Falta de energia

Em conversas com vários responsáveis de ministérios em Berlim, no início de junho, tive sempre a irreversibilidade do abandono do nuclear no final do ano como resposta à pergunta sobre se a guerra na Ucrânia e a redução de importação de gás russo (tanto a médio-prazo por decisão alemã, como imediata por retaliação russa) obrigaria a repensar o destino das três centrais ainda em operação. Não tive dúvidas de que a decisão estava tomada, mesmo que tivesse sido discutida a política do abandono nuclear pelos parceiros governamentais, ou seja sociais-democratas, verdes e liberais, assim que se aperceberam das primeiras implicações do choque entre o Ocidente e a Rússia. E uma das razões da minha convicção era que não só o nuclear nunca fora popular entre a população alemã, como a política de encerrar as centrais até 2022, que começou por ser um objetivo dos verdes, com a ex-chanceler Angela Merkel acabou por tornar-se quase unânime nos grandes partidos alemães.

A democrata-cristã Merkel confirmou o abandono do nuclear num anúncio em 2011, depois do grave acidente na central japonesa de Fukushima. Um pouco como a Itália decidiu fechar as suas centrais na sequência do desastre em 1986 em Chernobyl, na então Ucrânia soviética. A Alemanha passaria, nessa lógica, a ser o segundo membro do G7 sem energia nuclear, um risco para a competitividade da sua economia, a maior da Europa, mas também um desafio - se o gás fosse chegando a bom preço, até as renováveis finalmente serem uma solução.

Agora surgem notícias de que as centrais alemãs poderão ter algum tempo extra de funcionamento, dado o risco de crise energética no próximo inverno. Desta vez é o Wall Street Journal a avançar que o anúncio da decisão está iminente, mesmo que o chanceler social-democrata Olaf Scholz ainda a mantenha em segredo. Sobre eventuais problemas de segurança, as palavras nos bastidores são tranquilizadoras, afinal se as três centrais eram fiáveis até 31 de dezembro de 2022 também o serão a 1 de janeiro de 2023.

Esta questão do abandono ou não do nuclear vem sobretudo revelar como na Europa Ocidental em geral, e até numa potência industrial e gigante demográfico como é a Alemanha, o futuro energético será feito de incertezas até que as renováveis se imponham. Ao contrário dos Estados Unidos, dotados de recursos energéticos que sustentam aquela que é a maior economia do planeta, a Europa Ocidental é um colosso económico com total fragilidade a nível energético, suscetível de sofrer o impacto de crises geopolítica várias, seja no Magrebe, no Médio Oriente ou na Europa de Leste, como agora. Na União Europeia, só a França parece um pouco resguardada, graças, exatamente, à forte aposta no nuclear.

A par desta gestão de crise, alemã mas não só, enquanto continua a guerra na Ucrânia e o choque com a Rússia, há que seriamente pensar numa estratégia energética para a Europa Ocidental. Que salve a economia e o planeta.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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