Satélite europeu que vai observar exoplanetas tem portugueses "a bordo"

O CHEOPS é primeiro satélite europeu para medir o pulso a outros mundos distantes. Equipas portuguesas estão desde o início no projeto e vão coordenar dois dos seus programas científicos

Susana Barros não esconde uma ponta de nervosismo, e não é caso para menos. Foram anos de trabalho, e este é momento que há muito esperava - ela e todos os envolvidos no projeto do telescópio espacial CHEOPS. Depois de ter sido adiado - chegou a estar previsto para 2017, e depois para 2018 - o CHEOPS (de CHaracterising ExOPlanet Satellite), tem o lançamento previsto para esta terça-feira, a partir do centro espacial de Kourou, na Guiana Francesa, quando forem 8.54 (hora de Lisboa). Mas acabou por não acontecer.

Será o momento da verdade para o novo telescópio espacial desenhado para observar planetas fora do Sistema Solar, que a investigadora do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) - instituição que lidera a participação científica portuguesa na missão - vai seguir à distância, a partir do Porto.

"Há sempre algum nervosismo num lançamento espacial", confessa. Mas é, sobretudo, o que vem a seguir que lhe ocupa o pensamento. Se tudo correr bem, como todos esperam, dentro de um mês começam a chegar os dados das observações do novo satélite. E aí, então, é que a nova etapa da aventura científica vai começar.

Com o CHEOPS - ele foi desenhado e concebido para isso mesmo -, a comunidade científica espera dar um importante passo no estudo dos exoplanetas, levando o conhecimento sobre eles para um novo patamar. A ideia é medir-lhes o raio com uma precisão sem precedentes, verificar a existência ou não de atmosferas, medir-lhes a temperatura e caracterizar cada um dos exoplanetas que vão estar sob escrutínio. Dos 4143 atualmente conhecidos. serão mais de mil os estudados ao longo próximos três anos e meio, a duração prevista da missão.

A trabalhar no IA, no Porto, desde 2015, dedicada à missão CHEOPS, Susana Barros esteve diretamente envolvida, juntamente com outros colegas do instituto, na definição do projeto científico para o telescópio e será igualmente a coordenadora de uma das seis áreas científicas da missão: aquela que vai procurar luas e anéis naqueles mundos distantes, algo que até hoje nunca foi possível descortinar nesses mundos tão distantes da Terra. O CHEOPS, o primeiro telescópio espacial europeu concebido para estudar exoplanetas, é o primeiro a aventurar-se nessa busca. E, quem sabe, talvez venham daí muitas novidades.

Para os portugueses, no entanto, este satélite tem ainda uma outra particularidade saborosa: entre todos aqueles em que há equipas nacionais envolvidas desde o primeiro momento, este é o primeiro a ser lançado.

Além do IA, a outra participação portuguesa na missão CHEOPS foi protagonizada pela empresa Deimos Engenharia, que concebeu o software de decisão para as observações a serem feitas em cada momento pelo satélite.

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1...

O calendário está feito. Se não houver ventos contrários, algum imprevisto ou atraso de última hora, a contagem decrescente começa exatamente às 8.44 (hora de Lisboa) desta terça-feira. Dez segundos depois, um foguetão Soyuz-Fregat elevar-se-á nos ares, partindo para o espaço com o CHEOPS e outros passageiros congéneres a bordo.

A largada do telescópio espacial europeu, que ficará numa órbita entre os 800 e os 1200 km de altitude, deverá acontecer pelas 11.20, (ainda hora de Lisboa) devendo a primeira comunicação do satélite com terra ocorrer entre 20 minutos a meia-hora depois.

Se tudo correr de acordo com o planeado, dentro de um mês, iniciar-se-á então a aquisição dos dados científicos, o momento mais esperado por todos os envolvidos na missão. "Temos estado a preparar os modelos para análise dos dados e dentro um ano, mais ou menos, deveremos ter já resultados sobre uma parte dos exoplanetas, nomeadamente sobre a existência de atmosferas e respetivas temperaturas", adianta Susana Barros.

O estudo das atmosferas, justamente, é outro dos seis programas científicos do CHEOPS, que também será coordenado por um investigador do IA, neste caso Olivier Demangeon.

De resto, os investigadores do IA, ao qual coube desenvolver, em colaboração com uma equipa francesa, o software que permite fazer a chamada redução de dados (correção) para sua correta leitura final, estão envolvidos em todos os programas científicos do CHEOPS relativos aos exoplanetas: além da busca de luas e anéis, e do estudo de eventuais atmosferas, a medição exata do raio de cada um dos exoplanetas, havendo sempre a possibilidade da descoberta de novos planetas pelo método dos trânsitos, para o qual o CHEOPS está vocacionado. Através deste método, os cientistas medem a diminuição da luz de uma estrela quando um exoplaneta na sua órbita passa na sua frente.

Dentro de três anos e meio, os novos conhecimentos adquiridos sobre os exoplanetas com os dados do telescópio espacial talvez possam já permitir saber quais deles deverão ser estudados em mais detalhe para se ir ainda mais além. Por exemplo, para avaliar o seu potencial para albergar vida. Mas, para já, o lançamento. Está tudo a postos.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG