do seu populismo nacionalista. No lugar da política tradicional de, pela diplomacia em busca de influência, ou da imposição pelo poder do Estado americano, a política contra as migrações vindas do sul, talvez apoiada na discriminação étnica e cultural, se não levou à construção completa do muro, criou um muro à vizinhança geográfica das populações, consequências imprevisíveis para o futuro, e, talvez, para o interior se vier a ter importância a consciência de que 18% da população americana é de origem latina.

Os cerca de mil quilómetros de muro construídos podem deter os emigrantes frustrados, mas não podem garantir a confiança política dessa população no populismo que a adotou como tópico da corrida para o poder. Acontece, porém, quanto a esse sul da origem das migrações, que não pode deixar de ser recordada a previsão do abade Correia da Serra, no sentido de que caberia ao Brasil, no futuro, ser o inspirador de uma ordem humanista ao sul do continente. Foi pela época ligeiramente anterior ao Prémio Nobel ao presidente Óscar Arias, vigorando ainda no Brasil o governo de origem militar, que Luiz Inácio Lula da Silva, um operário com capacidade de liderança, organizou greves, fundou o Partido dos Trabalhadores, e, persistente para além das derrotas eleitorais, chegou à Presidência da República em 2002, e foi reeleito em 2006.

Independentemente do criticável, segundo a doutrina ocidental, processo jurídico que o levou à prisão, que teve um corolário na destituição da sua sucessora, e de um ano e meio de prisão sem terem sido esgotados os recursos pendentes, saiu em liberdade declarando - "saio sem cólera, porque aos 74 anos não tenho lugar senão para o amor no meu coração"; porém, de seguida lançou um ataque político que o professor Eduardo Mello, da Fundação Getúlio Vargas, analisou concluindo que "isso pode despertar sentimentos anti-PT e anti-Lula de uma parte da população, polarizando a sociedade, e fazer voltar o seu círculo de eleitores que se tinham afastado dele estes últimos dez anos". A explosão da luta verbal imediatamente se tornou violenta, entre os que o acompanham e os que detêm o governo.

O Brasil é tão decisivamente importante para a restruturação da ordem internacional, que a situação que se desencadeou não pode deixar de chamar à meditação os responsáveis pela competição mundial cada vez mais complexa. O populismo que domina a América Latina é apontado como visando atacar as desigualdades generalizadas. No Brasil aponta-se, a nível político, a influência evangélica, com perdas para a Igreja Católica. Mas o tema que avulta é o recuo democrático da América Latina, que põe em discussão se, não obstante o unilateralismo da preferência de Trump, não é necessário que a pergunta não se limite a averiguar se a questão é entre esse recuo e o avanço de Xi Jinping.

A América Latina foi, com ativos e passivos, uma construção europeia. Nas análises correntes não se destaca a intervenção empenhada da União Europeia, para conseguir que os valores ocidentais não estejam ausentes da necessária reformulação da ordem em declínio.

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