O semestre em que Macron faz duplo teste

Há várias formas de olhar para o liberal Emmanuel Macron e esta presidência francesa da União Europeia que se iniciou a 1 de janeiro, mas a mais provável é que jogue a favor do seu protagonismo, tanto interno como externo. Com eleições marcadas para abril, os franceses vão ter de escolher entre um candidato que vai estar sob os holofotes europeus, com um claro perfil de estadista ao fim destes cinco anos de mandato apesar da sua relativa juventude, e candidatos que lutam ainda para se apresentar como o representante inequívoco do seu campo político, algo que até acontece com Marine Le Pen, a dirigente da extrema-direita que em 2017 o enfrentou na segunda volta; a nível internacional, Macron assume a presidência dos 27 quase exatamente no momento da chegada ao poder de um novo chanceler, o social-democrata Olaf Scholz, o que significa que mantendo-se o eixo franco-alemão o presidente francês faz agora figura de parte mais experiente, o que não era o caso quando a democrata-cristã Angela Merkel governava a Alemanha.

Se as condições prévias têm tudo para beneficiar duplamente Macron, o jovem prodígio da finança que foi ministro da Economia de um governo socialista e se lançou à presidência no momento preciso em que esse campo político fraquejou, também trazem riscos. Terá de negligenciar um pouco a campanha eleitoral para responder às exigências da agenda europeia? Terá de ir a correr minimizar algo imprevisto de campanha afetando o envolvimento numa presidência europeia que colocou sobre o triplo mote de Retoma, Poderio, Pertença?

Demos crédito a Macron. A sua ascensão é surpreendente, mas o seu desempenho também. Se nos habituámos a associar à ideia de presidência imperial figuras como Charles de Gaulle ou François Mitterrand, o certo é que mesmo sem o carisma e o lastro desses dois tem estado muitos pontos acima de Nicolas Sarkozy e de François Hollande, os seus imediatos antecessores. E se for reeleito e este semestre francês correr bem, Macron tem sérias possibilidades de se afirmar como a figura de proa de um novo projeto europeu, capaz se de imaginar já sem os traumas do Brexit (que deixou, não esquecer, a França como único representante da UE no Conselho de Segurança da ONU) e com uma voz no concerto das potências sem subjugação aos Estados Unidos.

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