Márcia já não tem medo do palco e vai prová-lo no Coliseu

Será o primeiro concerto em nome próprio no Coliseu dos Recreios. Rodeada pelo público que a acompanha há dez anos, Márcia vai fazer aquilo que gosta mais: dar a sua música aos outros.

Era muito mais do que timidez. "Quando comecei, tinha medo de ir para o palco, mas medo sério, era terror", conta Márcia. Quando começou, há dez anos, tinha já coisas para dizer mas ainda não sabia se haveria alguém para as ouvir. E tinha medo. "Como é que eu me curei disso? Foi percebendo que o público estava comigo, as pessoas estão a torcer por mim, tal como eu, quando vou ver um concerto, também estou a torcer pelo músico que está no palco. É ao público, então, que devo essa conquista do palco. E isso foi ótimo porque eu ganhei um espaço novo na minha vida: um espaço de desabafo enorme, um espaço de transcendência também - porque a música é algo maior do que nós, não é terreno, é do mundo das ideias e das sensações."

Nesta quarta-feira, já sem medo, Márcia vai agradecer ao público no seu primeiro concerto em nome próprio no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. "É uma sala que eu desejei muito", confessa a cantora e compositora. "Mas não queria dar um passo maior do que a perna para lá chegar. Antes teria sido precipitado. É bom esperar para saborear um determinado bombom na altura certa e agora é o momento certo." E não é por acaso que este concerto no Coliseu acontece em dezembro, quando a disposição da sala está em forma de arena, por causa do circo: "Queríamos aproveitar a disposição 360º para eu estar no meio das pessoas. Era o que fazia sentido."

Também por isso, desta vez não há convidados. Só Márcia e os seus músicos habituais: "Esse seria outro tipo de concerto e já o fizemos muitas vezes. É outra coisa. Se tivesse convidados iria celebrar a minha relação com essas pessoas, desta vez vamos celebrar a música e a minha relação com o público", explica.

Para o Coliseu, Márcia traz os temas do seu último disco, Vai e Vem, lançado há um ano, mas traz também outros temas, mais antigos. "Há músicas que eu não posso não tocar. Por exemplo, o Bom Destino. As pessoas cantam a letra toda, eu até me calo e deixo o público cantar. E há outras canções que são teimosia minha, são importantes para mim por determinada razão, dizem muito daquilo que é a minha motivação para escrever ou para fazer música."

E que motivação é essa? "Às vezes parece-me um absurdo: o que é isso de viver a fazer canções? Pergunto-me se faz sentido. Um dia eu acho que é bom, outro dia penso que é mau, mas não sou eu que interessa. Quando vejo as reações das pessoas, quando recebo mensagens, quando vejo alguém a chorar num concerto ou alguém verdadeiramente feliz, percebo que faz sentido. Não faço de propósito mas interessa-me muito aquele momento em que a música salvou o dia de alguém. Eu já senti isso com muitas músicas e, de repente, saber que a minha música pode ajudar as outras pessoas é uma felicidade. É um ciclo que se fecha. Eu escrevo uma canção porque tinha de desabafar alguma coisa, algo que me está a incomodar, às vezes nem sei bem o quê. Quando chega a outra pessoa, quando de facto conseguimos comunicar com alguém percebemos que faz todo o sentido. Esse é o grande desafio: que as pessoas nos entendam."

Márcia tem 37 anos, dois filhos e cinco discos editados. Nestes dez anos, desde que lançou o primeiro EP e mostrou ao mundo o tema A Pele Que Há em Mim (que mais tarde haveria de cantar em dueto com JP Simões e tornar-se-ia um dos seus grandes sucessos), cresceu muito. O tempo tirou-lhe o medo do palco e trouxe-lhe "maturidade e know-how" - e, por arrasto, alguma autoconfiança. "Sou um bocadinho ditatorial", admite a música. "Não foi assim sempre, foi algo que fui assumindo. Percebi neste último disco, quando tive de tomar decisões, que somos quatro num estúdio mas sou eu que tenho a palavra final. Não é uma questão de arrogância, é tomar as rédeas daquilo que é a minha linguagem. É o meu discurso, certo ou errado não existe, existe uma identidade que é a minha."

Sabe exatamente o que quer e vai atrás disso. "Não vais conseguir - é a melhor frase que me podem dizer", conta, entre risos. "Não suporto que me digam isso. Até me dá mais pica para conseguir fazer aquilo que quero." Seja no som que quer para as suas canções, seja na imagem que a elas se associa, Márcia gosta de controlar tudo. "Eu opino sobre muita coisa, sou muito criteriosa. Não tenho dificuldade em delegar as coisas que não sei fazer, mas tenho dificuldade em largar sobretudo quando são coisas que eu tenho uma ideia de como quero que se façam."

Não admira por isso que cada vez mais goste de realizar os seus próprios videoclipes. "Tenho uma imagem para cada música, há um filme na minha cabeça que é o filme que eu faço quando escolho o som para aquela canção. A imagem surge-me com a música. Uma sensação, uma energia. Está tudo ligado." O culminar disso é o vídeo da música Amor Conforme, lançado na semana passada, o primeiro completamente realizado por Márcia:

"Para mim esta canção era a mais importante do disco, até tive para chamar ao disco Amor Conforme", conta ela. "Foi uma das músicas que surgiu quando já estávamos a gravar. Eu gravei 17 canções, ficaram 12. E quando fiz esta soube que ela tinha de ficar, saiu outra, porque esta é o fio do disco. Fala de superação, de seguir em frente, de às vezes teres de procurar outros caminhos, nada é garantido na tua vida. Fala de resiliência."

Concerto de Márcia
Coliseu dos Recreios, Lisboa
Quarta-feira, 18 de dezembro, 21.00
Bilhetes a partir de 15 euros

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